Elogio da linearidade


O texto abaixo foi enviado por Gabriel Besnos, e achei muito relevante. A autoria do mesmo é de Marcelo Trasel.

Elogio da linearidade

Marcelo Trasel – http://www.trasel.com.br

A Zero Hora publicou há algumas semanas matéria especial sobre os desafios colocados pelos jovens de hoje para as escolas. Sem grandes novidades: pedagogos reconhecem a defasagem entre o modelo de educação atual e as habilidades desenvolvidas pelas crianças através do uso de computadores, telefones móveis, jogos eletrônicos e outros elementos da cibercultura. Dizem que é preciso mudar a forma de ensinar e um entrevistado, Paulo Al-Assal, vem com aquela arenga de sempre sobre a escola matar a criatividade e tudo o mais.

Os problemas todos são pendurados na conta dos educadores, considerados anacrônicos, mas a meu ver a questão é um pouco mais complexa. Em primeiro lugar, é preciso admitir que, de fato, muitos professores desconhecem as ferramentas de comunicação e entretenimento digitais e passam longe das redes sociais. Em geral esse professor passa a ser desvalorizado, considerado um dinossauro.

Cabe perguntar-se, no entanto: realmente queremos um sistema educacional reconstruído com base na personalidade da nova geração?

A meu ver, a resposta é que devemos fazer adequações no sistema educacional, mas não reinventá-lo completamente. Isso porque o formato de aula do século XIX desenvolve uma habilidade importante e não-inata nos seres humanos: a linearidade. Como diz o pesquisador André Lemos, ser hipertextual é a configuração padrão do ser humano, a linearidade é que exige treino.

E treino duro. Deixada à própria sorte, nossa mente passa de imediato a realizar livre-associações. Os alunos atuais não se dispersam porque a Internet os acostumou a começar uma busca procurando por dados sobre a extensão do Rio Amazonas e terminar tendo frio na espinha ao ler notícias sobre pessoas atacadas pelo candiru. Eles se dispersam porque nossa mente é dispersiva e a Internet é uma reprodução técnica desse caráter hipertextual do pensamento.

Um livro didático oferece poucas chances de dispersão, pois, em geral, é organizado em uma sequência lógica da menor para a maior concentração de conhecimento. As boas e velhas enciclopédias impressas já ofereciam risco mais alto de dispersão, pois ao lado do verbete sobre o Rio Amazonas podiam aparecer ilustrações de guerreiras sensuais montadas a cavalo, ou uma remissão a Manaus, ao Ciclo da Borracha e daí para Deus sabe onde. Ainda assim, a necessidade de folhear ou buscar outro volume na estante dava ao estudante tempo para se dar conta da dispersão e retornar ao trabalho. Na Web, basta um clique e imediatamente se está em uma nova página, com novos links e novos caminhos abertos.

É como o fluxo do pensamento. A mente à solta deriva para todo lado. Saímos correndo atrás da primeira linha raciocínio que aparece, assim como os cachorros correm latindo atrás dos carros passando na rua.

Diversas culturas criaram tecnologias cognitivas para evitar essa dispersão ao longo da história. No Oriente, surgiu a meditação, cujo principal objetivo é justo ensinar a mente a ficar quieta em seu lugar enquanto os carros passam. No Mediterrâneo, surgiu a retórica, com suas técnicas para organizar o discurso de forma linear. Na Europa, o códex deu uma base material à linearidade do pensamento, com a colocação organizada das idéias página após página numerada.

O homem se esforça há milênios para tentar ser linear. A linearidade só perdeu prestígio no século XX, sob ataque das artes e da teoria literária. No momento em que os seres humanos, através da indústria cultural, sobretudo da televisão, passaram a ter contato diário com diferentes culturas — por mais enquadrado numa determinada visão de mundo que fosse esse contato –, perceberam estar sob o domínio um discurso monolítico, de um imaginário do progresso, e sentiram-se prisioneiros. Veio o Maio de 1968, veio a contracultura americana, veio o punk e diversos outros movimentos de libertação dos discursos. Veio o Pós-modernismo e o elogio da hipertextualidade, da polissemia. Esquecemos o valor da linearidade.

O mundo ficou muito melhor com o fim da repressão dos discursos totalitários, não se pode negar. Há muito mais liberdade hoje do que há um século. Mas convém não jogar o bebê fora com a água do banho. É bom abraçar os avanços proporcionados pelo reconhecimento do caráter hipertextual da mente, mas sem deixar de lado os benefícios da linearidade.

Infelizmente, não há outro espaço social para desenvolver a linearidade que não seja a escola. Portanto, a escola sempre foi e sempre será castradora. Os alunos não têm culpa de se sentirem desconfortáveis com a linearidade das aulas. É mesmo uma violência obrigar-se a focar a atenção por horas a fio todos os dias — e, antes de ser adulto, é difícil enxergar o valor de sacrificar-se em nome de um objetivo. Foucault dizia, não à toa, que a educação é “deixar-se foder pelo social” — o que não significa uma recomendação para deixar a escola por parte do filósofo francês, mas apenas uma provocação para incentivar os espíritos a buscarem autonomia. Os adultos, porém, não têm desculpa, exceto a imaturidade, para não ver os benefícios proporcionados pela escola.

Imaturidade é a chave aqui. A mente imatura detesta a linearidade. É a mente combatida, até certo ponto, pela meditação, e, às últimas consequências, pela filosofia. Pode ser difícil reconhecer o valor do treinamento na linearidade quando passamos a atuar no mundo adulto, mas ele é essencial para a maior parte das situações profissionais. O problema das técnicas cognitivas é que os novos comportamentos se tornam anteriores às ações e, assim, passamos a confundir os padrões de pensamento com nosso próprio eu. Ou seja, quem passou pela escola acredita que sempre foi linear, porque se vê capaz de focalizar a atenção numa tarefa com grande competência. Pelo retrovisor, a escola parece ensinar apenas aquilo que já sabíamos o tempo inteiro.

Nossa cultura vem se tornando cada vez mais imatura. A juventude domina o imaginário social. A medicina luta contra o envelhecimento. A moda faz os adultos parecerem adolescentes. A falta de compromisso é sinônimo de liberdade. Infelizmente, os aspectos mais negativos da juventude parecem ser os mais valorizados. Em vez da abertura da mente de principiante de que falava Shunryu Suzuki e da seriedade ao brincar de que falava Nietzsche, temos o narcisismo típico da infância. Narcisismo que leva a considerar o individual sempre superior ao social. Neste caso, leva à conclusão de que a escola precisa se adaptar aos estudantes, não os estudantes à escola.

A escola tem de mudar suas práticas — em alguns casos, mudar muito — sem abandonar, no entanto, os princípios fundamentais. É saudável que os alunos possam questionar os professores e que estes não se vejam mais como detentores únicos do conhecimento; é saudável que os professores deixem de ser figuras de autoridade para se tornar facilitadores do processo de aprendizagem; é saudável adotar as ferramentas oferecidas pelas tecnologias de computação e informação na sala de aula. Mas também é saudável manter ao menos um reduto da tradição ocidental de raciocínio linear, que bem ou mal nos trouxe até um momento histórico no qual as condições de vida são suficientes para passarmos a questionar a própria idéia de progresso histórico.

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