Mente


Várias poesias, textos completos, fragmentos de ficção foram brotando em minha alma, em meus desejos, e assim me inundaram a boca, o cérebro, a mente, as mãos, os polegares de palavras, de sentidos, de sentimentos, de signos, de revelações, de mistérios e de proposições, até que minha língua afiada percebeu que seria impossível colocar todo aquele caos dentro de qualquer mínima tentativa de organização. Os parênteses, as vírgulas, as pontuações, as geografias do corpo, da ilusão, das lembranças, das expectativas, das metáforas e das sinonimias passaram a pesar sob meus ombros de tal modo que sequer dali poderia brotar um mero adjetivo. Livros e receitas trespassavam as minhas orelhas, opúsculos me sufocavam e minhas unhas eram nada mais do que recipientes vorazes de notas de rodapé. Intolerante, da minha boca e da minha garganta eram expulsos estoicismos, meros discursos. Caí.

Acordei, não sei se dias ou horas depois. Em minha frente, o farmaceutico indicava mezinhas milagrosas; também, com ar adequadamente compungido, ali estava o padre Rogério, que, tendo vindo para oficiar minha extrema unção, espantou-se quando retornei à consciência e, para não perder a viagem, iniciou uma desbragada litania. Do farmacêutico bebi a mezinha e suas recomendações de anilina e do pároco sorvi, ávido, suas prédicas, mas nem uma nem outra melhoraram meu estado de espírito. Dentro de mim, palavras, expressões, frases inteiras explodiam sem cessar, conforme percebes claramente, ó pá, talvez amanhã, depois do café as coisas melhorem, teleféricos, tenaz, televisão, telefone, te amo e a trágica letra “t”, assim mesmo, com asteriscos, agora estou me perdendo em tal profusão de maios, abris e junhos e de meias no aparador central do apartamento, profusão, fim de manhã, indivíduo inválido conexo, dor, dor, dor, pleitosceno, nada a declarar, óbvio, atadura, estou me derretendo, me preste socorro . agora, depois não haverá mais tempo, pois na noite o delírio virá. Be happy, tradução Seja feliz, ironia, descanso. Em minhas pernas o átrio expulsa o que ali descabe, a coceira arde, é hora de, finalmente encontrar a palavra mãe, origem, amor, amor, amor, música, Brahms, Beethowen, Bach, talvez Bee Gees e Buarque, do Chico, finalmente, translúcido e nú, como cenário último e essencia da paixão sou em tudo e em ti, agora, paz.

Os que me assistiram durante o evento, informaram que ora eu me debatia, insano, ora ficava quieto, como se estivesse levemente dormitando; alguns dos poucos que tiveram a coragem suficiente da proximidade disseram que em determinado instante eu entoei o Cantico dos canticos, de David e que não cheguei a fazer feio em Adeste Fidelis. Decerto o espírito de John Francis Wade me suportou nos momentos mais tocantes e sensíveis. No entanto, novamente e subitamente transformado em deformidades, monstro obtuso de mim mesmo, minha situação se tornara absolutamente previsível e, portanto, conflituosa, difícil. Aqui e ali, continuavam suspirando odes enquanto, dos meus cotovelos, anacolutos forçavam passagens.

Seios não são seios, isso é um engano, berravam meus olhos; seios são espaços urdidos entre o que é e o que não é. O desejo evoca fantoches, fantasias, e na verdade luminosa do nosso erotismo evocamos, sim, mamas, mas mamas, especialmente para as mulheres talvez não seja uma palavra mais doce, mais benfazeja, palavra talvez entendida rude, mamas, e que terminam por afastar os entretenimentos buscados da volúpia. Seios complementam-se mais, buscam-se mais, estão eles ali, um ao lado do outro, em geometria espacial, cunhas esféricas, expectantes, sedutores e seduzidos e, aqui, a metáfora dos seios nórdicos, europeus, claros, alvos à luz da lua se concretiza. Mais sabe o poeta sobre as mamas do que ornitologista a respeito dosanimais vertebrados, que põe ovos e possuem penas, asas, bicos córneos e ossos pneumáticos. Sabem mais os poetas e apaixonados a respeito das curvas, da textura, do tamanho e das formas mamários do que sabe o estudioso acerca dos turdus, dos falconiformes e dos scolopacidae.

Pura metafísica comandava meus sonhos desvalidos e minhas conjecturas de pernoite em hotéis de baixa categoria, entornos discutíveis do ponto de vista econômico e moral e serviços talvez um pouco mais adequados do que o desprezível. Sapos e gazelas e ancas, e sapotis me estremeciam a glote. Densa como sopa de amendoas, minha febre me consumia. Sentia-me como um sopro que, expelido pela boca, em seguida perdia a força, consumindo-me a mim próprio, antes mesmo de existir. Se peco, o faço com consciência plena e não me arrependo nem dos solilóquios nem dos advérbios que apertam meu peito como tenazes.

Após longo tempo ressuscitei, meio homem, meio fenix,  em estado de vísceras. Matutando, busquei minha decifração, meu contínuo abecedário, como uma esfinge sem pudores. Meus pelos se eriçavam, mas me desfiz dos mesmos como um ancião se despe de suas vergonhas. Lento, mas de forma decidida, fui assomando à superfície, abandonando meus cântaros de limiares entre consciência e inconsciência. Quando, por fim, relinchos me disseram que era hora de retornar de tantos assombrosos sonhos, bebi meu sangue como se fosse um ritual de total hedonismo e, inchado de propósitos e meações, finalmente vim à lume. Lá fora, o sol prateava.

Ali, onde acordei, havia um teto, quatro paredes, uma porta aberta e a minha respiração. Suei e tornei a suar. Minha garganta me levava, incontinenti, ao deserto de Atacama e minha pele parecia descamar como se eu fora um réptil. Ah, Deus, eu devia ter desistido ali. No entanto, me veio, como lâmina a palavra de Pessoa, e se viver realmente não era preciso, havia a ânsia da navegação. A crise se prolongou muito tempo, o suficiente para que me desejassem extinto, folha jogada pelo vento. Assaltantes de minha família decidiram que eu estaria melhor em um sanatório para doentes mentais, que estava pronto para assomar às grosserias totais da loucura.

No entanto, a canalha tratou de precaver-se e o mais maligno de todos eles pensou no que poderia lucrar com a minha insensata e estúpida alienação. O rei dos canalhas então alcovitou uma ação no Judiciário para, por um lado obter a sentença que me declararia insano, tolo, retardado, néscio, desvalido, incapaz, beócio, tomado de acessos de incontida fúria e palermice para, a partir de tal empresa, buscar ainda ser o meu tutor, o meu reitor, aquele que vivia a tornar-se o bam-bam-bam das minhas riquezas, o finório a amealhar o que, em boa hora, meu pai e minha mãe me deixaram e que, na condição de herdeiro universal havia sido – e bem -herdado.

Sim, além de ser jovem e cheio de predicados e substantivos, também sou detentor, possuidor de fortuna que varia desde papéis negociáveis em bolsas de valores, até prédios e campanários a perder de vista. Meu pai e minha amantíssima mãe, que Deus os tenha no Reino de Sua Glória e Misericordiosa Paixão Amém Amém e Amém, foram muito generosos com este perdido que eu havia me tornado. Tive pais que me legaram uma infância festejada, uma adolescência regada a viagens aos exteriores e colégios judiciosos e de bons reconhecimentos sociais. Durante o breve tempo em que decorrem as primeiras aventuras, folguedos amorosos e mesmo além de tão interessante passagem terrena, tive, provei, lambuzei-me de prazeres os mais indizíveis, os mais luxuosos, os mais luxuriosos, os mais indecentes dentro do que cabia no estreito limite da decência burguesa. Vivi e desfrutei o que me foi possível em tão ternos anos de fortuna, e mesmo assim, não se esgotaram os recursos que me sustentavam nesse mundo tão materialista, tão absolutamente negocial.

Quando, por fim, a inescrupulosa ação interditória ingressou em juízo, capitaneada por um advogado sem moral e  ajustada previamente em conchavos que evoluíram da corrupção até ganhar as alcovas de vosso meritíssimo, além dos compadrios e influências necessárias, julho iniciava entre chuvas e frios enregelantes, como se pudesse anunciar os previsíveis resultados do pleito. Aranhas teciam desde nunca a rede e a tessitura de fios de seda; tigres se acoitavam e avançavam lentamente, parando aqui e ali, farejando-me como eu realmente me dispunha, apetitosa mas imprevisível presa; exércitos de escreventes, escriturários, membros flácidos do ministério público escreviam em laudas o que tinha sido previamente acordado, fazendo o que desde tempos imemoriais se faz, a soldo de tramóias. Desse modo, utilizando o judiciário com letra minúscula, meus parentes, todos eles, assemelhavam-se a carrascos que preparavam laboriosamente a lamina que executaria o espólio de meus bens, enquanto eu me quedava, entre parvo e sonambulo, entre marés de conjunções adversativas e espasmos de pretéritos imperfeitos.

Penso, não sei se me interessa nessa quadra da vida saber se aquinhoei tantos préstimos graças ao tanto que gastava ou em razão de meus talentos inegáveis para as artes; de todo modo, além de ilusões, de desencantos, de febres, de olhares úmidos de luxo, igualmente tais sinais foram acompanhados de miradas da mais pura inveja, mesmo do escárnio, e do mais puro ressentimento que se possa espantosa e espantadamente encontrar, e tudo ali, em minha volta, nos jantares e almoços de finais de semana, na convivência diária com o subreptício, com a triste ignomínia que infecta parentes tão insuportavelmente maus. Inveja, deusa de todas as intrigas, rainha das misérias humanas, mestra da mentira, como pudestes tanto me apunhalar sem que me desse conta, pelo menos para tentar uma vã proteção? Enquanto mais exercitava a boa vida e a exposição que o talento e a fortuna tão bem conduzem, mais se acendiam e radicalizavam as caldeiras do ódio e da tristeza que, vindo de minhas próprias redes parentais buscavam me destruir e acabar de vez com o muito que ainda poderia ser usufruído. De todo modo, quando mais precisei estar atento, minhas armas e braçadas se expunham nuas e desemparadas, no aguardo do desfecho previsível e inalterável.

Eis-me aqui, neste palco de luzes bruxuleantes e arquitetura escassa, cercado de um vácuo opressor. No lusco-fusco da noite, se algo tremia era a escuridão. Meus espectadores, as pessoas com rostos e gestos comedidos, parcimoniosos, quase rituais, apenas me observavam. Não via, então, olhos úmidos de ansiedade, nem de antecipada luxúria ante minha provável nudez. Deixei, então, que minhas roupas se desatassem e depois, que minhas outras nudezas acompanhassem meu último passo de tango, minha última e livre vontade e fui ficando ali mesmo no palco minimalista, acarinhando minha medula e as faces ocultas e assombrosas da minha pele. Ao restar, então em essência, deitei o que restava de mim em um pequeno catre. Estava tão ensimesmado e concentrado em minhas litanias que, se algum dos poucos que acederam ao teatro mambembe e pobre, quase um nada, comentou algo, ou manifestou opinião contrária àquela performance errática, sequer posso afirmar que me veio à consciência. Desprendido do que era, do que sou, do que fui, ingressei lentamente em um mundo que se dissolvia entre nesgas de palavras e sentidos disformes, como se tudo que me viesse à mente e me tocasse de alguma forma o corpo, lembrasse uma densa sopa de castanhas, enquanto um cheiro muito doce de amendoas me invadia os sentidos.

Quase sem me reconhecer, ou a qualquer dos meus pedaços, músicas músicas músicas às dezenas brotaram em meus ouvidos, eu escutava de uma forma tão visceral que era como se tivesse me tornado uma nota, um sibemol, um poço um eco do que eu me tornara, então elas vinham para mim e me tomavam e me dominavam e me convertiam em cordas luminosas  harmonicas, harmonia, história e letras Once upon a time you dressed so fine You threw the bums a dime in your prime, didn’t you? People’d call, say, “Beware doll, you’re bound to fall” You thought they were all kiddin’ you You used to laugh about Everybody that was hangin’ out Now you don’t talk so loud Now you don’t seem so proud About having to be scrounging for your next meal. How does it feel How does it feel To be without a home Like a complete unknown Like a rolling stone? You’ve gone to the finest school all right, Miss Lonely But you know you only used to get juiced in it And nobody has ever taught you how to live on the street And now you find out you’re gonna have to get used to it You said you’d never compromise With the mystery tramp, but now you realize He’s not selling any alibis As you stare into the vacuum of his eyes And ask him do you want to make a deal? How does it feel How does it feel To be on your own With no direction home Like a complete unknown Like a rolling stone? You never turned around to see the frowns on the jugglers and the clowns When they all did tricks for you You never understood that it ain’t no good You shouldn’t let other people get your kicks for you You used to ride on the chrome horse with your diplomat Who carried on his shoulder a Siamese cat Ain’t it hard when you discover that He really wasn’t where it’s at After he took from you everything he could steal. How does it feel How does it feel To be on your own With no direction home Like a complete unknown Like a rolling stone? Princess on the steeple and all the pretty people They’re drinkin’, thinkin’ that they got it made Exchanging all kinds of precious gifts and things But you’d better lift your diamond ring, you’d better pawn it babe You used to be so amused At Napoleon in rags and the language that he used Go to him now, he calls you, you can’t refuse When you got nothing, you got nothing to lose You’re invisible now, you got no secrets to conceal. How does it feel How does it feel To be on your own With no direction home Like a complete unknown Like a rolling stone?

Lá, em algum lugar que não ali, talvez tão mais adiante que jamais pudera suspeitar ouvi, de alguma planície, de algum planalto, de uma casa tão antiga quanto o mundo, de algum catre desconhecido me alcançou, límpido e cristalino, ácido e rutilante, o grito desconhecido mas, de algum modo íntimo: o choro e mais que ele, o sentido da certeza me acudiu ao ver nascer a menina ainda transida de espanto que, rasgando, rascava o ventre de minha avó. Ao ver-me ante tal espanto compreendi, de vez por todas que arrecém testemunhara o sagrado. Ainda mais distante uma camponesa pastoreava ovelhas, o bucólico rural se acordava no ritmo e no ciclo de um enorme e singularmente belo caleidoscópio. O tempo, as estações, as luzes, tudo parecia um tanto quanto irreal, como se efetivamente fossemos, tudo e todos, uma tela de Van Gogh.

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