Algumas insuportabilidades sociais


O fanático fundamentalista e o autocêntrico estão num grau de intolerância e de insuportabilidade semelhante ao do intelectual pedante. O fanático fundamentalista é aquele que, ao eleger um determinado objeto, pretende que todos ao mesmo se submetam. Se nega a discutir ou aceitar qualquer tipo de situação ou de argumento que não compactue consigo próprio, sendo impermeável a qualquer outro raciocínio que não glorifique seu próprio objeto de adoração. Ao contrário do que muitos pensam, o fundamentalista não é um religioso, haja posto que pessoas religiosas verdadeiras possuem, no mínimo, compaixão e respeito pelo argumento alheio, mesmo (e especialmente) se lhe forem contrários. Uma vez que o fanático fundamentalista eleja um objeto de culto, a não submissão ao mesmo poderá provocar situações constrangedoras ou até potencialmente perigosas.

Já o autocêntrico irá eleger uma série de circunstâncias sócio-culturais e de significações que terão um plus em relação às demais. Assim como o fundamentalista, exigirá a submissão de outros a tais signos, mas não será tão exigente ou partilhará de tantos auto-sacrifícios para impor o seu ponto-de-vista e a sua visão de mundo. Simplesmente o que lhe seja relevante é melhor do que qualquer outra coisa, inclusive, e especialmente, ele(a) próprio(a). Embora desconheça, no mais das vezes, outras situações ou outros cenários, já convenceu a si próprio de que tais situações ou quais cenários tenham um menoscabo àqueles que elegeu. Tudo que o rodeia, seu mundo conhecido é melhor do que os outros. Jamais foi à uma determinada cidade, mas dirá que aquela em que nasceu é melhor que a desconhecida; nunca conviveu com culturas distintas, mas aposta, de olhos fechados, que a cultura de seu povo é superior às outras e invariavelmente, para o autocêntrico tudo que não esteja dentro de sua íntima escolha ou afeto é de menor monta ou qualidade.

Ao pedante intelectual, normalmente positivista e acadêmico até as raízes do seu entendimento, são necessários o racionalismo teórico e retórico, pelo qual procura fazer com que a realidade se adeqüe à sua visão-de-mundo, não dando espaço real à discussões mais flexíveis. Além disso, uma sisudez que provêm da concepção estóica de que o humor é bom para os outros, os que não possuem capacidade de compreensão dessa realidade que ele acondicionou em um cadinho. O pedante intelectual sente-se instrumentalizado para explicar os porquês dos fatos e dos comportamentos dos outros, pobres seres que ainda não conseguiram galgar os estreitos, íngremes e tortuosos degraus do conhecimento superior. Ele tanto mais entende dos assuntos quanto menos os tenha vivenciado, sendo relevante que à realidade adira uma teorização academicista e densamente capilarizada. Assim, encastela-se nos limites e nos limitantes aos quais se impôs, sem estabelecer vasos comunicantes com o simples dos mortais. Mesmo que ele não se diga superior aos outros, seu ego transcende e mostra que ele pensa assim.

A arrogância é uma qualidade, um predicado inerente aos fundamentalistas, aos egocêntricos e aos pedantes intelectuais. Como, em suma, é imperioso tanto ao fundamentalista (por seu fanatismo intrínseco), como ao auto-cêntrico (por suas certezas impermeáveis) e ao intelectual pedante (por seu positivismo academicista) a submissão de terceiros, cumpre que a arrogância lhes seja um eixo de referência, um marco comportamental.

É necessário que haja uma devida equalização mental para que a arrogância prospere e essa é dada pela sensação de poder e pelo sentimento da glória. Assim prossegue o arrogante dando vazão ao seu auto-sustento que somente se concretiza a partir do momento em que a submissão do terceiro é um garante à sua posição superior ante o mesmo.

De todo modo, ser arrogante é ser coercitivo, é distanciar-se do outro e, mais que isso, é buscar aglutinar-se em grupos impermeáveis, o que é um dado comportamental a determinadas comunidades, sejam religiosas, profissionais, educacionais e assim por diante. Todas irão se equivaler, de algum modo, a partir do sentimento de isolacionismo que cultivam, à episteme que envolve o conhecimento comum, seja de que ordem for, de uma linguagem inacessível ao comum dos mortais, de expressões específicas ao grupo e de uma olímpica intolerância.

Dentro desse cenário, o profissional arrogante é um tópico à parte; convencido de sua excelência, comanda um séquito que, ou lhe deve uma subordinação funcional (empregados a chefes, graduandos ao professor orientador, alunos aos professores e assim por diante) ou lhe devota uma reverência que chega às raias da idolatria canina, oca e sem sentido.

Com tal poder reconhecido, pode o mesmo exercitar sua capacidade de dizer mesmices ou idiotices e demonstrar sua olímpica ignorância, especialmente se falar de temas que não estão afeitos à sua área de atuação, pois seus subordinados funcionais ou reverentes pensarão que eles sim, pobres mortais, não têm discernimento ou capacidade intelectiva para contrapor seus próprios pensamentos àquele iluminado.

De todo, é imprescindível a arrogância, caminho seguro para o equívoco e para a contribuição plena para incrementar a burrice geral, em seu sentido mais crasso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s