Meus filhos e suas escolhas


Music@Fingertips por Nil mutant

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=MUSIC&page=3

Quando me separei, meu filho Miguel tinha sete anos. Imagino o seu sofrimento, a sua angústia, o seu não entendimento do que, na época, lhe foi posto. Graças a Deus e as nossas histórias pessoais, eu e minha ex-mulher prosseguimos, até hoje, com um bom relacionamento, o que me deixa extremamente grato. Por que relato isso? Porque dez anos se passaram: hoje o Mig tem dezessete e se prepara para o vestibular de música na UFRGS, o Gabriel é um homem totalmente formado e independente, construindo uma história de sucesso profissional, enquanto o Matheus já abandonou de vez o Pokemon e migrou para I love Carly.

Anteontem estava no Mig quando entrei em sua listagem de músicas no I Tunes. O que seria esperado de ser encontrado ali? Pancadões, DJs de gosto duvidoso, os simulacros de música que nos intoxicam a alma e nos estressam a paciência, o que ouço cantado pelos adolescentes todo o dia. Mas o que encontrei? Amy Winehouse, Santana, Jimmy Hendrix, Bob Dylan, Cartola, John Coltrane, Tom Zé, Vinícius e Toquinho, Bethania, Caetano, Buena Vista Social Clube, Legião Urbana, Beatles, Rolling Stones e assim por diante.  Quando você observa isso, fica muito claro que existe não apenas uma questão de gosto pessoal, mas formação. Ninguém consegue, aos dezessete, ter uma lista dessas se não tiver um registro interno que separe o joio do trigo.  Não se consegue escutar Chico Buarque ou Cartola, nesta idade, sem consequencias que reflitam diretamente em uma humanidade sensível, educada e voltada para o Outro. Quando entrei em seu quarto, ele tinha na sua frente uma tela de computador com uma partitura em que ele lia e fazia exercícios no violão.

Fiquei assim, meio tolo, olhando o Mig tocar, até porque partitura, para este escriba é uma linguagem totalmente desconhecida, embora saiba para que serve e ache muito bonito seu grafismo, mas a minha ignorância não me permite dizer nada além disso.  O Mig continuava ali, fazendo seus exercícios musicais e o pai bobo ali maravilhado. Quando o escuto, tenho a certeza absoluta de que meu filho nasceu para ser músico; também não me ocorre nenhuma atitude que não seja a de incentivo. Sempre disse a meus filhos que eles devem procurar profissionalmente algo que os tornem felizes. É a felicidade que diferencia uma vida interessante de uma vida comezinha, e é somente através do estímulo que a felicidade traz que nos destacamos nessa mesma atividade.

Creio que vivemos em uma época na qual é relevante que os pais não queiram determinar o futuro de seus filhos. Não adianta pressionarmos para que nossos filhos sejam arquitetos, promotores, advogados, médicos, engenheiros, se eles não se sentirem felizes. Os pais que desejam se realizar através dos filhos são um simulacro de pais. É importante que coloquemos em primeiro lugar os desejos e os sonhos dos nossos filhos. Eles viverão as suas vidas; se me couber algo no sentido de ajudá-los em termos de buscar o que entendem melhor, não tenho dúvida de que farei o bastante.

Sempre que vejo e escuto o Miguel tocar violão ou guitarra sei claramente que ele deve fazer isso e que a minha alma fica em paz; na verdade talvez ele nem saiba do tanto de alegria que me proporciona, de modo tão intenso e gratificante. Assim, vejo meus filhos crescerem, determinarem os rumos que darão às suas vidas. Daqui há alguns anos, o Matheus fará com que o processo se repita e eu espero poder – queira Deus – ajudar no seu caminho.

Citando o poeta, e todo poeta deve ser citado, me vem Khalil Gibran Khalil

Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.

Parabéns meus filhos amados, parabéns Miguel, por teres descoberto na linguagem dos deuses a tua linguagem, parabéns Gabriel, pela tua criatividade e teu espírito, parabéns Matheus, que irás crescer como um homem livre em vida e em significados.

Que a mão do Pai se extenda sobre vocês, e que a vida lhes sorria.

Shalom,

hILTON

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