Mortalha


Não sei exatamente se este é o momento para te dizer o que tento, de há muito, falar. De qualquer maneira, é necessário… ou talvez não, talvez já saibas tudo que vou dizer, é muito provável que sim, pois lês o que a minha mente quer, portanto…talvez não reste mais nada a fazer do que sair, me afastar, carregar comigo as conseqüências do que fiz, e eu fiz, sim, eu fiz, e nada existe para ser negado, ainda mais em relação ao que já sabes, então só resta amargar essa tristeza, essa estupidez que me deixa em tal estado deplorável…Sim, eu vou, entendi que nada tenho ou nada devo dizer, que isso já passou, e que teria feito melhor se simplesmente me tivesse ido já de primeira…no entanto, fiquei aqui, e talvez a minha presença atormente tanto por nos lembrar o que vivemos, nossos sonhos, utopias, sentimentos, o que construímos e agora – agora! – saber que nada mais vai restar, senão apenas lembranças.

Sim, amanhã parto para São Paulo, no voo das treze e quinze. Vou direto pra casa do Edgar e então conto para ele… Não, claro que ele não sabia. Infelizmente a única pessoa que eu não queria que soubesse era quem? Você, é claro, e que foi quem primeiro soube, então amanhã estou indo, devo ficar lá talvez por uma semana, e depois viajo para Recife, de onde jamais deveria ter saído…Queres o telefone do Edgar? Ah, sim, não queres, certo, claro tens razão em não querer saber, afinal de contas não vais me ligar.

Bem, estou indo, vou levar só o necessário, amanhã venho buscar o resto. É, sim, de manhã cedo um resto vem buscar o outro. Hoje durmo na… ah, sim, desculpe, claro que não queres saber… está bem, então estou indo. Que horas posso passar para buscar? Ah, não sei, não sei…estou indo…

Abro e fecho a porta do apartamento e fico aguardando o elevador. Lá fora começa uma chuva fina e de repente, como acontecia quando eu era criança e ficava só, me bate uma melancolia enorme e eu choro. Finalmente, quando o elevador chega ao andar e eu entro, tenho a impressão de que minha vida toda está ali comigo, como um casulo estranho, como uma carga desajeitada que insiste em me pesar sobre os ombros, que me paralisa e anestesia o corpo. Escuto cada barulho dos mecanismos do elevador, enquanto descemos, eu e minha angústia. O elevador e eu.

O elevador, estranhamente, parece uma mortalha.

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