Dentes de marfim


Em 1997

Em uma tarde chuvosa, estava trabalhando em meu escritório de advocacia quando tocaram a campainha. Fui atender (na época eu não tinha uma secretária para apoio aos serviços). Um homem de olhos muito claros, azuis, portando uma grande mala apresentou-se, disse ser português e tentou me vender o que ele tinha na mala. Eram peças muito bonitas, e eu acabei ficando com um dente de marfim que trazia umas inscrições que eu não consegui ler, mas havia uma, em inglês, que dizia made in indonesia. Todas as inscrições e um magnífico desenho oriental haviam sido entalhados ali, naquele dente de elefante. Comprei o dente. O homem foi embora. Hoje não tenho mais o dente, que se perdeu como tantas outras coisas se perderam.

O meu fascínio maior era ficar olhando aquele dente de marfim de elefante, procurando recriar uma narrativa que me aproximasse de uma possibilidade de descobrir como, de que modo, através de que caminhos, uma pessoa entalhou aquela peça, como a mesma saiu da indonésia e foi parar nas mãos de um português e, dele, dentro de um escritório de advocacia na rua Santana, em Porto Alegre, no Brasil. Que mãos teriam entalhado aquela peça?

Que mundo maluco e improvável que fazia com que a mesma navegasse pelo mundo e viesse parar nas minhas mãos? Deve haver um sentido, uma complexidade, um caos em tudo isso. E no entanto ali estava o dente de marfim de um elefante que, sem dúvida, havia sido caçado, morto, e que tivera seus preciosos dentes arrancados. A herança do elefante estava ali, do outro lado do mundo, nas minhas mãos…

Desde aquele momento, passei a observar mais os caminhos que de tão comuns sequer nos damos conta que existem, das infindáveis vezes em que cruzamos com determinadas pessoas, objetos, luzes e poesias sem percebamos um brilho de olhar fugidio, uma pressa inesperada, um pedaço de sonho que se estilhaça aqui ou ali, a imperiosidade de uma conversa que se arrasta…

Passei a prestar mais atenção nas pequenas histórias que muitas vezes ignoramos. Saber que, sem dúvida, o caos está dentro de nós, mas que também está fora de nós, e que, assim como seria impossível reconstituir a história do dente de marfim, muitas vezes é impossível que reconstituamos nossos desejos, nossas imposições e as nossas próprias buscas que não raro são as maiores marcas das nossas incoerências

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