Romances e Coltrane, Porter, Piaf …


John Coltrane in Every Time We Say Goodby, Lyrics by Cole Porter

Como se começa um romance? O que é um romance?

Buenas, parece que esta palavra e seu sentido estão se perdendo, entre as poeiras do tempo e na velocidade do mundo. Qualquer coisa que demore um tempo está fadada a um arquivamento temporário. Embora as pessoas continuem se apaixonando,  o que lhes é sugerido é que não degustem com calma o amor, uma vez que ele ainda não se encontra ali na prateleira do supermercado a proporcionar-lhe prazeres incríveis, que as outras e demais brands lhe proporcionam.

A mídia tem feito o possível para tornar banal o romance, o amor; parece, inclusive, que não há histórias a contar, a não ser as que apelam para o senso comum. O cinema, a literatura, a música, as artes de modo geral, mesmo as mais comerciais se fartam de cantar o que vai pelas almas, pelos sentidos. Mesmo que não gostemos desse ou daquele movimento musical e, na verdade, abominemos tais ou quais ritmos ou tendências, as artes normalmente buscam o que de humano resiste. A mídia, contudo, faz uma tentativa enlouquecida de transformar e de associar brands aos nossos estados mentais. Filha dileta de um capitalismo alienante e pelo mesmo sustentado, a tendência buscada é a de transformar em mercadoria valores que estão, por essencia, fora do jogo direto da mercancia.

Para tanto, é interessante que tais conexões perdurem. Por outro lado, quanto mais passivo for o espectador, quanto menos for capaz de interpretar o que lê, o que ouve e o que vê, maior será a tendência ao escapismo. E escapistas ou consomem ou são consumidores frustrados.

De qualquer modo, há um tensionamento entre a vida real e o formulismo mercantil ao qual somos expostos vinte e quatro horas por dia. A propaganda e a publicidade não nos dão chance de olharmos a lo largo.  De todo modo, há milhões se apaixonando no exato momento em que escrevo, o que significa que a indústria cede lugar ao artesanal, que os olhares nos olhos substituem a luxúria simples e pura e que pessoas pensam em projetos de vida, o que é diferente dos projetos que visam lucros e dividendos.

Amores requerem tempos, mesmo para que fiquem silentes, simplesmente ouvindo o que normalmente não se escuta, admirando o que normalmente não se vê, conversando desinteressadamente como não se fala em convenções e em congressos setoriais. Se a paixão virar amor, prepare-se, você não ouvirá Led Zeppelin ou o Sepultuera, mas Cole Porter, Coltrane, Piaff. E ouvi-los com pressa é, no mínimo, um sacrilégio.

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