Minha derradeira vitória


Tenso como uma peça de estanho, busco em tua vida o que restou da minha. Lembro-me, sempre, de como aconteceu a minha morte, meu derradeiro alento. A lâmina penetrou profundamente em minha carne; primeiro em meu braço, mas eu ainda vivia, depois meu fígado e rins foram golpeados, mas mesmo assim eu lutava desesperadamente, até que, finalmente, abandonei-me ao torpor quando a quarta facada feriu minha jugular.

Esvaí-me como uma vela se apagando, e apenas restou de mim o que agora sou. Algo que vagueia. Meu ódio é tão grande que necessito agora, quase como se fosse uma nova vida, buscar as tuas vidas, aquelas que ocultastes de mim, as que me escondesses, me condenando a ser o que agora sou. Agora percebo que não vivestes apenas uma vez, mas muitas, que não eras apenas quem eu conhecia, mas que teu corpo apenas era uma lembrança a mais entre todas as vidas que já tivestes. Em todas elas, de algum modo, já me matastes, ou de amor ou de compaixão. Sempre fui tua vítima, sempre fosses minha algoz.

Por ora já te encontrei algumas vezes, mas por mais que eu fizesse, sequer notasses minha presença. Te busquei na tua casa, na odiosa casa onde fazes jantas amorosas para tua família, onde teu homem se refestela em teu corpo macio e delicioso que já me pertenceu. Fostes tu que me mandastes matar, por puro medo. Medo de perder o teu homem, os teus vestidos, os teus broches, as tuas jóias; medo de perder teu filho, de ver escapar entre tuas mãos adoráveis o que conseguistes graças às tuas seduções.

De onde estou, posso ver tudo, inclusive o que pensavas e pensas de mim. As tuas preocupações quanto a ligarem minha morte à tua pessoa. Ah, se eu pudesse gritar! Se pudesse ser ouvido! Todos saberiam como és vil, maliciosa, como usas de teus maneirismos para conseguir o que queres, quanto és capciosa e quanto o ardil habita teus seios e tua mente insidiosa! Mas, de onde estou, ninguém me ouve. Mais uma vez estou só.

Desloco-me entre as paredes de tua sala, te vejo dormir. Quanto a mim, não durmo mais, não descanso, não amo, não falo nem sussurro e apenas o ódio me nutre, me deixa rígido como uma pedra. Não tenho fome, nem sede; não tenho compaixão nem solidariedade. Sou uma essência de tormenta, sou um ser sem qualquer ligação com o mundo e se não passo de uma lembrança mais ou menos chorosa para os meus, devo isso a ti, que encomendaste a minha morte, e pagou a mão do assassino.

Não havia amor entre nós, isso nunca houve, apenas paixão, desejo, vontade de sexo, como se fossemos dois animais. Éramos assim, dois corpos que vadiavam juntos durante o tempo que podíamos. Uma unidade é o que éramos. Houve, contudo o momento em que nos separamos; e daí para diante te recusastes a me receber e a sequer falar comigo. De amante passei a ser temido, porque te poderia denunciar.

Aproveitei, sim, – claro! – aproveitei a situação: passei a te extorquir dinheiro, para gastar com outras e para te humilhar. Me suplicastes, lágrimas nos olhos (grande hipócrita!) para que eu te deixasse em paz, mas não te escutei e, de novo, te tomei o corpo e mais um pouco de teu dinheiro. Foi a última vez das muitas em que te possuí, mas estavas apenas entregando teu corpo, pois tua mente não mais era minha.

Então me mandaste matar. Tudo quanto passei, apenas uma certeza me acorre: vais pagar. É o que me embala, o que me nutre, o que me espanta e me acalenta: tomar a tua vida como mandastes tomar a minha. O que me poderia impedir é o sentimento que te devotei, mas, como tu mesma, ele era falso. Sempre fomos falsos, mentirosos, subreptícios, maldosos.

Não sei qual de nós é o mais falso, mas o brilho do meu ódio não. Esse, sem dúvida, é verdadeiro, como verdadeiro era o brilho da lâmina que me feriu e que me pôs aqui, absolutamente só, tão amargamente triste como uma pequena ferida a ferro e fogo, que não cicatriza. Somente me sustenta a tua lembrança e, alegre, já planejo, aqui, minha derradeira vitória.

HILTON BESNOS

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