Nosso tempo pontilhista


 

O tempo.

Para De Masi, Frederick Winslow Taylor, no livro The Principles of management (1911) não apenas tratou de modo inédito as questões do gerenciamento, da eficiência e da administração industrial, mas extrapolou esse cenário, consagrando suas idéias como parâmetros de comportamento social e produtivo. Diz o autor que vivemos, amamos, trabalhamos e orientamos nossos momentos de lazer segundo o taylorismo.

Com genialidade, Carlos Drummond de Andrade, em seu poema Tempo, reflete:

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

O calendário que nos orienta ao mundo ocidental é o gregoriano, promulgado pelo Papa Gregório XIII em 24 de fevereiro de 1582.

Em um mundo no qual é real um consumo muitas vezes alienante e alienado e o descarte intensivo das miríades de desejos com os quais a indústria alimenta falsamente uma ilusão, que passa pelo domínio intensivo da subjetividade humana, e na qual a inserção social é um mapa a ser reescrito através dos mass mídia, S. Bauman traz, no seu livro Vida para Consumo uma situação no mínimo instigante, que é o conceito de tempo pontilhista. Dentro de tal perspectiva, inexiste a ideia normalmente associada à dimensão temporal, que é a de fluidez. O tempo pontilhista se esgota em si próprio, como um boom, uma explosão de possibilidades e de momentos a serem vividos da forma mais intensa possível.

O tempo pontilhista descarta a fluidez a partir do momento em que ele é único. Nem presente, nem passado, apenas uma exigência social e uma busca instantânea de sucesso e de inclusão. O que está associado a tal tempo é justamente a instantaneidade do consumo, assim como sua inevitável descartabilidade. Em decorrência, ele não se constrói como uma culminância de um projeto, mas existe em si mesmo, em miríades, em momentos. Deve-se, portanto, aproveitá-lo ao máximo, pois ele se esvairá como fumaça.

O tempo taylorista presume etapas, não pode prescindir de um sentido organizacional, de um fluxo, de um processo. O tempo pontilhista se esgota a partir do momento em que ele é. E ele é na medida em que me vejo como uma mercadoria inserida dentro de um mercado, no qual sou, ao mesmo tempo um produto, um ser dotado de uma subjetividade cada vez mais mapeada e orientada, alguém que consome e alguém que descarta.

Este frenesi, esta angústia existencial convive com as nossas próprias noções de necessidade, de apoio social, de sucesso, de busca de poder. Queremos nos inserir mas dentro de uma rede de notoriedade, especialmente de (re) conhecimento, pois construímos nossa identidade a partir do olhar do outro, cada vez mais pontual e excludente.

O termo pontilhista, adaptado como tempo vem justamente das técnicas utilizadas pelos pintores que se dedicaram à tal escola de pintura, especialmente a partir de 1880, na França, cujo maior expoente foi Georges Seurat. Se colocarmos lado a lado pequenos pontos de cores puras obteremos o mesmo efeito da mistura de cores em uma palheta.

Assim, o tempo pontilhista é uma descontinuidade, na qual nos inserimos na busca do que Bauman traduz, de modo perspicaz na vivência dos tempos atuais de consumo desenfreado, por um lado, de acumulação de lixo e de produtos descartáveis, de outro, e do mapeamento das subjetividades objetivando justamente inserções identitárias como referência no mercado.

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