O ócio é precioso Domenico de Masi


O ócio é precioso

O sociólogo que prega horas livres
como estímulo à criatividade lamenta o
desperdício de tempo nos reality shows

Maurício Oliveira

Quem entra em uma aventura dessas está à procura da fama instantânea, do sucesso fácil. Em um ano estará arruinado.

O sociólogo italiano Domenico de Masi se tornou conhecido em todo o mundo ao pregar o ócio como solução para os problemas existenciais e econômicos da humanidade. Para ele, as jornadas longas no trabalho são a origem das altas taxas de desemprego e, mais que isso, um desrespeito à natureza humana. “É impossível ser criativo nessas condições. As boas idéias só aparecem quando há tempo livre para pensar”, diz. Um recente fenômeno da mídia tem desafiado as teorias do italiano, no entanto: os programas do gênero reality show. Febre em vários países, inclusive no Brasil, eles demonstram que ter uma infinidade de horas à disposição não assegura o surgimento de gênios. Ao contrário, parecem contribuir para reforçar o papel que o ócio sempre cumpriu no imaginário popular: o de pai de todos os pecados. De Masi, 64 anos, falou sobre o assunto na entrevista a seguir, concedida em um hotel de São Paulo às 8h30 da manhã – horário escolhido por ele.

Veja – Os participantes dos programas Big Brother Brasil e Casa dos Artistas passam semanas sem conversar sobre temas relevantes e quase nenhum deles demonstra cultivar o hábito da leitura. Isso não é uma evidência de que as pessoas, em geral, não sabem aproveitar o tempo livre?


De Masi –
O tempo tem valor relativo, depende de quem o usa. Um elefante, que vive 100 anos, não pode pedir a uma borboleta que o espere por meia hora, porque isso representa boa parte da vida dela. Em nossa sociedade competitiva, somos educados apenas para o trabalho, tanto pela família como pela escola e pela sociedade. Mesmo se levando em conta as atuais jornadas de dez horas diárias, o trabalho ocupa apenas um sétimo do total de horas que temos para viver e o lazer consome três vezes mais tempo. Precisamos de educação para desfrutar o ócio, mas ele ainda é considerado um perigo para a sociedade. Esses programas de televisão revelam grupos de pessoas que não conseguem dar sentido ao tempo e ao ócio, e nem é por culpa delas. É que não foram educadas para isso. E o pior é que, do outro lado da tela, há milhões e milhões de pessoas que também poderiam estar aproveitando melhor o tempo. Programas desse tipo são a morte do tempo.

Veja – No programa Casa dos Artistas há um participante que até tenta introduzir discussões mais filosóficas, mas é sempre repelido pelos demais. Já os rapazes e moças que têm o corpo supermalhado e adoram conversar sobre assuntos relacionados ao físico são os mais populares entre os colegas e o público. Pensar está fora de moda?


De Masi –
Não podemos considerar que os participantes desse programa sejam um extrato fiel da sociedade, já que estão submetidos à condição incomum de ser vigiados 24 horas por dia em um ambiente de disputa. A triste verdade é que boa parte dos competidores dos reality shows estará destruída dentro de um ano. Na Itália, conheci um jovem que caiu em profunda depressão depois de participar do Grande Fratello. Ele viveu uma fase de assédio incrível e esqueceu-se de que, na verdade, não era nada além de um produto descartável, artificial. Outras “celebridades” foram sendo fabricadas e os convites para ele, diminuindo. Ficou desesperado. Foi o triste desperdício de uma vida humana.

Veja – Uma casa que reúne pessoas classificadas como “artistas” não deveria ter um nível de criatividade acima da média?

De Masi – Creio que os artistas capazes de aceitar um convite do gênero não sejam artistas de primeira linha. Fernanda Montenegro não está lá, está? Os que entram em uma aventura dessas estão à procura da fama instantânea, do sucesso fácil. Em um ano serão tão vítimas quanto o rapaz da Itália. O único verdadeiro beneficiado é o empreendedor da televisão, o sistema midiático. Os demais, tanto quem participa dos programas quanto quem os vê, não passam de vítimas.

Veja – A forma como o tempo é desperdiçado nesses programas parece ser uma demonstração do que ocorreria caso o ócio fosse “popularizado”, como o senhor prega. Saber desfrutar o ócio não seria um benefício naturalmente reservado à elite?

De Masi – Na primeira fase, a de conscientização sobre a importância do ócio, creio que sim. Tudo tem sido nivelado por baixo, quase sempre por objetivos comerciais, e não é fácil para ninguém escapar desse apelo. Mas o ócio criativo, aquele que junta trabalho, lazer e estudo na mesma atividade, não é apanágio da elite. Saber aproveitar o tempo não significa necessariamente conviver com a chamada alta cultura. Prova disso é que considero o Brasil como o país que corresponde melhor a minhas idéias. Quando o povo organiza os desfiles de Carnaval, está praticando ócio criativo. O Carnaval do Rio é a expressão mais completa de ócio criativo. Gera riqueza, divertimento e conhecimento. E é popular, extremamente popular.

Veja – As empresas vivem criando metodologias para que seus funcionários administrem melhor o tempo, evitando desperdícios com telefone, internet, reuniões longas demais, cafezinhos etc. Elas estão erradas ao demonstrar essa preocupação?
De Masi –
Sim, porque hoje a produtividade não pode mais ser medida pelo tempo. Antigamente, a eficiência era calculada com base na fórmula matemática elaborada por Taylor: é a quantidade de produtos dividida pelo tempo humano dedicado a sua execução. Ou seja, uma empresa se tornava mais eficiente ao fazer mais produtos no mesmo tempo ou ao diminuir o tempo para produzir os mesmos produtos. Agora, a fórmula de eficiência excluiu o fator tempo. Podem-se ter muitas idéias em poucas horas ou nenhuma em uma jornada inteira. Ou ter uma só em uma vida inteira, e ela ser suficiente. Empresas que vivem de produzir idéias e se preocupam com esses pequenos desperdícios de tempo estão fora de sintonia com a modernidade.

Veja – Muitas companhias parecem concordar com suas teorias ao dizer que valorizam profissionais com vida fora do escritório, e não mais os viciados em trabalho. No entanto, as pressões do mercado fazem com que elas exijam cada vez mais de seus funcionários. Como lidar com essa contradição?

De Masi – Empresas são ambivalentes como qualquer pessoa. Dizem uma coisa, mas na verdade pensam outra. Esse tipo de situação é resultado do cultural gap, um fenômeno antropológico e psicológico. Todos nós formamos nossa personalidade em certa época e com ela vivemos a época seguinte. Vivemos com a mentalidade do passado. Com as companhias acontece a mesma coisa. Antes, a empresa criava um produto e depois tentava impô-lo à sociedade. Um chefe tinha de se ocupar apenas do produto 24 horas por dia e por isso precisava estar em tempo integral na firma. Hoje, os produtos surgem para ocupar lacunas de mercado. O chefe tem de estar ciente da visão do mercado, circular, conhecer outros lugares, outras pessoas. Tudo isso faz parte do trabalho, não dá para separar uma coisa da outra. O problema é que a maioria das empresas quer que seu funcionário ainda se comporte como naquele tempo em que era preciso estar em período integral na empresa. É uma forte esquizofrenia.

Veja – Mas, se todo mundo tiver horários livres e irregulares, quem é que vai tocar o barco dentro da empresa?


De Masi –
É claro que vai continuar existindo um grupo de pessoas dedicadas ao trabalho manual, físico. Uma linha de montagem não pode ser levada para casa, até porque há um colega ao lado que depende de seu trabalho para fazer o dele. Nesses casos, a esperança são a automatização e a redução da carga horária. O que se poderia fazer em benefício dessas pessoas imediatamente é reduzir o número de horas dedicadas a essas tarefas. Chegará o dia em que 100% do trabalho humano será intelectual. Atividades perigosas, repetitivas e chatas serão feitas por máquinas. Quando o trabalho é executado com a cabeça, ele anda sempre com você, pode ser carregado para todos os lados e é possível fazê-lo no domingo à noite, na praia ou enquanto se lava a louça.

Veja – Por enquanto, contudo, raros são aqueles que podem dizer ao chefe que vão pegar um cineminha no meio da tarde…

De Masi – Pode ser que isso ainda não seja possível, mas a verdade é que a maior parte das pessoas já está em condições de dar alguns passos em direção ao ócio criativo, ainda mais com o advento das novas tecnologias. É antes de tudo uma decisão pessoal. As empresas que não colaboram com esse tipo de mudança estão sendo burras, estão perdendo lucro. Meus colaboradores em Roma podem fazer o que quiser com o tempo deles. Ir ao cinema, a exposições, encontros amorosos, tudo no horário de trabalho. No prédio em que fica meu escritório há um cinema, e todo mundo cansa de ir lá. Pode-se ter uma bela idéia na poltrona do cinema, na fila do cinema. Difícil é tê-la no escritório. E o importante para a empresa moderna não é possuir o tempo do colaborador, mas as idéias dele.

Veja – Como o funcionário de uma empresa em que todos passam mais de dez horas por dia pode tomar a iniciativa de trabalhar menos?

De Masi – É uma escolha pessoal, e isso inclui buscar alternativas de todo tipo para uma relação mais humana e prazerosa com o trabalho. Funcionários de grandes empresas costumam passar duas horas por dia com o filho e doze horas com o chefe. Não faz o menor sentido. O sujeito diz que age assim pelo bem do filho, é esse o álibi, mas para o filho não pode haver bem maior que ter os pais por perto. Os chefes também deveriam perceber isso. Quem fica mais tempo com o filho e consegue dar uma eventual escapada no meio da tarde para passear no parque certamente estará mais feliz e aberto a idéias.

Veja – Trabalhar muito para acumular patrimônio e assegurar um futuro seguro para os filhos não é uma boa justificativa?

De Masi – Houve uma época em que os ricos não trabalhavam para ter tempo de desfrutar a riqueza. A aristocracia de Florença usava a riqueza para aproveitar a vida. Hoje eles são os que mais trabalham, para ficar ainda mais ricos. É uma estupidez. Riqueza, hoje, é sinônimo de stress. Muita gente se muda para cidades grandes, como São Paulo, por imaginar que terá melhores condições de trabalho. Mas as metrópoles são muito dispersivas, desafiam a criatividade. Se fôssemos fazer uma pesquisa sobre onde nascem as idéias no Brasil, veríamos que boa parte provém das cidades médias, que oferecem ambiente propício para a criatividade. Atenas, na época de Péricles, contava com 40.000 habitantes. Florença, no tempo dos Medici, tinha 50.000 até 1348, quando houve uma grande peste que reduziu a população para 20.000 moradores. Todo o renascimento se deu somente com essas 20.000 pessoas. Michelangelo, Da Vinci e pelo menos mais noventa gênios surgiram daí. Qual era a grandeza dos habitantes de Florença? Em vez de acumular bens, eles desejavam apenas dar novo significado às coisas que tinham.

Veja – Todos fomos criados com a noção de que o trabalho dignifica. Ser reconhecido como alguém trabalhador sempre foi uma virtude. Como educar nossos filhos nesse aspecto?

De Masi – O primeiro artigo da Constituição italiana diz que a Itália é uma república fundada sobre o trabalho. É como se dissesse que é fundada sobre um sétimo da vida. Devemos ensinar nossos filhos e netos a fazer apenas o que ele gostam, em todos os sentidos. Quem aprende isso com os pais ensina os próprios filhos a fazer o mesmo. Quem está preso à mentalidade anterior ainda ensina que o trabalho está acima de tudo na vida. É difícil para um pai que teve um tipo de educação orientar o filho de forma diferente. Muito difícil para quem sempre encarou o trabalho como um sacrifício, uma dor, um castigo pelo pecado original. Segundo a mentalidade industrial, o trabalho levava à riqueza na terra e ao paraíso no céu. Hoje sabemos que ele não é totalizante, é apenas um sétimo da vida. Se uma moça de 25 anos estiver procurando um marido, vai preferir aquele que trabalha muito mas é tosco ou o que não trabalha tanto mas é simpático, alegre, pratica esportes, gosta de cinema, de literatura e sabe conversar sobre qualquer assunto? Ao contrário dos séculos anteriores, a identidade de uma pessoa não está mais ligada a sua capacidade de trabalhar, mas principalmente à forma como desfruta seu tempo livre, a sua personalidade global.

Veja – Depois dos atentados terroristas aos Estados Unidos, muitas pessoas passaram a falar que andam repensando aspectos da vida. Procuraram velhos amigos, decidiram dedicar mais tempo à família e tiveram a sensação de que o trabalho não era tão importante. Até que ponto essa influência permanece?

De Masi – Quando há um evento como esse, até se cria uma comoção momentânea, mas o sistema global sempre acaba vencendo. E na América é a economia competitiva. Depois de 11 de setembro, algo mudou em Nova York, um pouco menos em Chicago, um pouco menos em Seattle. Na bolsa de valores, no entanto, nada mudou. O lado emocional foi afetado, mas o concreto não. Os americanos seguem trabalhando demais, estressados, engordando. São escravos do tempo. O imperialismo continua, ainda mais duro do que era. Na América, os atentados não causaram nenhum efeito positivo. A reação foi de dor, de raiva. Era a primeira vez que a guerra chegava tão perto deles. Na Itália, nós nos habituamos a sofrer com a proximidade de tantas guerras. Mas quem não está acostumado a sofrer reage com agressividade. Foi o que os americanos fizeram.

Veja – O senhor está finalizando um novo livro, sobre a criatividade através dos tempos. O que é ser criativo?


De Masi –
A criatividade é a síntese de duas coisas: fantasia e realização. Michelangelo é criativo não apenas porque projetou a cúpula da Catedral de São Pedro, mas depois de pensá-la convenceu o papa e coordenou a construção. Criatividade não é somente ter idéias, como se imagina. Isso é apenas fantasia. Só os gênios são fantasiosos e realizadores ao mesmo tempo. Como gênios não aparecem aos montes, o segredo é montar equipes que mesclem pessoas fantasiosas e realizadoras. Isso significará um ganho para os que têm ambos os perfis. A criatividade floresce em ambientes intelectualmente competitivos. Com os meios de comunicação de massa, ambientes assim poderiam ser criados em pouco tempo em todo o mundo. Podemos transformar o planeta em uma grande Florença do renascimento. Esse é o lado potencialmente bom da globalização.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s