Espaços in anima


Cais do Porto, Porto Alegre, RS

Ao criar espaços, estabelecemos dependências, funcionalidades, limites, tempos e condições de uso desse mesmo lugar. Lugares têm intencionalidades, atendem necessidades, cumprem desejos em projetos que derivaram de vontades precisas.  Normalmente são nomeados e a partir daí se inserem em uma rede de significados, de representatividades, sugerindo alterações em seu entorno. Há toda uma geografia humana e histórias de vida ligadas aos locais criados pelo homem e tal interação influi sobre os nossos discursos, sendo uma das mais claras evidências do nosso ingresso no mundo simbólico. Nossa vida é plena de significantes, expectativas, representações e signos que nos ligam às memórias e projetam nossos futuros, àqueles que nos são caros, aos acontecimentos que ajudaram a determinar nossas visões sociais, culturais e identitárias. Não há humanidade sem o simbolismo agregado aos lugares, aos locais, às experiências, às nossas buscas constantes. Cidades, por exemplo, constituem, por sua natureza, ambientes complexos; mesmo que tenham sejam objeto de planejamento urbano constante, vão se modificando ao longo do fluir do tempo. Bairros comerciais nascem algumas vezes das pranchetas dos arquitetos, mas, outras vezes, do complexo movimento das ruas, num fenômeno que é chamado de emergência.

A linguagem das calçadas, os acessos criados diariamente pelos centros de interesse, as necessidades de maiores velocidades de trânsito e o estrangulamento de pontos gerados por esse mesmo trânsito, as ruas mais coloridas culturalmente, os bairros periféricos, a expansão mais ou menos limitadas pelas necessidades, o comércio, os serviços oferecidos, os deslocamentos, a violência urbana e suas tribos, constituem um elenco muitas vezes errático que modificam e (re)criam espaços, catedrais, main streets e equipamentos urbanos ali agregados; a tradição e a tensão gerada pela complexidade havida em bairros produzem histórias locais, representatividades.

Eu, por exemplo, me lembro de estar em Florianópolis, SC,  com meu pai, quando ele perguntou se eu queria assistir a última partida do Inter nos Eucaliptos: a data era 26 de março de 1969 e eu tinha, então,  14 anos. Disse, ansioso, que queria, e, após almoçarmos, pegamos um avião (minha primeira viagem de avião) e descemos no Salgado Filho. Fomos para casa, na esquina da Vicente da Fontoura com a São Manoel, onde minha mãe nos olhou com espanto e, após o banho, estávamos prontos para o jogo: meu pai Israel com seu radinho de pilha e sua camisa vermelha aberta ao peito, e lá fomos nós, para um evento emocionante, onde terminamos a noite com uma goleada do Inter sobre o Rio Grande, por 4 a 1, com Tesourinha no campo e com a torcida cantando os hinos de amor “Papai é o Maior/ papai é que é o tal/ que coisa louca/que coisa rara/papai não respeita a cara”. Enfim, apagaram as luminárias e apenas a luz dos isqueiros ficaram acesas, enquanto Tesourinha retirava uma das redes de goleira. Nunca vou esquecer dos Eucaliptos, das suas arquibancadas de madeira, do som que ouvíamos ali, da vibração da torcida que ultrapassava todos os limites. Hoje, cada vez que passo pelos Eucaliptos, me lembro especialmente dessa última noite, mas também dos momentos em que passávamos lá, eu, meu pai e nós todos que formamos a paixão vermelha.

Estela, uma das minhas cunhadas, que mora em Fortaleza, Ceará, nunca mais quis retornar, mesmo de visita, para Jaguaruana, cidade próxima, onde ela e seus irmãos nasceram. A emoção e as lembranças coordenam tal decisão. Não quer ir lá pois sabe que a casa onde os pais viveram, onde passou a sua infância, correu e brincou, onde nadava no riozinho próximo, onde aprendeu as primeiras letras, não existe mais. Ela reconheceria a rua, mas um pedaço de si própria já havia sido arrancado, não existia, a referência dos bons tempos de infância não mais estaria lá. Então, cada vez que toca no assunto, alterna a alegria das lembranças com uma tristeza cava, profunda, ao saber que sequer a casa não mais existe. Prefere então reter na memória aquela fase de sua vida; de quando em quando vem de Jaguaruana algum primo, que a procura para dizer a respeito de alguém que ela conheceu, mas sempre existe, aqui e ali, o travo da perda de referência da casa, do local  físico que poderia catapultar seus sentimentos para a felicidade. Não há, no entanto, nada mais que possa ser feito, nesse sentido. O simbólico se perdeu, restando apenas as memórias. Porque turvar isso com uma realidade bruta?

Meu amigo Delmar, que já viajou para Bélgica, Holanda, África do Sul, Canadá, Turquia, e por aí afora, portanto um cidadão do mundo, se encantou muito em 2009 quando visitou Fortaleza, Ceará, especialmente em relação à arquitetura, aos edifícios bem estruturados, coloridos, com curvas, sinuosidades. Chamou-lhe a atenção a criatividade, a beleza que parece flutuar pela cidade, desde a avenida Beira Mar até a Aldeota, bem como as funcionalidades da Cidade dos Funcionários até os espaços urbanos bem pensados. De modo geral, para ele, Fortaleza tem absolutamente tudo que uma grande cidade deve possuir, mas com um jeito mais relaxado, mais maneiro, que lembra a praia. E ele conhece Santiago, conhece Nova Iorque, conhece Bremen, conhece Berlim. Não se trata, segundo ele, de comparar as cidades, mas sim de efetivamente se deixar encantar com uma bela capital brasileira, sem “o colonialismo que implica em louvar valores, culturas e locais estrangeiros, ao mesmo tempo em que cremos que o que é nosso não tem valor algum”. Não é uma posição xenofóbica, bem o contrário disso, é apenas o reconhecimento de que no Brasil há culturas, criatividade e belezas especialmente representativas.

Poderia prosseguir bem mais, mas não é suficiente para concluirmos que espaços criados pelo homem não são apenas geográficos, não são somente locus, mas que, ao criá-los, seja aqui ou na Birmânia, seja em Londres ou em Moçambique, seja aqui em Porto Alegre ou em Belfast, também se adere ao local uma dimensão espaço-temporal, uma linha discursiva, uma trajetória que se modifica e que pode igualmente nos modificar. Nossas casas são nossos espaços, e isso fica muito claro quando a olhamos com criticidade: sempre vamos nos encontrar aqui e ali, em algum enfeite, em algum quadro, em alguma tendência personalíssima que, embora se adapte à planta do imóvel, tem basicamente impresso nosso jeito de ser.

Quando vemos fotos antigas da cidade onde moramos, somos invadidos pelas nossas memórias, pelas nossas transitoriedades e parece que embarcamos em uma viagem na qual tentamos resgatar nossas histórias, mas não apenas as nossas, que não somos protagonistas (e seríamos ingênuos se pensássemos assim), mas, em especial, as nossas circunstancialidades. Nos reconhecemos aqui e ali, aos nossos amigos, às oportunidades que passaram ou que aproveitamos, aos points onde costumávamos nos juntar com amigos. De certo modo, as fotos não são das cidades, mas são as nossas, embora, teimosamente não apareçamos expressamente nas mesmas. Estamos lá.

In anima.

HILTON BESNOS

Um comentário sobre “Espaços in anima

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