Muda minha idade. Que mais muda?


Daqui a pouco, em primeiro de setembro, data especial, pois nasci em 54 e completarei 54. Algumas pessoas começam já a me chamar de velho, alunos o fazem e os meus cada vez mais parcos cabelos brancos devem reforçar bastante essa idéia. De todo modo, é estranho ser chamado assim, é uma experimentação para ser comunicada, registrada, avisada ao mundo. Hei,  estão me chamando de velho. O “velho”, aqui, não tem nada de carinhoso, menos ainda de respeitoso. Querem com isso me anarquizar, dizer que já estou a caminho da cova, que não valho nada porque não tenho mais o poder da juventude, seja lá o que seja isso. Os adolescentes são terríveis, e talvez essa seja uma de suas produções, uma das primeiras máscaras das infindáveis que porão ao longo da vida adulta.

Para outros, contudo, não sou um “velho”, sou um “senhor”. Essa nomeação é muito diferente da primeira: é bom ser chamado assim, pois a palavra tem uma conotação respeitosa e remete a um reconhecimento social; chamar alguém de velho, contudo, remonta – ainda mais nos tempos de hoje – àquilo que é dispensável, descartável, do que já passou e que, portanto, coisifica-se como algo inútil. É claro que podemos discordar de tais acepções, mas é indiscutível que a linguagem é a via própria para construirmos significados. Também como em outras situações, aqui também nomear é dizer, é construir.

Um senhor não prescinde de uma natureza humana; velho, contudo, pode ser algo, pode ser coisa, como res. Contudo, cada vez temos mais idosos, ou velhos, ou senhores no mundo. Tudo gente, que consome (ou não), que viaja (ou não), que tem mais ou menos crises como todos têm.

Por trás de tudo isso, existe uma sociedade cujos parâmetros são informados pelo consumo, pela força, pelo sexo, pela pro – atividade, pelo fazer. Contudo, a principal perversão é o entendimento de que um “velho” não participa do sistema produtivo. Esse é o pecado maior. Sua força de trabalho não é mais utilizada (o que não significa, absolutamente que não é utilizável).. Na Europa, com 54, estou em uma fase altamente produtiva. Aqui já começam a me chamar de “velho” e daqui a algum tempo, já passarei para a “melhor idade”. Tenho a nítida impressão que todos perdem com essas situações de exclusão social. Inclusive considero que a questão de empregabilidade cada vez menos tem a ver com idade, a não ser, claro, nos casos em que há uma exploração brutal da força jovem, em razão de sua – dela sim – descartabilidade em relação aos salários e outras benesses.

Eu não sou um velho, mas  sou um senhor, o que, entendo, é uma conquista. Tenho uma vida estável, do ponto de vista financeiro, viajei e viajo, meus filhos crescem de modo saudável e sou feliz. Por isso estranho quando tentam me classificar, me colocar em uma posição de diminuição social porque vou fazer 54. A realidade não me deprime ou paralisa; antes, me faz refletir.

Continuo não recebendo informações de modo passivo, sou respeitado pelos meus colegas e tem muitas pessoas que gostam sinceramente de mim, não pelo que eu tenha, mas pelo que sou. Talvez sejam essas as vantagens de sermos um senhor. Outras? Claro que tem, mas essas são depuradas pelo tempo, são vividas no dia-a-dia, são bem mais do que games afetivos ou financeiros. São experiências de vida e essas são pequenas pílulas de sabedoria que se vão acumulando aqui e ali, observando, conversando, matutando…

Matutar é coisa de homem feito, não de iniciantes…  HILTON BESNOS

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