HB Quando o indeciso decide


Uma das ameaças frequentes ao processo democrático é a não-voz das diversas opções que compõem o campo político. A questão das pesquisas e do tempo, seja midiático (e tudo ou quase tudo é midiático), seja o disposto pela legislação eleitoral, acaba por erodir o campo político, de modo que há uma redução forçada à polarização. É o momento em que a amplitude do campo político é amalgamada pela necessidade da venda de um produto político. As facções, então submetidas a um falso bipartidarismo, se voltam, especialmente à descredenciar e criticar praticamente todas as posições e pensamentos que acodem ou particularizam a outra parte.  Logo, se uma parte advoga o continuísmo, a outra tenderá a pautar seu discurso pela via da renovação política, e assim por diante. Assim, importa bem mais o espetáculo recorrente midiático e a exploração da imagem do que o programa político ao qual o candidato se filia. Somente há consenso quando entremeia tais discursos um caráter conservador muito claro. É o que ocorreu, nas eleições para presidência da república, no que se referiu ao tema aborto. Traduzido como saia justa, valeram mais os malabarismos verbais do que uma posição clara em relação ao tema. Há outros focos assim, que passam deliberadamente ao largo da discussão do campo político. Normalmente temas sensíveis e nos quais ainda não existe um paradigma seguro a ser trilhado eficiente e efetivamente pelos bipartidários em ação.

Houvesse oportunidades reais para todo o campo político se expressar, encontraríamos, por igual, a possibilidade mais concreta de uma discussão mais intensa a respeito, por exemplo, do aborto, do racismo, da homofobia, do casamento entre os homo afetivos, enfim, de temos que são sensíveis e não são discutidos por que tais campos se esvaíram dentro de um ralo comum que depende da performance pessoal do candidato e do tempo que lhe é disposto (além dos recursos financeiros, por óbvio). De outra banda, candidatos procuram evitar campos sensíveis de discussão política, seja por estarem à caça dos votos dos indecisos, seja por não estar disposto a esgarçar sua imagem ante um eleitorado, parte cativo, parte incógnito.

É claro que se um atribuir algo positivo a “a”, outro aí verá um valor a ser combativo. No entanto, questões ainda não tarifadas pelo conservadorismo social, são deixadas, como se quer aqui no sul “a lo largo”.

Buenos Aires, 9 de janeiro de 2011.

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