Impossibilidade


Claro, haveria sempre uma possibilidade de tentar resgatar o que estava quase perdido. Quase, uma palavra que muda tudo; sem ela, nada poderia ser feito, pois se algo estava perdido, era irremediável, nada poderia ser feito. Já o quase poderia, pelo menos, trazer em si uma esperança de retorno. O que existia e estava quase sepultado era o amor entre ambos. Amor romântico, esse sentimento que nos faz tantas e tantas perguntas ao longo do tempo, a maioria das mesmas nos levando a maiores questionamentos e que parecem cada vez mais nos afastar de respostas, pelo menos das razoáveis. Mas se ainda persistia o sentimento era ate razoável que, no minimo, lutássemos para mante-lo e, se conseguissemos, abrir, sim, uma ou mais possibilidades de resgate.

Mas quem estava realmente interessado no amor romântico, uma vez que esse cada vez mais e atropelado pela rotina, pelas condescendências, pelos acordos mútuos, pelas obrigações sociais, por demandas que, objetivamente, mais concorrem em separar, em desunir, em afastar do que em celebrar convivências? Por que, afinal, esse amor romântico deve ser encarado como um sucesso ou um fracasso pessoal, em uma época na qual o individualismo e extensamente buscado e os valores em si cada vez mais valem cada vez menos? Quem, hoje, em sã consciência n’ao trocaria os atropelamentos diários e as insidias contagiosas do conviver juntos por uma vida mais leve, um sabor mais descompromissado, um savoir vivre mais voltado para si próprio do que para o outro; e afinal quem disse que deveríamos viver de modo tao desgastante e carregar isso como um troféu em nossas costas? Por que, então preocupar-se com as possibilidades de resgatar o kit de incomodações que estão aderidas ao ato do amor e, por via de consequência, as situações que citei?

No que devemos acreditar?

Em qual promessa devemos penhorar nossos esforços, no individualismo pós-moderno ou na solidariedade e no compartilhamento? Essas perguntas, que vivem nos atropelando, são cada vez mais difíceis de serem respondidas. E como não as respondemos, simplesmente flutuamos. Somos filhos dos paradigmas que nos constituíram e somente somos o que somos porque temos memorias e historias absolutamente inalienáveis de nos mesmos, algo que esta tao grudado em nossas vidas quanto as impossibilidades da vida em comum quanto as possibilidades de encararmos modelos que nos foram repassados pelos Pais. A decisão do que fazermos ou n’ao nunca e inteiramente nossa, embora pensemos, enganadamente, que e, que somos nos mesmos que resolvemos nossas vidas. Somos, como disse, apenas um reflexo pálido do que poderíamos ser ou somos bem melhores do que pensávamos ser.

Não é possível, portanto, que outros nos entendam plenamente. Somos seres sempre em construção mas, independentemente do que ocorrer, haverá consequências. Talvez devêssemos nos preparar de modo mais consistente para quando elas vierem.

Mas isso, aprendemos, igualmente é (quase) uma impossibilidade.

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