Uma história breve, talvez –


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Não sei quem sou. Literalmente, não tenho mais ideia de quem sou, e se consigo ainda ser claro no que digo, é só o que posso fazer. Não consigo mais ligar nomes a objetos. É muito doloroso não saber, por exemplo, nada da minha história, que ficou sepultada para sempre. A cada dia tenho de me lembrar o que é um garfo, mas não sei para que serve. Estranha essa voz dentro de mim, que faz com que eu possa raciocinar, mas isso é muitíssimo pouco. Estou sentado aqui, mas não sei por que, nem como, muito menos como vim parar aqui. Agora vem a mulher de sempre, com um sorriso amarelo e forçado me entregar alguma coisa. Pelo ronco da minha barriga, acho que devo comer, mas tudo em mim vem em lapsos. Meu cérebro, tenho impressão, está solto, e minha mente está flutuando por aí.  Tem algo fumegando na minha frente, e, se não me engano, serve para comer. Ao lado, algo que não sei o nome, mas que serve para comer. Co-mer, é hora de co-mer. Me fazendo de independente, pego o instrumento côncavo, mergulho na infusão e levo à boca. Só nisso penso agora. A palavra é co-mer, co-mer, acho que isso é agora, mas pode ter sido ontem, amanhã não que amanhã ainda não veio, só daqui a pouco vem o amanhã. A infusão tem gosto de algo que não sei, não consigo recordar, mas não é tão ruim. Daqui há pouco vão me aplicar outra medicamento. Me-di-ca-men-to, balbucio infinitas vezes. A infusão terminou, agora vou dormir. A sensação é essa, dormir, dormir, dormir. Então, até amanhã amanhã amanhã amanhã amanhã, aanhã…

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