Fratura na modernidade


Fratura na Modernidade

 

Dany-Robert Dufour

 

“…. Entramos, há algum tempo, numa época naturalmente dita ‘pós-moderna’ – J. F. Lyotard, um dos primeiros a apontar esse fenômeno, entendia com isso evocar uma época caracterizada pelo esgotamento e pelo desaparecimento das grandes narrativas de legitimação, notadamente a narrativa religiosa e a narrativa política 1. Não quero aqui discutir a pertinência dessa expressão; aliás, outras são propostas: o supermoderno, o hiper contemporâneo… Apenas gostaria de observar que efetivamente chegamos a uma época que viu a dissolução, até mesmo o desaparecimento das forças nas quais a ‘modernidade clássica’ se apoiava. A esse primeiro traço do fim das grandes ideologias dominantes e das grandes narrativas soteriológicas, acrescentaram-se paralelamente, para completar o quadro, a desaparição das vanguardas, depois, de outros elementos significativos tais como: os progressos da democracia e, com ela, o desenvolvimento do individualismo, a diminuição do papel do Estado, a supremacia progressiva da mercadoria em relação a qualquer outra consideração, o reinado do dinheiro, a sucessiva transformação da cultura, a massificação dos modos de vida combinando com a individualização e a exibição das aparências, o achatamento da história na imediates dos acontecimentos e na instantaneidade informacional, o importante lugar ocupado pelas tecnologias muito poderosas e com freqüência incontroladas, a amplificação da duração de vida e a demanda insaciável de plena saúde perpétua, a desinstitucionalização da família, as interrogações múltiplas sobre a identidade sexual, as interrogações sobre a identidade humana (fala-se, por exemplo, hoje, de uma ‘personalidade animal’), a evitação do conflito e a desafetação progressiva em relação ao político, a transformação do direito em um juridismo procedimental, a publicização do espaço privado (que se pense na onda dos Webcams), a privatização do domínio público… Todos esses traços devem ser tomados como sintomas significativos dessa mutação atual na modernidade. Eles tendem a indicar que o advento da pós-modernidade não deixa de ter relação com o advento do que hoje evocamos com o nome de neoliberalismo.

É precisamente essa mutação que me esforçarei por pensar, na medida em que ela corresponde ao que poderíamos chamar de uma afirmação do processo de individuação há muito tempo iniciado em nossas sociedades. Afirmação que, ao lado dos aspectos positivos, inclusive de gozos novos autorizados pelos progressos da autonomização do indivíduo, não deixa de engendrar sofrimentos inéditos. Se, com efeito, a autonomia de sujeito comporta uma autêntica visada emancipadora, nada indica que esse autonomia seja uma exigência à qual todos os sujeitos podem responder de imediato. Toda a filosofia tenderia a indicar que a autonomia é a coisa mais difícil do mundo de construir e só pode ser obra de toda uma vida. Nada de espantoso em que jovens, que por natureza estão em situação de dependência, sejam expostos diretamente a essa exigência de modo muito problemático,  o que cria um contexto novo e difícil para todos os projetos educativos. Com freqüência falamos de ‘perda de referência nos jovens’, mas, nessas condições, o contrário é que seria espantoso. Decerto eles estão perdidos, já que experimentam uma nova condição subjetiva cuja chave ninguém, menos ainda os diretores de Escola, possui. Portanto, de nada serve invocar a perda das referências se com isso se indicar que algumas lições de moral à antiga poderiam bastar para impedir os danos. O que não anda mais é justamente a moral, porque ela só pode ser feita ‘em nome de…”, enquanto, no contexto de autonomização contínua do indivíduo, justamente não sabemos mais em nome de quem ou de que fazê-la. E quando não se sabe mais em nome de quem ou de que falar aos jovens, isso é problemático tanto para os que lhes devem falar todos os dias quanto para aqueles a quem se fala. Essa situação nova, a ausência de enunciador coletivo que tenha crédito, cria dificuldades inéditas para o acesso à condição subjetiva e pesa sobre todos, e particularmente sobre os jovens. Quais são os efeitos, para o sujeito, do desaparecimento dessa instância que interpela e se dirige a todo sujeito, à qual ele deve responder e que a história sempre conheceu e colocou em operação, notadamente através da Escola? Nessa perspectiva, nada é mais urgente que dispor de estudos de psicologia contemporânea que venham circunscrever a nova disposição de um sujeito instado a fazer-se a si mesmo e ao qual nenhuma antecedência histórica ou geracional se dirige ou pode legitimamente se dirigir.”

1 – J.F. Lyotard, La condition postmoderne, Paris, Minuit, 1979.

Fonte: Dufour, Dany-Robert, A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal, Rio de janeiro, Companhia de Freud, 2005

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