O sonho de P.


Naquela noite, P. sonhou que tinha o poder de ver o que de microscópico havia (células, mitocondrias, bacilos, ácaros, pólen, fímbrias, pedaços minúsculos de carne, de unhas, de pelos, fibras nervosas, texturas, gotas de chuva, insetos diminutos, até enlouquecer).  Na noite seguinte, sonhou que tinha o poder de ver o que de macroscópico havia (eu, você, os navios, tudo o que vemos normalmente, de tal modo condensados e expostos tão rapidamente quanto o nosso subconsciente pode detectar, pedaços de tudo e de todos, até enlouquecer).

Na terceira noite, sonhou que tinha o poder de ver o cosmos, por inteiro (luas, sóis, buracos negros, estrelas, meteoritos, meteoros, via láctea, andromeda, velocidade da luz, partículas rastreadoras, limites do imponderável, até enlouquecer). Na quarta noite, P.  sonhou que tinha o poder de visitar os mares, os oceanos, os lagos (fossa das Marianas, oceano ártico, oceano índico, oceano atlântico, oceano pacífico, mar de bósforo, mar das antilhas, e todos os seus habitantes e todos os seus habitats, peixes, mamíferos, estrelas do mar, sargaços, até enlouquecer). Na quinta noite, P. sonhou que tinha o poder de conhecer da natureza tudo o que existia (árvores, matas, florestas, desertos, animais de todos os tipos e tamanhos, roedores, muitos roedores, pacas e leões, antílopes e girafas, lobos e dromedários, até enlouquecer) .

Na sexta noite, P. sonhou que tinha o poder de ver e entender tudo o que de sutil e mecânico houvesse (cilindros, cones, projeções, máquinários, indústrias, chips, computadores, novelos de lã, batatinhas, teclados, música de câmera, digitais, aparelhos de som, montadoras de automóveis, laser, portas, pequenas e grandes passagens, eletrodos, até enlouquecer). Finalmente, na sétima noite, P. sonhou que era Deus (onipotencia, criação, signo religioso, crença, fé). Na oitava noite ele morreu, para ressucitar no sonho seguinte, quando todos passaram a dizer que ele era, efetivamente, Deus (abluções, banhos crismais, confissões, igrejas, padres, vaticano, convenções, dogmas, rituais a seguir, obrigações, vida metódica, previsível, tristeza do corpo, rigidez da mente).

A partir da décima noite, P. nunca mais sonhou.

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