Travessia


Muitas vezes falamos em viagens, mas poucas em travessias. Nos tornamos mais auto conscientes quando temos grandes travessias pela frente. Algumas para resgatarmos outras pessoas ou situações, mas, sem dúvida, sempre que estivermos em meio às mesmas, sofremos abalos, tristezas, decepções e nos damos conta de nossas impotências, misérias, necessidades e de quanto podemos nos frustrar e, sem dúvida, de como somos menores do que, em princípio, imaginamos. No entanto, a cada quadra que vencemos, resgatamos nossos desejos, nossas forças e lutamos muito para conseguirmos energia e fé para prosseguirmos; a nossa fragilidade então se robustece em razão de nossa vontade e de nossa obstinação.

Durante a vida, alguns são mais poupados de travessias, enquanto outros tem uma grande possibilidade de prosseguir durante um longo tempo em tais esforços de alma.  Isso dependerá de tantos fatores que é impossível dissecá-los. O que importa é que nós sempre avaliamos de modo equívoco a travessia dos outros, tendo a tendência a minorá-la, a desprezar o enorme esforço dos mesmos, enquanto supervalorizamos nossos próprios esforços quando empreendemos nossas próprias caminhadas. De certo modo, como em média nos apartamos dos outros, nos esquecemos igualmente que todos, em suma queremos as mesmas coisas. Abandonar uma drogadição, por exemplo, é uma travessia notável, na qual embora muitos possam se solidarizar no sentido de ajudar o navegante, somente ao mesmo caberá a responsabilidade da caminhada, e, portanto o gozo pelo alcance do que pretende.

Deixar de ser relapso, atingir novos patamares de conhecimento é também uma travessia significante. Normalmente, quando nos damos conta, notamos que as sensações de deslocamento, de estranhamento e de obstaculização tende a nos manter inertes dentro das nossas zonas de conforto. Atravessar é isso: muito de risco, de salto no escuro e, especialmente, de instabilidade. É levarmos conosco um peso que, sendo nosso, nos sufoca e buscarmos forças para enfrentarmos nossas angústias. Enfim, a travessia é o rompimento, no mais das vezes dramático de nossas próprias amarras, sendo sempre um crescimento, um casulo que se abre mesmo às custas de nossas próprias dores.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s