Contemporâneo


Tenho dificuldades em entender determinados comportamentos contemporâneos; talvez porque eu seja de outra geração ou porque tenha uma visão geral um pouco distinta ou, bem mais provável, o somatório de ambas. Me chama muito a atenção de que as pessoas cada vez mais se sintam isoladas quando temos uma tecnologia de ponta para a comunicação. Escutamos e vemos fatos ocorridos no mundo inteiro (claro que devidamente editados e filtrados) mas não falamos com nossos vizinhos. Construímos um discurso repetitivo e redundante para lidarmos com nossos colegas de trabalho, que, por sua vez, nos respondem com a mesmice de sempre, com raras e honrosas exceções, o que me faz concluir que muitos preferem, senão o isolamento, pelo menos o não-envolver-se.

Grande P. conversava comigo dia desses sobre a apatia das pessoas sobre política, ela que, na época de estudante, participou ativamente de movimentos contra a ditadura. Eu disse que simplesmente as pessoas, em sua maioria, perderam o interesse por quase tudo, a não ser pelo sacro trinômio: consumo, sexo e poder. As agendas individuais são cada vez mais extensas e normalmente priorizam questões profissionais, enquanto as relações familiares, afetivas e de convívio são relegadas a um plano sombrio. Pais e filhos devem se habituar aos novos tempos, no qual as convivências são pontuais e os contatos reservados para momentos ou situações específicas.  Conversar, que antes era uma arte a ser cultivada, passou a ser quase uma perda de tempo que se esconde ante o edifício da solidão.

Querer a presença do outro não é absolutamente bem-vindo, pois interfere em agendas e tempos de terceiros, sejam esses pais, filhos, esposas, amigos, etc.  A palavra de ordem é: “prefiro a qualidade do que a quantidade”, o que é de todo uma balela, um escapismo. Se pessoas que deveriam ser íntimas umas das outras se encontram com intervalos de meses, como preservar a qualidade?

As relações afetivas estão sendo regidas do mesmo modo que as rotinas do mundo produtivo.Exagero? Então diga lá: excetuando o fato de viverem na mesma casa, há quanto tempo pais e filhos não se encontram? Há quanto tempo afetividades foram trocadas por tênis, passagens de avião, automóveis novos, um livro, um notebook, um pc, um celular, um mp3 ou 4 ou 5 ou, ainda por uma televisão lcd? Há quanto tempo fazemos questão de dizer coisas que não permitam que o outro se envolva em nossas vidas, em nosso território pessoal, e nos isolamos em uma muitas vezes frágil tribo urbana?

O contemporâneo é dominado por tecnologias de comunicação, mas também pela individualidade arraigada e pela competição. Devemos simplesmente aceitar tal fato, sob pena de passarmos por demodées e sermos taxados de inoportunos (por incomodarmos agendas alheias), prepotentes (por querermos interferir em assuntos personalíssimos), carentes (por querermos a presença do outro) e desrespeitosos (por que queremos concorrer com as amizades fluidas contemporâneas). Para esses, não é o convívio que resolve, mas o que é socialmente orientado pela fluidez do consumo: hoje um determinado grupo, amanhã outro, hoje um psicólogo, amanhã quem sabe um psiquiatra e assim por diante. É a maravilha dos tempos modernos.

Sempre há uma alternativa para nos alienarmos, especialmente das pessoas que efetivamente nos amam. Sofremos com isso? Sofremos, mas sofrer também é uma alternativa, é uma opção. Renunciamos aos nossos amores mais caros, mas sempre podemos chorar por eles, quando eles se forem para não mais voltar. Podemos então carregar cruzes, nos dilacerarmos e finalmente mutilarmos nossas almas, preenchendo-as com recordações e com sentimento de culpa.

Temos,  finalmente, uma perda irrecuperável mas isso, dentro de um castelo de areia, talvez possa reforçar ainda mais nosso sentido de solidão. Ao fim e ao cabo, talvez seja isso que queiramos: sermos infinitamente infelizes. Somente aí, destroçados, finalmente podemos nos reconhecer e sermos reconhecidos em nossos grupos sociais. Como diz Saramago, talvez realmente a cegueira tenha o condão de nos unir a todos.

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