Contra a exclusão social


CONTRA A EXCLUSÃO SOCIAL

Fonte: Diário do Nordeste, publicado em 19/09/2010

Novas teorias divulgadas por cientistas políticos tentam desmistificar um dos conceitos mais difundidos sobre as causas da proliferação da pobreza, exatamente aquela que relaciona o nível de escolaridade com a maior ou menor possibilidade de serem alcançadas melhores condições de vida e na escala social. O tema, altamente polêmico, dissocia a carência de estudos da acessibilidade à renda, após pesquisas recentemente realizadas em áreas pobres das cidades de São Paulo e Salvador. Os estudos procedidos apontam as relações sociais dos menos favorecidos como item indispensável à produção de novas políticas na área, concluindo que o combate à pobreza pode estar menos ligado à prática assistencialista de dar dinheiro ao cidadão do que a de criar oportunidades de relacionamento social. Esse conceito não é novo, mas agora tende a impor-se definitivamente.

A principal premissa dessa teoria parte da evidência de que quanto mais ambientes diferentes alguém pode acessar, mais informações válidas pode receber e outras oportunidades surgirão no sentido de abrir oportunidades de trabalho. A diferença básica, entre as chances viáveis das classes média e pobre, resulta da diversidade do círculo de relações que cada uma delas detém, mesmo que os integrantes de ambas apresentem o mesmo nível de escolaridade.

As redes também propiciam maior acesso a bens e serviços, além de outras espécies de apoios sociais que não são mediados por dinheiro. Para o estudioso Eduardo Marques, da Universidade de São Paulo (USP), autor de tese sobre o tema e coordenador da Associação Brasileira de Ciência Política, criar e manter vínculos, no caso dos mais pobres, acarreta um custo financeiro acima de suas possibilidades, impossibilitando-os de formar a rede de relacionamentos exigidos. Em decorrência disso, inexiste transição, a exemplo de um ritual de passagem, entre o ensino fundamental, ou médio, até o ensino superior, pois os relacionamentos continuam os mesmos da infância e da adolescência, dentro de um círculo social bastante restrito.

No Reino Unido britânico, existe uma unidade estratégica, a “Social Exclusion Task Force” (Força-Tarefa contra Exclusão Social), a qual objetiva, exatamente, a implementação de políticas públicas, para facilitar essa transição de pessoas oriundas das classes mais pobres a um mercado de trabalho, cujas redes sociais de relacionamentos exercem papel decisivamente importante.

Na opinião dos cientistas ligados ao tema, o Brasil ainda está longe de produzir programas no gênero, incentivando oportunidades de relações para os pobres, com a finalidade de conciliar seu acervo de aprendizado com as possibilidades que lhes podem ser proporcionadas no mercado de trabalho, muitas vezes circunscritas a um círculo social limitado e imutável, por vezes durante toda uma existência.

A multiplicação de interações sociais em que possam coexistir diferentes segmentos da sociedade, além dos precários limites até hoje oferecidos quase que exclusivamente pelo mundo virtual, anularia, em grande parte, os paredões da carência, do isolamento e da falta de circunstâncias para a obtenção de melhor qualidade de vida entre a população carente.

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