Amo Dolce & Gabbana


Aluna vem à aula da EJA com uma camiseta negra onde se destaca, em prateado, as letras D & G e, logo abaixo a inscrição “Dolce & Gabbana”. A leitura me leva, por associação, para o trailler do filme “Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado” (4: Rise of the Silver Surfer, EUA, Alemanha, Inglaterra, 2007). Há uma cena na qual surge o Surfista Prateado na linha do horizonte e o Quarteto se encontra em uma festa, no terraço de um edifício. Ao ver o vôo incrível do Surfista, Reed Richards olha para Johnny Storm esperando que ele aja. O último então devolve o olhar e diz “Mas eu estou com um Dolce & Gabbana!” Mesmo assim se joga no ar e, transformado no Homem Tocha, observa sua roupa se volatilizar entre as chamas. Jogada de marketing? Muito provável, mas como a linha narrativa exige, lá se vai ele. Também recordo do Gabriel, que em 2005 entrou na praia de Canoa Quebrada, no Ceará, com um óculos D & G e voltou do mar sem os mesmos.

Fosse um consumista inveterado, recordaria que nunca usei nada da D & G;  não tive sequer namorada, amiga, tia ou teúda e manteúda que usasse a brand. Será algo do qual deva me envergonhar ou a simples constatação de que tal ausência poderá eventualmente ter me afastado de uma situação social more up to date do ponto de vista das classes dominantes?

Szygmunt Bauman, como em outras oportunidades, esclarece: em Vida para Consumo  (Jorge Zahar Ed., 2008), afirma que nos constituímos enquanto mercadorias do mesmo modo que qualquer outro objeto,  na medida em que não apenas pensamos e agimos como consumidores, mas acolhemos passivamente os símbolos e a descartabilidade características da sociedade de consumo. Permitimos a grande influência da mesma em nossa própria constituição identitária na medida em que passamos a pautar nossos comportamentos/desejos em razão de um mapa estratégico de persuasão no qual brands como D & G, Louis Vuitton ou Armani (apenas para exemplificar)  são componentes de um cenário desejado, por vezes à exaustão.

Em O diabo veste Prada (The evil wears Prada, EUA, 2006) há claras referências àqueles que não tem condições reais de participar do banquete do consumo: são loosers, aqueles que se fixaram em uma vida sem cores, sem vôos financeiros, empobrecidas e sem possibilidades de deslocamento ou de ascenção social e sem acesso aos bens culturais, econômicos e de educação que naturalmente são ínsitos às elites. As observações de Bauman em Globalização: as conseqüências humanas (Jorge Zahar Ed., 1999) se confirmam no sentido da exclusão dos párias de uma sociedade tecnicizada e altamente simbólica, na qual o signo e o crédito ocupam a centralidade da vida social.

No sentido real, a não absorção dos valores da sociedade do consumo pode ocorrer pela absoluta incapacidade de participar da mesma, o que irá gerar não apenas revolta, por um lado, ou a absoluta comiseração de outro, com o proveito de sistemas específicos que se beneficiam de tal passividade, como as possibilidades de manipulação religiosa, ou ainda o incremento da violência (e, claro, não apenas a simbólica, como sugeriu Bordieu), que será sujeitada às leis do Estado, cuidadosamente implementadas em favor das classes dominantes e verticalizadas o suficiente para manter as coisas em ordem, pelo menos no sentido de quem paga para tanto.

Os loosers dependem basicamente de políticas governamentais que buscam afastar os mesmos da marginalidade e não raro de uma vida sujeita às influências do crime organizado que se alimenta de um sistema de distribuição de renda injusto e nefasto. No entanto, por múltiplas razões, há um percentual bastante elevado de contribuintes que simplesmente não quer pagar – mesmo podendo! – o preço de um welfare state,  preferindo arriscar-se aos golpes cirurgicamente precisos da infortunística. Independentemente de qualquer discussão, todos, incluindo os loosers pretendem, sim, um acesso aos bens sociais que lhe são negados. Se a saída é a violência, que seja! e temos aí o caldo de uma cultura fundada na ilusão do consumo e no tensionamento dos invisíveis aos olhos do mercado.

O meu trabalho de educador se faz em meio aos excluídos, aos filhos dos loosers, àqueles que não tem um perfil de consumidor, mas que, por uma questão que a lógica desentende, vêm à escola com celulares, que ostentam e com as réplicas possíveis das brands; a menina que usava a camiseta negra com a inscrição D & G sequer sabia o que isso significava (sei porque lhe perguntei e obtive a resposta) mas, de todo, retomava um simulacro a que todos nos habituamos, o de nos associarmos de modo bastante corriqueiro aos símbolos que teoricamente nos catapultam a cenários em condições sociais superiores às quais nos entendemos posicionados.

A outra possibilidade de enfrentar a passividade requerida pelo mercado de consumo é o conhecimento de como ele funciona, o que comporá um perfil de informação, de consciência e de conservadorismo no que tange às ocupações financeiras e econômicas. Os que não são consumidores contumazes e alienados tentam estruturar suas vidas dentro do possível, não cedendo às pressões midiáticas de modo tão prosaico. Para tanto, elegem critérios que possam trazer-lhes uma paz indispensável – a financeira.  Diferentemente dos loosers, esses consumidores são objeto de desejo do mercado, na medida em que dispõem de recursos reais para alimentar o infindável ciclo do consumo, que se inicia com o desejo e se finda com a descartabilidade do objeto. O crédito lhes é oferecido, e o telemarketing passa a ser algo às vezes inoportuno, mas que sempre agrada (pelo menos ao ego econômico) tais consumidores, por se revestir de prestígio.

O consumidor consciente, assim, diferentemente dos invisíveis, é alguém que tem opção de escolha e talvez justamente por isso possa não compactuar com o Diabo que, conforme todos sabem, veste Prada. HILTON BESNOS

 

 

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