Voltar a ser paciente?


2010, julho

Ser paciente é, sem dúvida, possuir uma rara virtude, mais ainda nos dias de hoje, em que a velocidade é uma característica mais do que evidente, quase fundante. Mas as virtudes podem (e devem) ser aprendidas, não só porque são faróis éticos, mas porque efetivamente conferem uma visão e um comportamento mais humanistas a todos nós. Nos tornamos melhores quando somos socialmente críticos (e não céticos), solidários (e não individualistas), morais (e não moralistas ou amorais), bem humorados (e não irônicos), autênticos (e não meramente convenientes), corajosos (e não covardes) e pacientes (e não ansiosos).

Se as virtudes podem ser adquiridas, elas dependem de um processo de cognição que extrapola o ensino formal. Assim, podemos aprender com as virtudes e podemos ser virtuosos, ou o contrário de tudo isso. É também evidente que os imprintings culturais, o cenário em que vivemos, nossa vida familiar pregressa e as relações comunitárias, bem como a adesão a uma firme tábua axiológica podem facilitar que sejamos melhores para nós próprios e para o mundo.

Hoje vivencio claramente uma questão física: a idade, junto com as suas experiências, está me tornando cada vez mais seletivo, o que, em primeira vista, parece ser um problema de impaciência, especialmente com o que chamamos de senso-comum. Não sei se isso é bom ou ruim. Creio que é bom, mas também a agudeza de pensamento acaba por trazer em si uma angústia que, além de inerente a esse processo, traz como efeito colateral uma maior insuportabilidade às asnices com as quais tenho de conviver.

Continuo cada vez mais entendendo que preciso de um ambiente com o qual conviva com pessoas que tenham uma visão mais aberta do mundo, mas isso nem sempre é fácil, e o que mais encontramos são limitantes. A questão central é como podemos conviver com esses limitantes quando sabemos que somos obrigados a isso. As questões de produtividade, as conversas circulares a respeito do óbvio, as reclamações histéricas e as arrogâncias intelectuais me cansam cada vez mais. Às vezes me pergunto, por exemplo, porque as pessoas capazes devem ser subordinadas à outras menos capazes, e isso me traz uma séria preocupação.

É certo que cada qual tem a sua verdade e que cada um de nós é um poço de vaidades, mas, sinceramente, quando tenho de conviver com o obtuso, sinto-me bastante desconfortável. Exemplos práticos:

a) dias atrás, na palestra do Educador Rualdo Menegat, aqui na escola Chico Mendes (escrevi um post a respeito do tema), foi feita, pelo mesmo, uma apresentação em power point, aliás bastante interessante. Entre as várias imagens, uma família literalmente embaixo d’água lutava para sobreviver. O pai segurava um nenê em seu colo, desesperadamente tentando afastá-lo da água; um pouco mais atrás, uma mulher, provavelmente esposa do primeiro, também trazia uma expressão de desespero e de impotência pelo que estava acontecendo. Mais ao fundo, aparecia um cachorro. Uma colega minha então, enquanto estávamos todos tocados pelo drama, fala: “coitado do cachorro”. E, pior, ela falava isso muito a sério. Isso é de uma insensibilidade astronômica, quando pensamos no fato de que, além do bebê, enxarcado e correndo risco real de vida, havia um casal que provavelmente havia perdido todos os seus bens, arrastados pela água. E aí eu tenho de escutar uma pessoa dizer que o problema maior ali era o cachorro. Por mais que eu possa considerar essa pessoa enferma de qualquer modo, não consigo mais suportar isso. Minha paciência simplesmente some.

b) Ontem, na sala dos professores, colega meu contava como havia sido a primeira transa com a sua mulher, de que modo “tinha rolado a sedução”, isso após ser insuflado por uma malta de colegas para que se reportasse a respeito do tema, de um desinteresse absurdo para quem estava por perto, mas que sempre será tratado como “um assunto leve” para quem participa de tal situação. Embora as pessoas que estavam envolvidas no assunto rissem, eu não consigo achar graça nenhuma. Era impossível não ouvir, e eu me encontrava sentado no sofá da sala, a centímetros do grupo. Não tenho paciência mais para esse tipo de comentário.

c) Não aguento mais ouvir dizer que nós, professores do Município, ganhamos uma miséria. Isso não é verdade. Outras podem ser, mas isso não, sob qualquer ponto de vista comparativo. E no entanto uma grande parcela diz isso, simplesmente porque gastam além do que podem.

d) Não suporto mais escutar reuniões onde um dos pontos é a harmonia dos professores enquanto grupo, e não quero saber também de práticas estilo “vamos nos harmonizar”, “vamos todos conviver em paz”, quando existem atitudes reais que vão exatamente no contrafluxo do que é dito. Vide questão do tratamento de questões polêmicas, como, por exemplo, no post que escrevi sobre a greve dos funcionários públicos do Município em meados de 2007. Cria-se uma dissensão real, cada um pensa nos seus próprios interesses e, após, fazemos uma sessão de terapia em conjunto? Ora, por favor!

Os exemplos se multiplicam, e isso me traz uma insatisfação muito grande, a partir do momento em que entendo que uma escola deveria ser pelo menos um pouco mais do que um depósito de alunos, com meia dúzia de professores comprometidos com a própria escola e com outros comprometidos consigo mesmos, haja a conseqüência que houver. Por esses motivos e por outros, tenho novamente que exercitar minha capacidade de ser paciente, esquecendo, por um tempo, a questão da seletividade que me impõe ser crítico de tais obtusidades.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s