Interpretar é uma arte


Somos, de certo modo, responsáveis não apenas por nós, mas pelas nossas relações. Se eu escrever, na sequencia, que nos tornamos responsáveis por quem cativamos, serei acusado, primeiro, de plagiar lamentavelmente ” O pequeno príncipe” (1) e depois – os males da civilização burguesa – de ser piegas. O que ocorre é que, piegas ou não, mesmo pífio ou não, isso não vai muito longe da realidade. Quando, enfim, nos permitimos dar-nos a conhecer a outro, e não há, por trás disso, qualquer demanda negocial ou interesse material ou terceiras intenções escondidas, buscamos, sim, que de tal proximidade brotem raízes, frutos; talvez não propriamente um baobá nem um angico mas, pelo menos, um discreto parreiral. E assim vamos nos envolvendo em tais situações para concluirmos que, de quando em quando, necessitamos revisar nossa network e que podemos até nos arriscar a sermos autênticos e reais em relação à pessoas das quais nos aproximamos e que entendemos que igualmente aceitam nossa proximidade.

Se atravessamos algum problema e temos amigos, teremos, igualmente, sombras onde poderemos descansar, remansos que poderemos desfrutar, riachos onde beber, silêncios tão necessários quanto a fala; enfim, locais onde visões distintas das nossas poderão ser por vezes mais do que úteis, mas, talvez, salvadoras. No entanto, se nossas pretensas amizades não avançaram mais do que a modorra placentária de alguns hobbies desfrutados ou desfrutáveis convenientemente, nos daremos conta de que estamos sós.

Em tal processo de nos tornarmos apenas alguém só, renunciaremos talvez àquilo que poderíamos ter conseguido: o sustento da palavra amiga, o reconforto de uma companhia  presente, a ouvida e a escuta de alguém que nada mais tem por nós senão uma dadivosa sinceridade, a troca de experiências de modo desinteressado e, finalmente, as gentilezas próprias da amizade. Ao nos afastarmos disso acabamos, talvez não deliberadamente, por nos fragmentarmos. Ficamos então assim, como pedaços de um quebra-cabeça que, iniciado, se perde em nossos mais densos labirintos. Muitas vezes estendemos a mão de modo desinteressado, mas, não raro, a(s) pessoa(s) não entendem isso, tão mergulhadas estão em seus próprios cadinhos de amargura.

Compartilhar não é apenas rir, não é apenas confraternizar, mas desenvolver auto-confiança, em si e nos outros. Quando nossos propósitos leais não encontram guarida temos, portanto, de refletir: ninguém tem obrigação nenhuma de aceitar nossa confiança, nossa estima e nossa entrega, pois quem é amigo se entrega ao outro. Mais uma vez, sobrevindo a desilusão, aquele rosto, aquele figura irá parar em um arquivo no qual não gostaríamos: o da falta de paixão e o do início da indiferença.

É uma pena que, ao fundo e ao cabo, não saibamos compartilhar; mas pior ainda é não saber reconhecer, do alto da planície, a árvore verdejante e a planície estendida à frente de um profundo pantanal. Nem todos, contudo, tem capacidade para tanto, bastando-lhes, tão só recolher-se à si próprias, num mutismo que traduz bem mais a falta de uma leitura sensível do que a amizade que estendemos. Não adianta, portanto, saber ler. Interpretar, realmente, é uma arte.

(1) O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupery, Ed. Agir, BR.

HILTON BESNOS

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