Descontinuidades


A vida é poderosa, é uma metáfora, um pouco menos de sonhos e de ilusões, muito de conhecimento, bastante de convivência, muito de escutar, menos ainda de nos convencermos de que ela, por si só, não tem sentido. Somos nós que lhe damos sentido e não o contrário; nos conformamos mais ou nos conformamos menos àquelas descontinuidades nas quais estamos imersos.

Atualmente sofro um desgaste sério, doído, com a doença de minha madrinha. Aquela a corrói dia-a-dia, lhe apaga a luz dos olhos lentamente, põe na sua boca travas que quase a impedem de falar, rouba-lhe a tonicidade dos músculos, a empurra tristemente como uma folha aqui e ali varrida pelos ventos. Logo logo minha madrinha estará encontrando o espírito não apenas dos nossos familiares que nos são tão caros, mas também o espírito daqueles que, ainda nesta esfera, lhe iluminaram os dias.

Enquanto a passagem não ocorre, as dores, as angústias, as culpas e os vazios são purgados em um ritual de solidão. Aqui estamos juntos a ela, e para tanto, para estarmos mais e mais presentes, mudamos nosso endereço, eu, minha Aninha e Matheus, deixando para trás o nosso ninho para podermos abraçar as circunstâncias nas quais mergulhou minha madrinha. Estamos, portanto, três adultos – Ana Rosa, Cleonice e Hilton – vivendo o que nenhum de nós gostaria de estar presenciando.

Nosso Matheus brinca, não percebe ainda a sombra da morte a toldar as janelas do apartamento, a enroscar-se dentre os nossos almoços e a imiscuir-se em nossos sonos e ocupações. O sol brilha como sempre, as televisões mostram uma realidade fria mas multicolorida, os dias vão passando e nós, adultos, queremos a todo custo conceder a minha madrinha uma dignidade de fim de vida que a doença irá amputar, irá erodir, irá, por fim, dispersar em uma última lágrima de tristeza.

Mas a vida, esta continua ali, continua se repetindo como uma face de história, como uma das infinitas bondades das quais nos nutrimos. Em meio ao que agora vivencio, vem finalmente um email que dá conta de que no dia 12 de abril, às 21 horas, está agendada a minha formatura em gabinete no curso superior de licenciatura plena de pedagogia no prédio “A” da FAPA. Aviso a um dos meus filhos, Gabriel, mas, envolvido tanto com a doença da minha madrinha quanto com a mudança de residência, não consigo falar com meu outro filho Miguel. Espero que Gabriel o faça, mas os dias vão passando muito rápido e, de repente – presto! – a formatura foi há quatro dias atrás. Estava ali comigo quem sempre está, independentemente do que ocorra – minha Ana Rosa. Mais duas queridas amigas, dessas irmãs de alma que possuo – as duas Lizies, e que convidei por celular quando estava à caminho já da colação de grau. Nenhum dos meus dois filhos compareceu, e eu senti as suas ausências. Sou pai. As contingências todas serão apenas histórias a serem contadas. Saímos da faculdade, bebemos algumas cervejas, voltamos todos para nossas casas.

Em um determinado momento da cerimônia, de todo simples, mas que trazia uma emoção genuína aos que participaram da mesma, vi que minha Ana Rosa se emocionou fortemente. Nós dois sabemos, mais do que ninguém, que sem ela isso tudo seria apenas uma possibilidade, um sonho, algo que desapareceria na primeira esquina. Mas não com Ana Rosa e não com o homem que eu me tornei.

Sou um passageiro da descontinuidade e no sorriso emocionado da minha querida vi que somente estava me graduando porque merecemos. Ambos, e para sempre.

 

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