Todos pela educação menos pro rolezinho


Muitas vezes, quando trabalhava na EMEF Chico Mendes, em Porto Alegre, tinha o prazer de conversar com meus queridos amigo(a)s, Elaine Cartell, Melissa, Delmar, Hamilton e assim por diante sobre o fato de que, se para muitos alunos a escola se tornava quase que uma obrigação a ser levada adiante, aos trancos e barrancos, havia aí um aspecto interessante: enquanto determinados alunos ficavam na escola, não ficavam na rua. ou, em outros termos, durante a permanência física dos mesmos na escola, eles não estariam “atrapalhando” a vida dos consumidores. The owner’s life, rigorosamente, a vida dos donos, dos que podem partilhar das benesses dos cartões de crédito, dos shopping centers, dos cinemas, das lancherias, et caterva, enfim, de uma vida que passa à lo largo da maioria dos nossos alunos.

É claro que a universalização do estudo, o que é um direito, concedeu o que deveria ter sido concedido, nada contra. O que trago aqui é um fenômeno social: o da retenção de alunos, ou de supostos alunos na escola, o que torna a cidade mais “aliviada” da circulação dos mesmos. Infelizmente, o termo é esse: “aliviada”, por que, se as pessoas não podem fazer parte do banquete do consumo, é bom que elas não “estraguem a festa” de quem pode. Mais neoliberal impossível.

Isso me veio à mente, após ter postado o artigo de Renato Souza de Almeida. A escola se encarrega de manter os alunos sob seus olhos de panóptico de Bentham enquanto os demais cidadãos romanos perseguem as sua Helenas,  dentro de seus automóveis, e por aí afora.

Talvez por isso, a questão dos rolezinhos possa ser analisada sob este prisma. Muitos jovens, a maioria de classe social não-média “invadindo” shopping centers em São Paulo e em outros espaços urbanos, e toda a gritaria a respeito disso. Ora, o problema maior, segundo penso, não é na frequência desses jovens, mas se funda em quatro  motivos: 1) eles não são consumidores habituais, ou seja, com o rolezinho, a circulação de dinheiro tende a diminuir, pois, estando presentes, tais jovens de periferia mudam o cenário dos eventuais compradores, visto que a sociedade não está muito disposta a compartilhar espaços, sejam públicos ou privados com quem não lhes é formal ou informalmente conhecido; 2) desnuda aos owners um mundo do qual só ouvem falar através de terceiros, mas que não conhecem e, por não conhecê-lo, o temem; 3) conspurca um dos templos sagrados dos mercados: os shopping centers, que são um congraçamento simbólico da classe média e que não pode ser arranhado e 4) demonstra claramente que a sociedade é hipócrita.

Esses fatores irão requerer o acionamento do panóptico, para realinhar pessoas de acordo com as prioridades capitalistas: é o MP se importando e dando pareceres, são os donos de shopping, é a polícia, enfim, todo um aparelhamento dizendo para onde, de que modo e em que local cada classe social deve se alinhar, sob pena de ser reprimida. Não se indaga se existem ou não espaços apropriados e socialmente interessantes para esses jovens, seja para práticas esportivas, seja para internet, seja para simplesmente passear e azarar uma menina e/ou menino, o que for, mas que sejam espaços em que os jovens de periferia não estejam sob a permanente ameaça da violência institucionalizada ou do tráfico endêmico.

Por outro lado, vivemos em uma época de enorme, absurda apelação ao audiovisual, à propaganda e ao imagético. Ora, se os jovens não possuem um local, ou vários, onde possam ao menos ter a ilusão de poder frequentar o mundo do consumo, onde eles iriam? Para uma biblioteca? Visitar idosos? Passear com os tios? Não, esses jovens foram sistematicamente construídos para ser consumidores. Onde vão os filhos da classe média? Para uma biblioteca? Visitar idosos? Passear com os tios? Não, esses também foram sistematicamente construídos para ser consumidores.

Simples assim.

Então, enquanto as escolas suportarem (no melhor sentido) esses jovens, fica melhor para a classe média exercitar la dolce vitta. Talvez por isso, cinicamente, todos sejam “a favor da escola”, embora, em termos práticos, passem (bem) longe dela.

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