Eu uso óculos


Óculos: de Jean Paul Sartre

aos modelos Chanel,

e passando por John Lennon

 

Gosto de óculos, não tenho nada contra. Óculos são próteses que melhoram a nossa visão; está certo, a palavra “prótese” nem sempre é bem-vinda, pois lembra algum tipo de limitação, e não gostamos de limitações, nem físicas nem mentais. Mas não nos iludamos: apenas somos ilimitados, sem fronteiras, etc, na publicidade esperta e conveniente de celulares, i-qualquer coisa, e assim por diante, na melhor manipulação de nossos desejos. No mais, vivemos em um mundo protético (e proteico, porque não?). Mas, de certo modo, óculos pagam a conta. Há pessoas que pensam que eles simplesmente as enfeiam. E vivemos em uma época na qual desejamos ser obsessivamente belos e, cá pra nós, óculos poderiam estragar toda uma mise en scène cuidadosa e narcisticamente articulada.

Contudo, podemos considerar que os monóculos sejam, dependendo das circunstâncias, considerados charmosos ou a marca de um diferencial atraente.

Os óculos foram criados na Idade Média, em 500 A.C.,(evidentemente) na China, artesanalmente  feitos em madeira e pintados de preto, e destinados unicamente aos mais poderosos do Império; a excessão das pessoas que fossem possuídas por espíritos mau, tivessem dores de cabeça constante e tivessem algum tipo de doença mental. As lentes eram sempre planas.  Mas, antes dos óculos, a vaidade e a necessidade já existiam desde sempre.

O tempo e a mercantilização associaram óculos à intelectualidade, em estranha associação. O hábito de ler e de escrever, assim como uma bela articulação discursiva são-lhes característica presente no imaginário cultural. Pablo Picasso, Sartre e enfim, uma gama de escritores, cientistas, todos usando óculos. Ali, havia uma inversão interessante: quanto mais frios os óculos (os de fundo de garrafa, por exemplo, ou os de lentes escuras), mais intelectual quem os usava, em uma manipulação imagética em favor da cultura não popular.

Com o passar das décadas, a prótese chinesa passou a ser objeto de fetiche; se queríamos impressionar favoravelmente alguém em particular, dar um up em nossa identidade visual, ali estavam os óculos, mas então com uma maior atualização, bem mais ao gosto midiático, feitos em diversos estilos, com materiais mais leves, mais atraentes, coloridos, com mais alternativas em suas lentes e muito mais cuidados de design em seus aros ou armações. James Dean de ray-ban de aviador. Então, o que era prótese passou a ser style e o que era não raro tomado por grotesco, passou a ser um modo customizado de composição facial.

Óculos são feios? Quem disse?

Ha então a segunda fase dos óculos: a da composição identitária visual de quem os utiliza e que os considera não mais uma prótese, mas um elemento de composição fashion. Essa fase atual, na qual óculos são associados diretamente a uma marca ou alinhar-se como um produto disputado de mercado só poderia acontecer se houvesse uma reinvenção tecnológica no mundo da ótica, trafegando e apostando no fato de que óculos são objetos pessoais, intransferíveis e ligados ao ego de quem os utiliza. Não emprestamos óculos a terceiros, e por questões que variam desde a vaidade pura e simples até questões oftalmológicas, igualmente não permitimos que outros os usem.

Se pudéssemos fazer uma aproximação com a arte da cultura pop, notaríamos que óculos são cool. Warhol, de óculos, Clark Kent, alter ego do Super-Homem, de óculos, personagens Marvel de óculos, uma boa parte deles, desde o Surfista Prateado até Flash, John Lennon de óculos e assim por diante. Antes, óculos tinham armações, hoje denominadas de aros, e aros lembram movimento: aros de plástico, de metal, em todas as formas possíveis: quadrados,  retangulares, ovais, redondos, elipsóides e assim por diante, bem como as lentes que, se nos primórdios chineses eram sempre únicas e de lentes planas, hoje são bifocais, multifocais, inteligentes, que graduam a luminosidade, lentes com grifes internacionais que vendem moda e a ela são integrados. Óculos são temas de músicas, como sugere o título desta crônica, são vistos em rostos belíssimos, em rostos espelhos do que pretende a publicidade que queiramos alcançar, e estão lado a lado com os perfumes, com artigos sofisticados, com produtos de embelezamento.

Quando, portanto, pensarmos em óculos, tenha certeza de que, desde que você tenha bom senso, e siga algumas regras básicas, levando a oftalmologia em primeiro lugar e o formato padrão do seu rosto, eles não o(a) enfeiarão. Portanto, adeus mundo bizarro, e bem vindos não só aos óculos, mas, primer facie, ao cartão de crédito! HILTON BESNOS

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