“É possível que a filosofia seja mais atraente”


 

ENTREVISTA

“É possível que a filosofia seja mais atraente”

Jostein Gaarder, escritor norueguês

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Seu livro mais famoso, O Mundo de Sofia, vendeu 40 milhões de exemplares (no Brasil, já se encontra na 25ª edição) e foi traduzido para mais de 55 línguas. Agora, o norueguês Jostein Gaarder, um ex-professor que ainda fala com surpresa do sucesso da obra de estreia, está no Brasil para promover o lançamento de mais um romance que aborda questões filosóficas a partir de um enredo simples. O Castelo nos Pirineus, lançado este mês pela Companhia das Letras, é a história de um casal de ex-amantes, Steinn e Solrun, que, por meio de uma tensa troca de e-mails, tenta entender as razões da separação. Ele é um cientista que crê na razão nos moldes iluministas; ela, uma mística que se aferra ao Livro dos Espíritos, de Alan Kardec. A narrativa desfiada por Gaarder reserva surpresas para ambos.

Gaarder falará hoje a cerca de 700 professores convidados no Salão de Festas da Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), às 9h. O evento inaugura o módulo Fronteiras Educação – Diálogos com Professores, uma parceria do Fronteiras do Pensamento com o Instituto Claro. O Fronteiras do Pensamento é apresentado pela Braskem e tem patrocínio de Unimed Porto alegre, Gerdau, Grupo RBS, Instituto Claro e Refap, com apoio cultural da UFRGS, da Anhanguera Educacional e da prefeitura de Porto Alegre. (*)

Na sexta-feira, por telefone, de São Paulo, Gaarder conversou com Zero Hora por meia hora. Recordou a passagem pela Jornada Literária de Passo Fundo (“Uma cidade pequena”), em 2005, e disse que Porto Alegre é conhecida na Europa e em todo o mundo em razão “daquela conferência ambiental”. Perguntado por ZH se se referia ao Fórum Social Mundial, afirmou que sim. A seguir, uma síntese da conversa:

Zero Hora – Em sua visita anterior ao Brasil, em 2005, o senhor disse que, mesmo sendo uma pessoa religiosa, preferia ver as grandes indagações sobre o mundo e a existência humana tratadas por cientistas, e não por filósofos. Continua pensando assim?Jostein Gaarder – Sim. Quis dizer que o debate filosófico foi dominante durante séculos. Hoje, acredito que é mais importante ler os cientistas. Preferiria discutir a natureza do universo com um astrônomo ou um astrofísico do que com um filósofo. Algumas das grandes questões filosóficas deixaram o âmbito da filosofia e são melhor trabalhadas pelos cientistas. Há uma filosofia local na ciência, e mesmo uma religião. O astrônomo britânico Stephen Hawking disse anos atrás que estava fazendo algo como procurar as impressões digitais de Deus.

ZH – O que falta aos filósofos nesta época?

Gaarder – Essa é uma questão relevante em meu livro O Mundo de Sofia. A filosofia é muito acadêmica. Muitas pessoas têm medo de mergulhar na filosofia porque ela soa muito seca. Definitivamente, há grandes questões filosóficas sobre as quais se pode falar muito claramente. É possível que a filosofia seja mais atraente e acessível.

ZH – Em passagem por Porto Alegre na semana passada, o crítico Terry Eagleton assinalou que o assim chamado “debate sobre Deus” voltou à moda. Isso o surpreende?

Gaarder – Talvez isso ocorra em razão de um revival do sentimento religioso. Eu era estudante no começo dos anos 1970, e todos víamos a religião como algo que tinha ficado para trás. Víamos que havia um número grande de pessoas envolvidas com religião, mas que estavam erradas. Você pode encontrar fundamentalismo entre os cristãos, e também fundamentalismo islâmico. Na Europa, recebemos mais e mais imigrantes desses países (muçulmanos). Isso estimulou o debate entre crença e conhecimento, crença e ciência. Esse foi um grande debate que começou com Charles Darwin (biólogo britânico, autor de A Origem das Espécies e da teoria evolucionista). Eagleton está completamente certo ao dizer que há um revival. E então se vê uma reação contra as tendências religiosas, como a de Richard Dawkins, que escreveu um livro chamado Deus – Um Delírio. Adoro Dawkins e seus livros, mas acredito que naquele livro ele está indo um pouco longe, como um fundamentalista ao contrário. Penso que ele está se tornando muito racionalista.

ZH – Dawkins é justamente um cientista que escreve sobre religião.

Gaarder – Sim. Creio que esse debate é interessante. Acredito que há três coisas que sempre acompanham os seres humanos: uma delas é o sexo, outra é a guerra e a terceira é a religião. Quando era jovem, acreditava que um dia não haveria guerras, acreditava nos ideais pacifistas. Também acreditava que o fundamentalismo religioso desapareceria completamente em poucas décadas. Mas estava errado. E com certeza o sexo nunca morrerá, porque nesse caso a humanidade também morreria.

ZH – O Castelo nos Pirineus é uma história de amor, como A Garota das Laranjas. Desta vez, porém, o pano de fundo é o conflito entre razão e misticismo. Como o livro surgiu?

Gaarder – Minha primeira intenção era tratar a questão da religião de um ponto de vista cético. Optei por contar o encontro de dois ex-amantes que têm interpretações completamente diferentes sobre a separação. E quanto mais escrevia sobre Solrun (a heroína), mais queria ouvi-la. Hoje, considero aquele debate entre os dois como algo que ocorria no interior de minha própria mente. E também me entendo muito mais. Não sabemos o que é o universo. Acredito totalmente na ciência, mas nenhum cientista pode nos dizer o que foi o Big Bang. Meu livro é uma história de amor, uma história psicológica. Assim como A Garota das Laranjas, trata-se de uma história de amor e também sobre grandes questões, sobre vida e morte. Creio que todos os meus livros têm essa dimensão filosófica.

ZH – Qual dos dois personagens tem mais de Jostein Gaarder: Steinn, o racionalista, ou Solrun, a transcendentalista?

Gaarder – Quando comecei a escrever o livro, me sentia definitivamente muito mais próximo de Steinn, o racionalista. Ele não é apenas um racionalista, mas alguém que admite fazer grandes perguntas. Mas também me sinto mais próximo desse ponto de vista transcendentalista ou espiritualista do que quando comecei a escrever o livro. Tive de escrever com propriedade sobre Solrun, trabalhei em favor dela. Mas a pergunta foi clara, e me sinto mais próximo de Steinn. A crença dela é muito específica, ela crê no Livro dos Espíritos (de Alan Kardec, obra máxima da doutrina espírita).

ZH – O Mundo de Sofia vendeu 40 milhões de exemplares. Pelo menos no Brasil, o senhor é mais popular do que Ibsen, dramaturgo norueguês que foi um dos pais do teatro moderno.

Gaarder – Certo.

ZH – O que pensa disso?

Gaarder – Bem, creio que as pessoas no Brasil deveriam ler mais Ibsen. (Risos.) Com certeza. Quando escrevi O Mundo de Sofia, imaginei que o livro seria lido por poucos. Ainda estou impressionado com isso. Subestimei o fato de que os seres humanos em geral, como eu, se fazem perguntas sobre quem somos, de onde viemos, o que é o universo. Essa abordagem universal, não apenas em O Mundo de Sofia, fez com que felizmente fosse aberto um caminho para outros livros meus.

ZH – Dos três grandes temas citados pelo senhor – sexo, guerra e religião –, já escreveu sobre o primeiro e o último. Algum dia escreverá sobre a guerra?

Gaarder – É uma boa pergunta. A guerra nunca me atingiu. Mas há algo que me atinge todos os dias e sobre o qual quero escrever: o grande desafio ambiental. Isso é um tipo de guerra, uma guerra para defender nosso planeta da eliminação, do fim de toda a civilização. O que são a literatura e a arte? São a celebração da consciência humana. A arte e a literatura têm de ser a vanguarda na defesa da consciência humana. Somos capazes de destruir a humanidade. Destinei parte dos direitos de O Mundo de Sofia para fundações ambientalistas.

(*) Assisti ao evento, no qual Gaarder falou, entre outros assuntos,  a respeito da questão ambiental, citando o exemplo dos combustíveis fósseis. “É preciso alternativas”, disse, ressaltando que o mundo que todos conhecemos se baseia em um modelo de obtenção de energia que remonta à revolução industrial, com base na exploração massiva de carvão e de petróleo. Ao fim do encontro, leu um manifesto sobre as questões energéticas e do meio ambiente. Quanto ao papel do professor, enfatizou que ele deve ser um bom contador de histórias, no sentido de buscar formar jovens e adolescentes que se tornem cidadãos com um senso crítico e social desenvolvido. O salão de festas da UFRGS estava lotado, e não foi sem merecimento. A condução da palestra foi muito interessante, inclusive por que o escritor relatou processos que levaram aos seus livros. Sempre há dificuldades, mas sempre há alternativas possíveis, desde que tenhamos condições de vê-las e colocá-las em prática.

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