Marla


http://www.google.com.br/imgres?sa=X&rls=com.microsoft:en-US&biw=1366&bih=667&tbm=isch&tbnid=wgn6I5JwpzsMYM:&imgrefurl=http://ocamal.blogspot.com/2009/01/sombra-projetada-h-anos-o-fantasma-de.html&docid=7NQRaz9RZmulhM&imgurl=http://3.bp.blogspot.com/_T3XbGjgzWzM/SXjW_-cZ_BI/AAAAAAAAAp0/iV5FBHd6EcM/s400/sombra%252Bprojetada%252B-%252Bcv.jpg&w=400&h=296&ei=LXJEUpmLDde44APBjYDQCg&zoom=1&ved=1t:3588,r:97,s:0,i:379&iact=rc&page=5&tbnh=158&tbnw=192&start=90&ndsp=24&tx=141&ty=48

 

MARLA

Escrito em 30 de julho de 2007
1
Marla, ao chegar ao seu apartamento, mesmo antes de abrir a porta, ficou alerta: claramente ouviu o seu CD player tocando. Cuidadosamente entrou, mas logo se arrependeu: houvesse alguém, poderia tê-la facilmente dominado. No entanto, apenas havia o som que provinha do aparelho. Marla vasculhou o imóvel, mas não encontrou absolutamente nada fora do lugar. A cozinha permanecia do mesmo jeito que a havia deixado, ainda com a xícara do café da manhã e alguns poucos pratos para lavar. No quarto, a cama estava arrumada, e havia, na sala, uns dois ou três descansos para a cabeça jogados indolentemente, por aqui e por ali. Tudo normal, Aproximou-se do aparelho e retirou o CD  I love MPB: Maria Bethânia, 2004. Recolocou-o e acionou o mecanismo. Há muito não o escutava e, já mais tranquila  resolveu fazê-lo. Gostava muito de Bethânia, e sabia de cor todas as letras das músicas. Também tinha uma noção muito clara da seqüência delas. Ligou o som em volume alto e decidiu tomar um banho.
“Muito quente”, pensava enquanto se banhava. Sentia-se bem, e embora não pudesse explicar porque o cd estava ligado quando chegara em casa, atribuiu o fato a uma simples distração. “De vez em quando a memória nos engana…” Era uma oportunidade rara de conforto àquela que se dispusera. No banheiro, despiu-se não apenas das roupas, mas também procurou afastar todos os pensamentos de rotina de trabalho. Queria, de repente, dar-se esse descanso. Bethânia continuava no CD, e era como que uma presença querida que a embalava, que lhe deixava feliz. Fechou os olhos, pensou em coisas agradáveis, enquanto ouvia “…a fé no que virá e a alegria de poder olhar pra trás, e ver que voltaria com você de novo a viver nesse imenso salão, ao som desse bolero, a vida, vamos nós, e não estamos sós, veja meu bem, a orquestra nos espera, por favor mais uma vez, MALDITA! MALDITA SEJAS TU RENEGADA!” O grito rouco, odioso, claro e alto, a atingiu como um trem. O susto fez com que Marla perdesse o equilíbrio e batesse violentamente com a cabeça na parede, abrindo-lhe um sulco na nuca. Desesperada, com a adrenalina e o terror a tomar-lhe o corpo, tentou se proteger, mas a visão do sangue entorpeceu-a e mergulhou-a em um desmaio enlouquecedor. Na sala, a música continuava: recomeçar…
2
Três dias após Marla foi consultar o médico; ainda sofria com hematomas, mas sua maior angústia provinha da desestabilização emocional que sofrera. Dez anos trabalhando na mesma indústria, uma carreira que, na época em que seu pai trabalhava, chamar-se-ía de assegurada, mas que hoje em dia dependia de uma infinidade de fatores que ela sequer poderia alcançar… Apartamento próprio, relações intensas, mas fugidias, Marla pensava em tantas coisas, e as lembranças a alcançavam a todo instante, mescladas com preocupações do dia-a-dia, e com uma insegurança que fazia com que as suas mãos ficassem úmidas, gélidas. Finalmente chegara. Manobrou o carro e colocou-o em um dos boxes da garagem que servia ao consultório médico. “Nada como ter dinheiro para pagar esses confortos”, pensou. Entrou diretamente no elevador, e de repente, passou a sentir uma perturbação que tentou afastar. Teclou na campainha, que abriu a porta. A secretária atendeu-a gentilmente e perguntou se não desejaria um cafezinho.
O consultório era bem decorado, o que fez com que ela se sentisse bem. Pegou uma revista ao acaso e tentou se concentrar no que lia, fosse o que fosse. Novamente sentiu-se incomodada. Não era nada visível, não era nada real, mas algo ali não estava bem. Desconcertada, jogou-se à leitura. Depois de um tempo indefinido (dez, vinte minutos, uma hora), a voz da secretária chamou-a. O médico era um homem já maduro e iniciou com uma entrevista preambular (diagnose, no jargão médico) para poder entender o que havia acontecido. Ela contou exatamente o que ocorrera, da sua chegada em casa, do CD ligado, do banho… Subitamente estancou. Havia algo indefinido naquele médico…algo que transcendia a consulta. Sim, agora se dera conta: não tinha conseguido olhar nos olhos dele… mas prosseguiu. Novamente o olhar dele agora aparecia como que embaçado, e ela se deu conta de que era a iluminação. Havia um ponto de luz que incidia diretamente sob os olhos dele. Tranquilizou-se e prosseguiu. Agora sim, ele finalmente falaria. Ele pigarreou e disse: Senhora Marla, entendo o que a trouxe aqui – a voz era profunda, grave, mas ao mesmo tempo suave – No entanto – ele prosseguia – não há nenhum outro episódio, segundo a senhora relatou, que me pudesse fazer pensar em algum tipo de surto psicológico, a não ser que algo tenha ocorrido que não tenha me relatado.
Marla estranhou aquele tipo de argumento, pois ela tinha falado muito, tinha explicado além do que ele lhe havia solicitado. A entrevista incluíra um passeio breve sobre a sua vida, sobre as dificuldades que enfrentara inclusive em termos afetivos e psicológicos em relação a seus pais: a decisão de ir morar sozinha, as reclamações constantes que sua mãe lhe dirigira, o afastamento e a indiferença de seu pai, a dor que lhe causara o rompimento com ambos. O que esquecera, se além disso juntara todos os detalhes do que lhe havia sucedido três dias antes? Procurava agora se esforçar, o médico agora falava em “traumas”, “hipossuficiências afetivas”, e de repente passou a se sentir confusa. O que ela estaria “escondendo” como se fora algo do qual quisera se refugiar ( a memória prefere esconder os traumas, relegando-os ao inconsciente, lera em um livro de psicologia), algo de que não quisesse se lembrar?
As perguntas iam e vinham como se fossem novos tecidos sendo criados a cada instante, pedaços de memórias dispersas, uma sensação de angústia que a corroía a cada minuto que passava. O médico se levantara e passeava pelo consultório. Você não sabe, mas eu sei! A voz veio brotando como uma lâmina, por detrás dela. Automaticamente os pelos de sua nuca se eriçaram, enquanto o sangue congelava e ela toda colava à poltrona. A mesma voz de há três dias atrás! Enlouquecida, com o coração a disparar, não teve coragem de balbuciar mais nada. “Eu sei o que você esconde, eu sei o que você não sabe, eu sei dos assassinatos, das mortes todas, dos passeios noturnos, e estou aqui para ficar junto à você! Olha – a voz agora era um grito – olha pra mim!” Lentamente Marla voltou a cabeça. Do fundo do consultório, olhos amarelos a fitavam.
3
O chá fumegava enquanto Marla caminhava pela sua cozinha. Era preciso pegar a chaleira, era preciso despejá-la, era preciso apanhar a xícara (onde?) no armário, pô-la sobre a mesa, depois apanhar o açúcar, despejá-lo e, finalmente, com muito cuidado, beber a infusão. Assim, com calma, com muita calma, para não despejar o líquido fervendo sobre ela própria, como já acontecera… Lentamente, lentamente. Primeiro o chá, depois as bolachas, era preciso esquecer do demais, do apartamento, do banho, do trabalho, da vida, dos amantes que tivera em sua vida, dos dois abortos, era preciso esquecer de tudo e concentrar-se unicamente em beber o chá, beber o chá, beber o chá…Depois, levantar, ir para – para onde? Levantar porque? Fazer o que? Os olhos amarelos a fitavam cada vez que ela fechava seus próprios olhos: terror infinito. No CD player, Bethânia continuava contando histórias de amor. No céu, uma estrela prateada cortava a noite, enquanto o vento açulava os transeuntes e esfumava de uma vez por todas a mulher que, até semanas atrás, Marla havia sido. HILTON BESNOS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s