Sobre a pedagogia pós-moderna


Quem me conhece profissionalmente, sabe que não sou exatamente um pedagogo pós-moderno. Creio que são múltiplas as formas de se aprender atualmente, mas não é necessário nem que o professor se converta em um show man permanente, nem que o sistema de ensino latu sensu seja tão intervencionista a ponto de retirar do corpo docente a capacidade de decidir. É claro que poderia escrever um texto a respeito do assunto, como já o fiz tantas vezes, mas nesta oportunidade prefiro que Dany-Robert Dufour, filósofo, professor de ciências da educação na universidade Paris VIII e diretor de programa no Collège International de Philosophie fale, através do livro A Arte de Reduzir as Cabeças, Sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal, Companhia de Freud Editora, RJ,2005.

Vamos, pois a Dufour:

O que é um pedagogo?

É preciso distinguir dois tipos de pedagogo, sob pena de não compreender mais nada disso:

o pedagogo pós-moderno é aquele que, para o bem dos alunos, renuncia aos trabalhos que eles se tornaram pouco hábeis para realizar. Contra ele vale o adágio segundo o qual é preciso desconfiar sempre daquele que age para o bem dos outros;

o simples pedagogo é aquele que busca todos os meios possíveis de fazer o aluno entrar no discurso do saber, instalando-se na função proponente e instalando o aluno na função crítica.

Posta esta distinção capital, resta-me acrescentar que as primícias da pedagogia pós-moderna haviam sido perfeitamente identificadas em suas três categorias principais por Hannah Arendt desde os anos 1960 (afirmação da autonomia da criança, promoção de um saber ensinar sem referência à matéria ensinada, substituição do aprender pelo fazer). É esse mesmo discurso que encontramos hoje, quarenta anos depois, no discurso dos pedagogos pós-modernos. O modelo educacional que prevalece hoje contra o “arcaísmo” integrou a famosa “revolução audiovisual”, que se desenrolava paralelamente a essa “revolução pedagógica”, de modo que o que doravante funciona na escola é o modelo do talk show televisivo, onde cada um pode “democraticamente” dar sua opinião.

Ao fazer isso, tudo no saber se torna assim uma questão intersubjetiva. Não há mais esforço crítico a fazer para incessantemente deixar seu ponto de vista a fim de ter acesso a outras proposições um pouco menos limitadas, menos especiosas e melhor construídas. O que se tornou intolerável nesse discurso é o professor que incessantemente arrasta e empurra seus alunos para a função crítica. Este é agora o inimigo a ser abatido, o que não respeita o ponto de vista do “jovem”. Aliás, é assim que numerosos pedagogos pós-modernos “explicam” a violência na escola: os “jovens” reagiriam à autoridade indevida de seus professores – certos pedagogos pós-modernos militantes chegam mesmo a comparar a resistência da classe trabalhadora diante dos patrões à resistência dos “jovens” à educação! Eles assim assimilam, sem mais, a dissimetria entre o saber do professor e o do aluno, pela qual se funda toda relação educativa, à violência da dominação social. Eles não percebem que, de fato, se numerosos jovens se encontram hoje coagidos à violência, é porque o sistema que eles instalaram não lhes deixa outra saída: eles foram “produzidos” para escapar à relação de sentido e à paciente elaboração discursiva e crítica. Por isso pode-se, sem dificuldade predizer, contradizendo as certezas dos pedagogos pós-modernos, que quanto menos os alunos entrarem na relação professor-aluno, mais eles estarão sujeitos à violência.

Com efeito, se se sai da relação de sentido, só se pode ir para a pura relação de forças e para uma era de violência generalizada; faço alusão a todos esses acontecimentos trágicos que doravante se contam às dezenas nos países desenvolvidos e que dissimulam os milhares de outros atos mais usuais de violência (rackets, roubos, violações, agressões, incivilidades, impossibilidade de ensinar).  Esse fenômeno afeta todos os países desenvolvidos.

Diante desses acontecimentos, muitos especialistas em pedagogia pós-moderna quiseram, como de hábito, fazer crer em simples construções midiáticas. Foi preciso que os acontecimentos se encadeassem, chegando a tomar uma aparência trágica, para que fosse publicamente reconhecida a gravidade dos fatos. E para que se abrisse, na sede da UNESCO em Paris, de 5 a 7 de março de 2001, a primeira conferência mundial dedicada às “violências na escola e às políticas públicas”, com a participação do primeiro ministro. É claro, a questão da desestruturação simbólica própria do período pós-moderno não foi abordada nela, já que o que preocupa os pesquisadores é essencialmente a interpretação sociológica dos fatos de violência escolar (ela é conhecida: para acabar com a violência, basta compensar as desigualdades sociais), entretanto o que preocupa o político é apenas agir tendo em vista a diminuição da visibilidade midiática desses mesmos fatos.

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