O grande canalha


 

Eu até iria escrever sobre outro tema, mas este tomou a minha mente. O gande canalha é sombrio, não se expõe, mas manobra pelos bastidores, sempre procurando atender as suas conveniencias, que quase sempre tem prioridade sobre qualquer outro assunto, colega, ou algo que não seja o atendimento aos seus interesses. O mérito do mesmo é justamente ser melífluo, criar de modo sutil situações para que os outros façam o que ele deveria ter feito ou deveria fazer. Com tal objetivo, adota não raro um ar distante, evasivo, tendo o máximo cuidado, contudo, de estar próximo a quem detenha alguma parcela de poder. Fica ali pendurado, esse papagaio de pirata, apenas aguardando o momento de bicar a oportunidade que queira para, após, retornar ao ombro amigo que o agasalha.

O grande canalha é uma pessoa óbvia, dessas cuja palavra tanto faz quanto desfaz; ou seja, sem eira nem beira, sem um passado a recomendar e sem um futuro promissor, trata-se de alguém gris, que apenas contribui para si mesma. Não há, para ela um grupo de coesão, nem sentido de identidade pois, na primeira oportunidade não exitará em constranger um grupo ou uma pessoa  atendendo única e exclusivamente ao seu interesse, que não pode ser adiado ou menosprezado. Também não lhe importa se outros o tratam de modo apreciável, leal, porque àqueles vê apenas instrumentos que servem aos seus objetivos. Talvez por isso viva só, sem amigos leais, tendo, daí, que estribar-se em quem detem alguma possibilidade de lhe facilitar a vida. O grande canalha não elogia; bajula. Por uma questão estritamente de conservar-se a si próprio, circula ao lado de quem é competente. Não busca aprender, mas simplesmente sugar um pouco de tal vivência, para não engolfar-se a si próprio na mediocridade que o aprisiona.

O grande canalha não é autêntico, sempre preservando um sorriso à la Mona Lisa, enquanto sua biruta procura desesperadamente saber para que lado sopram os ventos mais favoráveis. Somente após tal descoberta, dirá o que melhor lhe interessar. O grande canalha, no fundo, é um réptil. Como todo réptil, contudo, inspira cuidados, já que a distância nem sempre é possível, embora evidentemente necessária. Cultiva interesses como papoulas de ópio, ao mesmo tempo em que se reveste de uma capa de bom-mocismo, já de toda rota.

É interessante também o fato de que ele traz em seu arsenal a mais profunda indiferença ao fato de saber que terceiros o crêem e o vêem assim, como um grande aproveitador. Não liga absolutamente para isso, pois seu pudor profissional já se foi consumido há muito tempo. Sua imagem já se dissipou, se esboroou, já foi para o buraco, e ele sabe disso, então vai procurando despojos aqui e ali, aproveitando expedientes que possa conseguir graças ao seu comportamento nebuloso. Outra de suas características é a de que ele, como já dissemos, não se posiciona:  na maioria dos casos quer que outros falem por ele, por um motivo bastante banal: se houver problemas no discurso, ele dirá: “mas não fui eu que disse isso”, repetirá ad nauseam, enquanto fará um sorriso incidental, quase cândido.

É claro que nós o conhecemos, basta pensar um pouco e – bingo! – lá estará ele com sua indefectível parcimônia, sua contumaz obviedade, sua expressão de pano. Achou? Fácil, não. Afinal, esse canalha, por ser grande, já é, de muito, figurinha marcada…

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