Um caminho para ontem


 

O passado nos conduz, porque a mais importante função mental que nos liga às múltiplas realidades que conhecemos, é a memória. Retirem nossa memória e não saberemos quem somos, perdemos nossa identidade, nosso sentido e nossas referências. Deixamos de ser quando não nos lembramos mais do que somos, do que fomos. Sem memória, o que nos restará? Rostos desconhecidos, desconhecimentos desde nossa família até as coisas mais rudimentares – o que é fogão? o que é uma faca e um garfo, para que servem? quem é esse que me beija sem que eu o conheça, quem é aquele que me cumprimenta quando não sei quem é, que faço aqui, se aqui não é o lugar que eu possa me reencontrar?

O drama da perda da memória é o drama do vazio, da desconexão, do desconhecimento, do que jamais será compartilhado, porque, perdido no mundo e nas minhas instâncias não reconheço mais sequer quem eu sou. O mundo, como existe, é um produto mental, é uma extensão do nosso corpo. Somos seres encarnados, e assim, com base em nossas projeções mentais, imaginamos o mundo como o pensamos, entendemos e vemos.

Criamos e recriamos convenções a partir dos nossos corpos, e lhes damos cor, simbolismos, realidades. Como imaginaria o mundo um físico quântico? Como o repensaria? Direita, esquerda, frente, fundos, determinar se um copo pela metade está metade cheio ou metade vazio, as educações, as sociedades, os sistemas que engendramos são projeções de nossos corpos. Os apêndices que criamos, as tecnologias, tudo isso está sendo reconstruído todos os dias a partir de nossas memórias e das nossas visões de como o mundo se comporta. Esse mundo, contudo, é igualmente um produto mental.

No entanto muitos sempre pensam em olhar para a frente, como se o passado e a memória pudesse ser descartada como um pedaço de pano usado que se joga ao lixo. Tolice. O passado, esse sim, é teu guia. É ele que informa quem você é, como se constituiu até aqui, o que pensa, quem são as pessoas que lhe são caras ou não. As passagens, os desvãos, os comportamentos, suas alterações e retificações, tudo se contém na memória. Talvez por isso, queiramos ou não, fazemos um eterno caminho para ontem.

hILTON bESNOS

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