É, eu sei


 

É, senti muitas vezes, eu sei. Vem como uma vaga, indefinida melancolia do que efetivamente não foi vivido, mas cuja saudade arde como álcool em uma ferida aberta. Acerca-se lentamente, mas de modo absoluto, uma vontade de retornar no tempo, de encontrar de novo situações, imagens que vivem na minha mente, mímicas de títeres portenhos, de cheiros e de cores de ruas perdidas, entre becos de Buenos Aires e calles de Montevidéu. Ali, bem ali, tangos se enovelando em si próprios, em enfumaçadas noites entre vapores de vinho, de cerveja, tabaco dominando o ar. Homens e mulheres nem sempre belos, mas intensamente envolvidos na própria dança, no ritmo, sedentos todos em um salão de danças que somente em sonhos vi.

Manhãs varando madrugadas, sóis despedaçando-se contra vidraças úmidas de emanações viciosas dos perfumes e corpos orientando-se em meio às maravilhosas canções cubanas, argentinas, uruguaias, cada rosto revelando um drama, meneando de sensualidades, de histórias de vida reais. Sensações não conhecidas que me habitam, toques de pele e olhos; saudades indefinidas do que não vivi, mas que me acompanha como raízes me trazendo de volta para o desconhecido que sempre esteve em mim.

Melancolia, tênue e firme condutora das minhas saudades, dos momentos em que não esquecemos, dos divisores de alma, dos despertares noturnos. Vontade de apartar-me de mim mesmo e de vagar, errar como um barco que, em meio à escuridão, encontra a calmaria e cansado da espera, depõe suas velas. HILTON BESNOS

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