A metamorfose Kafkiana em nossas vidas


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Gregor Samsa metamorfoseado

FONTE OBVIOUS

http://lounge.obviousmag.org/manifesto_da_artes/2013/12/a-metamorfose-kafkiana-em-nossas-vidas.html

Mais um ano termina e o outro começará. Esse é o ciclo. E na transição da passagem do ano, as pessoas desejam mudanças. Mas será que algo mudará se não mudarmos? É possível impedir as mudanças? O que Kafka tem a nos dizer sobre isso? Muita coisa.

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.“ E assim começa um dos mais memoráveis livros da literatura mundial:” A metamorfose” ( Die Verwandlung em alemão) de Franz Kafka, publicado pela primeira vez em 1915.

E o que a ideia de ”A metamorfose” pode ensinar sobre nós mesmos? Muito mais do que se possa imaginar. E mesmo para quem nunca leu o livro, pode-se com esta análise assimilar algo para nossas vidas. Há muitas metáforas que podemos encontrar para refletir no cotidiano como comportamentos, sentimentos, atitudes e opiniões que podem ser extraídas mesmo sem o conhecimento da obra, mesmo que conheça-se apenas o básico. Kafka fala de mudanças e de como encarar o absurdo que é a existência, tanto que “Kafkaniano” tornou-se um adjetivo para algo absurdo, surreal.

Em nossa sociedade obcecada por aparência, principalmente pela beleza midiática e padronizada, quem de nós gostaria de certo dia, de uma certa manhã monótona qualquer acordar totalmente diferente, com uma aparência monstruosa? Quem em sã consciência não teria medo de encarar as pessoas e o mundo? Quantos de nós nos preocupamos tanto com a aparência refletida no espelho a ponto de acreditarmos ser somente o que o espelho e os olhos dos outros refletem?

Da infância a adolescência, muitos se sentem deslocados, desajustados com as subdivisões da sociedade, parecemos medíocres aos olhos alheios, nossos sonhos parecem tão distantes de se realizar em comparação daqueles que estão conseguindo. Descobrimos que nossas ideologias e crenças podem ser falhas, que os problemas do mundo parecem pesar em nossas costas e nos sentimos feios por dentro e por fora. Precisamos mudar. Nesta época de metamorfoses é que formamos nosso caráter e nos tornamos aquilo que possivelmente seremos quando adultos com toda bagagem adquirida. A todo tempo mudamos, enganam-se aqueles que acham que só existe mudanças bruscas. E essas mudanças constantes só se encerram com nossa morte.

Quando chegamos a fase adulta, encaramos novos problemas da infância e da adolescência com uma carga de dificuldade maior. O peso do mundo ainda parece estar sobre nossas costas e nossa aparência continua ainda sendo uma das importantes questões a lidar. Como encarar os outros se não encaramos a nós mesmos? A cada dia que vivemos, nossa “carapaça humana” muda sua forma e seus pensamentos, e encaramos a realidade de forma diferente do dia anterior. Nada se repete. Todos os dias algo — mesmo que minucioso e imperceptível pra maioria— muda e acontece. Acordamos diferentes, metamorfoseados e temos que enfrentar quaisquer situações por mais absurdas que sejam porque a vida é imprevisível e muitas vezes tão surreal quanto o livro de Kafka ou uma pintura de Salvador Dali.

E como estar preparado para a metamorfose? A resposta mais sincera é: nunca se está totalmente preparado para nenhuma situação. Assim como Gregor Samsa não estava preparado e sofreu pelas consequências de sua transformação em inseto. Muitas vezes algo simplesmente acontece sem que saibamos seu motivo. Nascemos na escuridão do útero caminhando para a luz da vida. E desse momento de nascimento até o fim da vida várias situações ocorrerão neste interlúdio, onde surgirão erros assim como muitos aprendizados. Sempre há insegurança, cobranças, dúvidas e medo dos outros e, principalmente de nós mesmos. Resta-nos ao abrir nossos olhos em cada manhã intranquila arriscar todos os dias, adaptar-nos às adversidades da vida e evoluir de todas as possíveis maneiras. Ser resiliente. Não ter medo da mudança porque querendo ou não, demore o tempo que for, ela virá aos poucos até tornar-se parte integral da realidade. Se analisarmos a vida perceberemos que não mudamos, nós somos a mudança. Existir é transformar e (se) mover. Somos todos uma metamorfose.

Taylor James.jpg Imagem do fotógrafo Taylor James

JEFERSON CORRÊA

Sou carioca, escritor, co-organizador de eventos, blogueiro. Fascinado por todas as artes, cultura pop, filosofia, mitologia, psicologia e todo tipo de conhecimento.
jefersoncorreaj@oi.com.br.

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