Fonte: Proxxima

http://www.proxxima.com.br/home/social/2014/03/20/Infografico-como-cada-geracao-utiliza-as-redes-sociais.html

Infográfico: como cada geração utiliza as redes sociais

 

O modo como as mídias são utilizadas pode estar ligado diretamente à faixa etária do usuário. Confira o infográfico com a análise dessas diferenças no mundo digital


Infográfico: como cada geração utiliza as redes sociais

Apesar de muitas redes sociais (como Facebook, principalmente) serem utilizadas por diversos públicos, as diferenças quanto à faixa etária influenciam diretamente no modo como essas mídias são utilizadas. Para os profissionais de marketing, é imprescindível ter conhecimento sobre como o público alvo se comunica entre si, com as marcas e com o resto do mundo. O infográfico abaixo, publicado pelo Social Media Today, busca mostrar algumas diferenças geracionais e alguns pontos em comum na utilização das redes sociais:

 

Meus canos!


 

Acordo tarde, gritam lá embaixo…” Senhora, senhora!!!”

Ficopensando quem estão a invocar…

É sábado, acordo todos os dias antes das seis, hoje que resolvi dormir mais um pouquinho!! Espio na sacada e vejo um senhor de macacão azul no portão.

” Ah!” , diz ele, ” estava esperando a Senhora aparecer!”…

Em Portugal também, mas parece que as três crianças já não estão mais entre nós! E, ele continuou: ” a Senhora demorou a aparecer…

” Sim, penso cacomigo- ” as pilhas da minha auréola tinham acabado, os anjinhos não apareceram- PORQUE HOJE É SÁBADO!!!!- e eu não conseguia subir sozinha na nuvem…”

Mas, tento dar um esgar de sorriso, ao que ele acrescenta- ” Vim desentupir os seus canos!”

Como assim???? De uma conversa altamente esotérica, até espiritual, caímos para um assunto tão terreno?…

Depois de alguns momentos, penso até em dizer que meus canos estão todos bem ( menos um!), até tomo sinvastatina, vez emquando… Ele ainda me pergunta se tudo ” corre bem” , ” não vai precisar esgotar muito!”…

Digo para ele seguir em frente, fazer o que tinha que ser feito…Sinceramente, eu juro , eu até que não sou assim tão estúpida, mas alguns acontecimentos fogem ao meu conhecimento…

Depois, apareceu uma vizinha, disse que era procedimento usual, proceder a essa limpeza, algumas vezes por ano…Tudo acabou bem. Meus canos devem estar brilhando de tão limpos, desentupidos…tudo está correndo bem , fluindo…

E, eu posso voltar aos meus sonhos!!!

ELAINE CARTELL

El mundo según Manuel Castells


Publicado em 17/06/2013

Radiotelevisión Española (rtve.es), a través del programa Pienso, luego existo, ha dedicado su más reciente emisión (16 de junio) a la figura de Manuel Castells. En casi 30 minutos el sociólogo español platica, en el tono ameno que lo caracteriza, acerca de sus primeros años de estudiante en Francia, la vertiente empírica de sus investigaciones, así como su visión de la sociedad red en la que vivimos.

La emisión también cuentó con la participación de personas muy allegadas a Manuel Castells como son Imma Tubella, Mertixell Roca y Marina Subirachs.

Vía rtve.es http://www.rtve.es/television/pienso-…

Domenico De Masi: ócio criativo/criatividade e grupos criativos/pós-industrial


FONTE: ESCOLA DE REDES                                                                                                                                                                                                              http://escoladeredes.net/group/novaeconomia/forum/topics/8-domenico-de-masi-ocio                                                        8 – Domenico De Masi – Ócio Criativo / Criatividade e grupos Criativos / Pós-Industrial

O Ócio Criativo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

O Ócio Criativo é título de um livro do sociólogo do trabalho italiano Domenico De Masi e é também um revolucionário conceito de trabalho que o autor define através da intersecção entre três elementos: trabalho, estudo e jogo.

Trabalho (economia): é o trabalho em si, as funções necessárias ao cumprimento de uma tarefa.

Estudo: é a possibilidade se obter conhecimento através do estudo constante, utilizando os recursos que a sociedade digital proporciona, como o uso da internet, por exemplo.

Jogo: é o espaço lúdico de lazer, brincadeira e convivência que deve estar presente em qualquer atividade que se faça. É a forma de evitar a mecanização do trabalho, dando-lhe “alma”.

Quando o indivíduo consegue unir estes três pontos, ele está praticando o ócio criativo, que é uma experiência única e que proporciona uma melhor adaptação para as necessidades da sociedade pós-industrial, respeitando a individualidade do sujeito e proporcionando mais alegria e produtividade ao próprio trabalho.

No livro, o autor explora temas relativos ao que denominou Sociedade Pós-Industrial considerando, dentre outros, os seguintes aspectos do mundo atual:

Globalização Financeira utilizando as facilidades das telecomunicações modernas e criando desafios para a estabilidade sócio econômica das sociedades nas várias nações, sujeitas a fluxos volumosos e rápidos de capitais financeiros.

Desenvolvimento com baixa geração de emprego e renda, tratado em outro livro do autor Desenvolvimento sem trabalho, o que provoca desafios ao próprio Capitalismo por dificuldades de criação de demanda para o aumento do volume de produção de bens e serviços, sem uma correspondente distribuição de renda para criar os consumidores destes bens e serviços e sem o tratamento dos gargalos ecológicos que podem inviabilizar a própria existência da espécie humana.

Feminilização do mundo profissional gerando tensões nas relações entre os gêneros, educados para exercer determinados papéis que sofrem alterações mais rápidas do que as necessárias alterações de mentalidades para acomodar estas novas expectativas e frustrações de ambos os sexos.

Perda de utilidade das ideologias e crenças tradicionais como reguladoras das relações sociais, sem a substituição por novas construções mentais, emocionais e espirituais que apóiem as decisões e atos entre os indivíduos, que perdem referenciais tradicionais de comportamento e não encontram substitutos para estes referenciais não mais aplicáveis.

Dificuldades em integrar os sujeitos sociais emergentes nas relações estabelecidas entre os atores sociais tradicionais.

As mudanças acima geram uma profunda insatisfação, segundo o autor, derivada do modelo Ocidental muito focado na idolatria do trabalho, do mercado e da competitividade. Como alternativa propõe um modelo centrado em outras premissas, tais como:

Estruturação das atividades humanas em uma combinação equilibrada de trabalho, estudo e lazer.

Valorização e enriquecimento do tempo livre, decorrente de alta disponibilidade financeira para alguns e redução do tempo demandado de trabalho para muitos.

Aperfeiçoar o processo de produção e distribuição da riqueza decorrente dos grandes aumentos de produtividade derivados dos rápidos, e em aceleração, avanços do conhecimento e criatividade humana.

Distribuição consciente do tempo, do trabalho, da riqueza, do saber e do poder, minimizando as fontes de conflitos entre pessoas e grupos.

Valorização das necessidades reais das pessoas educando os indivíduos e as sociedades para a importância das necessidades básicas, tais como a introspecção, o convívio, a amizade, o amor e as atividades lúdicas. Com isto ficariam em segundo plano as necessidades criadas pela propaganda e pela busca de status.

Bibliografia
Masi, Domenico de – O Ócio Criativo – Rio de Janeiro – Sextante – 2000 – 328 páginas

Ligações externas

Época Negócios: Só as empresas ainda não perceberam

Outras perguntas respondidas por Domenico de Masi exclusivamente no site – Época Negócios

Entrevista com Mario Persona

Folha Online: Para Domenico De Masi, Brasil possui “cultura do equilíbrio”

Resumo livro – O Ócio Criativo – De Masi

Sinopse do livro – O Ócio Criativo – De Masi

Bela análise do livro

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O Ócio Criativo – Sinopse e Resumo do livro
(Domenico De Masi)

SINOPSE DA OBRA O ÓCIO CRIATIVO DE DOMENICO DE MASI

1. PROPOSTA DA OBRA

A proposta do autor é defender uma teoria onde o futuro é de quem praticará “O ÓCIO CRIATIVO”, ou seja, pertence a quem souber libertar-se da idéia tradicional do trabalho como obrigação e for capaz de mesclar atividades, como o trabalho, o tempo livre e o estudo.

2. ARGUMENTAÇÃO DO AUTOR

Este livro-revista (assim define o próprio autor) permitiu ao De Masi explicar de forma completa e orgânica o seu pensamento sobre o trabalho, o tempo livre e a evolução da nossa sociedade. Nele, o autor elabora de forma acessível os temas da sociedade pós-industrial, do desenvolvimento sem emprego, da globalização, da feminilização, do declínio das ideologias tradicionais, dos sujeitos sociais emergentes, da criatividade e do tempo livre.

O pano de fundo desta obra é uma profunda insatisfação que o autor tem com o modelo social elaborado pelo Ocidente, sobretudo pelos Estados Unidos, que é centrado na idolatria do trabalho, do mercado e da competitividade. A este, De Masi contrapõe um novo modelo atento não só a uma produção eficiente, mas também a uma distribuição equânime da riqueza, do trabalho, do saber e do poder.

O autor defende que a confiança nas novas tecnologias nos oferecerá maior ócio e que a esperança nas novas biologias nos concederão maior longevidade.Prevê que em médio prazo o tempo de trabalho será reduzido e conduzido, na sua maior parte, pelo tele-trabalho, ou seja, realizado de casa, onde a tendência é aumentar o tempo livre.

3. CONCLUSÃO

Pode-se concluir que o autor em sua obra “O ÓCIO CRIATIVO” mostra uma visão do que pode vir a ser a sociedade pós-industrial, tendo uma distribuição equânime da riqueza, do trabalho, do saber e do poder. Insatisfeito com o modelo social centrado na idolatria do trabalho, ele propõe uma maior interação entre o trabalho, o tempo livre e o estudo, onde os indivíduos são educados a privilegiar a satisfação de necessidades radicais, como a introspecção, a amizade, o amor, as atividades lúdicas e a convivência.

Segundo o autor, “o ócio pode transformar-se em violência, neurose, vício e preguiça, mas pode também se elevar para arte, para a criatividade e para a liberdade. É no tempo livre que passamos a maior parte de nossos dias e é nele que devemos concentrar nossas potencialidades”.

De Masi compara, ao mesmo tempo em que sugere uma semelhança na ética do trabalho com a ética do ócio.

Longe de ser anacrônica, a teoria do autor já encontra adeptos em todo mundo.

Inclusive nas grandes empresas há casos de empregados que desenvolvem suas atividades em casa ou mesmo possuem horários de trabalho totalmente flexíveis.

Anexos
Criatividade e Grupos Criativos

Livro – Emoçao E A Regra, A – Domenico De Masi

O autor analisa as estratégias e as formas organizacionais que tornaram possível treze experiências extraordinárias de idealização coletiva, mostrando comos esses grupos conseguiram conciliar aspectos aparentemente díspares, sem abrir mão da eficiência.

São eles – A Casa Thonet * Anton Dohrn e a Estação Zoológica de Nápoles * O Círculo Matemático de Palermo * O Instituto Pasteur de Paris * O grupo de Bloomsbury * A genialidade politécnica da Wiener Werkstate * O Círculo Filosófico de Viena * A criatividade racional da Bauhaus * O Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt * A Escola de Biologia de Cambridge * O Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt Enrico Fermi e grupo da rua Panisperna * O Instituto Central de Restauração de Roma * O Projeto Manhattan em Los Alamos.

Criatividade e Grupos Criativos
DOMENICO DE MASI

Em Criatividade e Grupos Criativos, Domenico De Masi refaz o percurso da história da humanidade à luz da tensão febril que a impele, sem parar, a corrigir a natureza com a cultura: da roda aos óculos, do paraíso à Magna Carta, das cidades da Mesopotâmia à linha de montagem, das catedrais góticas ao Projeto Genoma, do cinema ao jazz.

Criatividade e grupos criativos (vol.2) – Fantasia e concretude
Domenico De Masi

O que é a criatividade? O que é necessário para determiná-la? Quais são as formas específicas que está assumindo na nossa sociedade pós-industrial? O que muda quando se passa da criatividade individual para a coletiva? Quais os estilos de liderança mais adequados para se dirigir um grupo criativo?

Depois de analisar a longa experiência criativa da humanidade no primeiro volume de Criatividade e Grupos Criativos, o sociólogo Domenico De Masi se dedica em Fantasia e concretude a responder a essas perguntas, buscando uma definição e uma explicação dos processos criativos.

A partir das contribuições das neurociências, da psicanálise, da psicologia, da epistemologia e, sobretudo, da sociologia, o autor tenta desvendar a dinâmica secreta do processo criativo para que possamos aplicá-lo com maior eficiência em nossas vidas e, quem sabe, satisfazer nossa eterna aspiração humana pela felicidade.
****
O mistério da criatividade, ainda que permaneça profundo, encontra-se cercado: químicos, biólogos, neurologistas, psicólogos, psicanalistas e sociólogos examinam minuciosamente a criatividade, patrulhando seus limites e analisando seus processos.

Em Fantasia e concretude, segundo volume de Criatividade e grupos criativos, Domenico De Masi tenta abrir um novo front no cerco à criatividade, analisando principalmente a criação coletiva e retomando a tese do ócio criativo, título de um de seus livros de maior sucesso.

Segundo o sociólogo italiano, na nossa sociedade pós-industrial, a criatividade de grupo vem se sobrepondo à criatividade individual, tanto no campo científico quanto artístico. E o trabalho físico, repetitivo, enfadonho e cansativo está diminuindo, enquanto aumentam as atividades de tipo intelectual e criativo.

Para satisfazer suas necessidades de introspecção, amizade, amor, lazer, beleza e convivência, o homem precisa buscar a preciosa síntese de trabalho, estudo e jogo – o ócio criativo.

Ou seja, o prazer – principalmente o prazer da criatividade – é hoje um dever. E a participação criativa garante um dos prazeres mais intensos, porque é prolongada no tempo e salpicada de pequenas alegrias comuns, ansiedades e esperanças compartilhadas.

Depois de percorrer a história da humanidade em busca de respostas sobre o fascinante processo da criatividade, De Masi conclui que a alma da organização criativa é fantasia e concretude, entusiasmo e visão, identidade e universalidade, reflexão ociosa e vitalidade fecunda, é imaginação, tensão em direção ao futuro, respeito às raízes e responsabilidade com a natureza.

Muito bom Cláudio! Isso é prazer no trabalho, que se sente quando ele tem sentido pra nós. Repasso um texto de Dostoievski no livro “Recordações da Casa dos Mortos”, onde ele fala sobre o tempo que passou na prisão do czar ( por estar no lugar errado na hora errada) e sobre o tormento do trabalho sem sentido. As empresas deviam ler este outro lado também:

“Já me ocorreu uma vez que se se procurasse aniquilar um homem da maneira mais implacável(..) bastaria dar ao seu trabalho um caráter de inteiro absurdo, de absoluta inutilidade. Os trabalhos forçados atuais, por mais despidos de interesse que sejam para os condenados, pelo menos não são inteiramente desprovidos dum sentido. O forçado-operário fabrica tijolos, cava o solo, faz argamassa, edifica; e nessas tarefas há um pensamento, um fito. Algumas vezes ele até se interessa por essa obra, procura realizá-la melhor, mais habilmente. Mas se o empregassem por exemplo a carregar água de um tonel para o outro, e do segundo para o primeiro, ou a esmagar areia, ou a transportar terra daqui para ali e devolvê-la depois ao sítio primitivo – creio que ao cabo de poucos dias ele se enforcará ou cometerá mil desatinos, a fim de escapar àquele rebaixamento, àquela vergonha, àquele tormento. Aliás, essa espécie de castigo, significando apenas tortura e vingança, seria insensata, porque ultrapassaria seu fim. Contudo, qualquer trabalho obrigatório contém a sua parte de tortura, de absurdo, de humilhação e é esse o motivo que torna os trabalhos forçados incomparavelmente mais penosos que os outros”.

Bjks e Feliz Ano Novo , cheio de trabalho significativo para todos. Sempre brin-can-do…
Vera

Por um Ócio mais Criativo

http://vitorpamplona.com/wiki/Por%20um%20%C3%93cio%20mais%20Criativo

Há um tempo atrás, logo após o meu post sobre Campeonatos Mundiais, o Marcos me procurou para discutir ritmo de trabalho. Vendo o meu stress pós submissão-de-artigo, ele aproveitou o meu aniversário para me mandar um presente: um livro, chamado Ócio Criativo. Eu deveria ler e postar neste blog os meus comentários sobre o mesmo. Aceitei prontamente o desafio e aqui estou. Espero que gostem da análise.

Domenico de Masi e o Ócio.
Antes de tudo apresento-lhes o autor do livro: Domenico de Masi um sociólogo italiano, que foi considerado, por muito tempo, um workaholic, uma pessoa que se dedicava tanto ao trabalho que esquecia da família, dos amigos, das festas e da vida. Saiu deste coma quando descobriu o Ócio, otimizou suas condições de trabalho e reduziu seus compromissos. Continua altamente produtivo, mas não tão hiperativo.

Apesar de não declarar isso, Domenico é um apaixonado pela cultura brasileira, pela forma de vida alegre e responsável dos brasileiros. Escreveu vários livros, entre eles: Desenvolvimento Sem TrabalhoA Emoção e a RegraO Ócio Criativo e O Futuro do Trabalho nos quais não mede esforços para citar brasileiros como Oscar Niemeyer e Fernando Henrique Cardoso. É professor de Sociologia do Trabalho na Universidade La Sapienza de Roma, além de ser diretor da S3 Studium, uma escola de especialização em ciências organizacionais.

O livro, por sua vez, é uma imensa entrevista. De um lado, uma jornalista, do outro um sociólogo. Em foco, a mudança de época: de uma era industrial, padronizada, racional e voltada ao produto, para uma era estética, onde o tempo com a família é muito mais valorizado, a criatividade é aguçada e a ciência transforma-se em marketing. De Masi discute sobre a mudança de época, características de cada uma delas, o tele trabalho, o ócio, um novo modelo de trabalho e suas repercussões.

É um livro muito bom para quem acredita que o mundo pode mudar, para quem acredita que há algo errado no sistema de trabalho humano, para quem acredita que trabalhamos demais e vivemos de menos. É um livro para quem gosta de discutir as muitas abordagens e variações da engenharia de software, principalmente para os defensores de metodologias ágeis. É um livro para gerentes, analistas, desenvolvedores e consultores, do estagiário ao executivo. É um livro que não te responde nada, mas te faz pensar muito. A grande sacada do ócio de De Masi pode aplicada em uma nova era, desejada por muitos e desenvolvida por poucos. A era onde cérebro transforma-se em matéria prima e vende-se o que não existe: as idéias.

Em suma, o livro é impressionante e chato, contraditório e evasivo, realista e utópico, desfocado e obcecado. Uma obra de arte brilhante. A seguir eu colocarei as minhas opiniões sobre o mesmo e as idéias de De Masi. Vou entregar o ouro, então se você deseja ler o livro, pare por aqui. Leia-o e depois volte.

O livro e meus comentários
A primeira parte do livro, até por volta da página 140, trata apenas sobre mudanças de era, épocas e suas características. Fala-se sobre as famosas ondas de Toffler, sobre a sociedade agrária e industrial, sobre como definir uma sociedade pós-industrial e como distingui-la das outras. Infelizmente esta parte, para quem não gosta de história, é muito chata. A revisão apresenta grandes e pequenas histórias, muitas vezes sem foco algum e sem qualquer influência sobre a teoria do ócio. Nada fora do comum para uma conversa entre uma jornalista metida a historiadora e um sociólogo. Revela ainda que a entrevistadora Maria Serena Palieri, ou não entendeu o seu papel no livro, ou é uma tapada, pois dirige a entrevista como um bêbado dirigindo um carro.

Após esta maçante introdução, o foco se dirige à teoria do ócio e muitas coisas começam a ser descobertas e esclarecidas aos leitores. De Masi fala muito sobre o declínio das ideologias tradicionais, industriais, mostrando que o estilo de vida voltado ao produto, aos padrões, a racionalidade, ao tempo e a sincronização está decaindo. ” Os países industriais não sabem mais nem rir, nem se divertir “, diz ele. A sociedade industrial, com tempos fixos, linhas de montagem e lucros em larga escala está se tornando a sociedade da robótica.

Cada vez mais, os humanos deixam de efetuar trabalhos braçais, repetitivos, e passam a trabalhar com idéias, com a mente. De Masi lembra as teorias de Ford, aquele mesmo, criador da linha de montagem, dos carros e etc, nas quais se focava em padronizar produtos e forçava o mercado a comprar tudo igual, barateando o custo de produção e aumentando seus lucros. Hoje em dia não é mais assim, não se vende coisas iguais, pelo menos a cor muda, principalmente em automóveis, onde cada um ” equipa ” o seu de uma maneira diferente. É baseado nisso, mas não somente nisso, que o autor identifica uma mudança de época.

Na árdua tarefa de identificar o núcleo da era pós-industrial, três autores se sobressaem: Touraine diz: O coração desta sociedade é a programação, nunca foi tão fácil programar o futuro; Já Hegedus diz: O coração desta sociedade é a invenção, com ela podemos projetar e programar o futuro de forma precisa; Enquanto isso, De Masi diz: O coração desta sociedade é a informação, o tempo livre e a criatividade (pág. 128).

Como aspectos que distinguem a nova era, que De Masi chamou de pós-industrial por falta de um nome melhor, estão:

(i) Globalização, que cria comunidades homogêneas e heterogêneas ao mesmo tempo em escala mundial, e faz com que todo mundo saiba sobre tudo o que acontece em qualquer parte do mundo;

(ii) tempo livre, quanto mais tempo para a família, mais motivados e criativos seremos. Quanto mais tempo livre necessitarmos, mais caros seremos.

(iii) intelectualidade e criatividade, as moedas da nova era, os itens de compra e venda.

(iv) estética, diante de vários produtos que fazem a mesma coisa, escolheremos apenas o mais bonito.

(v) emotividade e feminilidade, adeus a era dos homens, bem vinda à era das mulheres.

Falando sobre estética, uma das frases que mais me deixaram intrigado foi esta: – Entre relógios de pulso com 2 bilhões de oscilações por segundo, que são 200 vezes mais precisos do que o necessário, ou seja, do que um ser humano precisaria. Qual a diferencia entre eles? A estética. Estamos começando uma era em que o caráter técnico de nossos produtos não é mais avaliado. Em troca, a usabilidade, estética e flexibilidade ganham um enfoque especial.

E justamente por isso que De Masi associa a nova era como a era das mulheres, pois, ao contrário dos homens, racionais, fortes, rígidos e programados as mulheres são flexíveis, intuitivas e estéticas. A força agora não vale mais nada. O poder nesta nova era não está em terras, no dinheiro ou em ações, ele vem das posses de idealização (laboratórios, centros de pesquisa, ciência) e de informação (da mídia). Um exemplo deste poder é o Vale do silício, pois concentra em uma pequena região uma imensa quantidade de idealizadores, tornando-se o centro do mundo moderno, a Meca do século XXI.

Atualmente a nossa atenção é gratuita. Está errado. Devemos vender audiência. Nosso tempo é precioso demais para gastar com ofertas e besteiróis desqualificados e que de nada auxiliam em nossas dúvidas do dia-a-dia.

Não devemos mais perder tempo em deslocamentos diários. Nosso tempo é precioso demais para ficar dentro de um carro numa selva de pedra e aço.

Não devemos mais perder o nosso tempo com o trabalho desmotivado. Se você não quer fazer, não faça. Vá para casa, e só volte quando tiver vontade para continuar.

De Masi discute bastante o tele trabalho, apresentando detalhadamente pontos fortes, como: a extinção dos deslocamentos diários, os custos, a flexibilidade de horário e o tempo com a família; e fracos, como: a necessidade de muita disciplina, a falta de ver gente diferente diariamente, a falta do sentimento de grupo e a desmotivação.

Na teoria de De Masi, com ou sem tele trabalho, nossas horas úteis por dia e nossos dias úteis por semana devem ser alterados. Ao invés de 8, 5 horas por dia e 5 dias por semana, devemos trabalhar apenas 5 horas por dia e 3 dias por semana, passando de 40 horas por semana para 15. Loucura? Não, o raciocínio dele faz muito sentido.

Já não é novidade que perdemos muito tempo útil navegando internet durante o horário de trabalho. ” De acordo com pesquisa divulgada em agosto deste ano pela Websense, 25 % dos funcionários utilizam a internet no ambiente de trabalho para buscar e comprar coisas que não dizem respeito à sua vida profissional.

Para a realização dos estudos, foram entrevistados 305 empregados e 250 gerentes de recursos humanos de companhias com até 38 mil funcionários. ” É muito difícil medir quanto tempo desperdiçamos na internet, mas é alto. Seja realista e olhe quanto tempo você perdeu nesta semana.

Atrelado a estas horas literalmente desperdiçadas, temos as pessoas desmotivadas, com produtividade baixa que, se tivessem alguns dias de folga, certamente voltariam com mais vontade para trabalhar. Além disso, na informática, precisamos ficar em constante atualização. As horas de atualização não são horas produtivas e, por isso, muitas empresas nem permitem essa atualização em horário útil, no entanto, exigem-na de seus funcionários.

De Masi diz: ” devemos reduzir as nossas horas úteis para 15 horas, dispostas em 3 dias quaisquer da semana “. Imaginem se nós tivéssemos todas as segundas e sexta-feiras livres. Poderíamos fazer nossas compras, almoçar com a esposa, acompanhar nossos filhos, ir ao médico e nos atualizar. Eles seriam nossos.

Além disso, que tal acordar as 7:00, ir para a academia, voltar as 8:00, tomar um bom banho e um belo café, e começar a trabalhar as 9:00 ou 10:00. Ainda assim, sair as 17:00, pegar as crianças, e chegar em casa as 18:00 para a janta. Tudo isso é regra, seria o seu dia-a-dia.

A idéia central de De Masi é, com essa atitude, confundir trabalho, lazer e jogo. Ninguém mais saberia quando está trabalhando para a empresa, investindo em si, ou descansando. Mas quem pagaria por isso? A empresa de uma sociedade pós-industrial, que interessa mais ver seus funcionários felizes e produtivos do que emburrados e improdutivos. Baixaria o salário? Não.

De Masi aponta que há uma redução regular de 25% no trabalho a ser realizado em qualquer empresa. Isso significa que regularmente, a empresa poderia demitir 25% dos seus profissionais porque não há mais trabalho para eles. No entanto, atualmente em grande parte do mundo, demitir não é tão fácil assim.

Como um funcionário não tem mais o que fazer e também não é demitido, para se sentir útil ele começa a criar burocracia inútil e vira chefe. A burocracia é o câncer que contaminou toda a sociedade industrial e a principal inimiga da criatividade. Graças a ela que muitas pessoas garantem o seu emprego. De Masi apresenta uma grande sacada para o problema da burocracia. Como demitir em massa é muito ” feio ” para a sociedade, ao invés de demitir, reduza a carga horária para as 15 horas e faça dois turnos. Seus funcionários ficarão muito felizes, continuarão produtivos e nenhum babaca vai criar burocracia desnecessária.

Num dos capítulos do livro o autor dá um puxão de orelha na grande maioria dos executivos. Os executivos e donos de empresa se sentem culpados se não ” doam o seu sangue ” pela empresa. Afinal eles ganham muito dinheiro, então, devem recompensar a empresa com muito trabalho. Muitos deles passam mais de 10 horas por dia na empresa, não recebem sequer hora extra e adiam para a velhice o momento de curtir a família e os filhos.

O que acaba acontecendo é que a vida deles torna-se a empresa e, com o tempo, eles não sabem fazer mais nada sem ter uma secretária por perto. Uma pergunta muito interessante para fazer a um executivo é, dado que manter o padrão de vida dele custa muito caro, ” Onde você gasta tanto dinheiro se quase nunca está em casa ou se divertindo com seus filhos? “.

A maioria deles vai se sentir como se levasse uma marretada na cabeça. De Masi os chama de burros, com todas as letras. Primeiro porque ninguém produz boas idéias em um ritmo alienado como esse. Segundo porque estão deixando a vida passar. Se eles se disciplinassem veriam que passar uma manhã deitado numa rede é muito mais produtivo para eles do que dentro de um escritório. As idéias virão muito mais facilmente.

Quer saber se você ou seus funcionários estão alienados? Tome ou dê um dia de folga. Se não surgir aquele friozinho no estômago dizendo que: ” Você não deveria estar no shopping uma hora dessas “, você está livre, caso contrário tão alienado quando os executivos.

Este novo modelo de produção de De Masi se baseia unicamente em Motivação. E é aí que começam as dúvidas. Estar motivado é querer que algo continue e evolua. No entanto, grande parte das empresas (existe alguma?) só obtém lucros após a estabilização do produto, ou seja, se ela cria um novo método, no início é só prejuízo, o lucro vem após algum tempo. Estabilizar significa não mudar e, não mudar, significa chatice. Como se manter motivado diante da chatice de um emprego que não muda?

A resposta está no meio do livro, quando De Masi diz: ” Não há compatibilidade entre os modelos de trabalho industriais e pós industriais ” (pg. 228). Ou seja, não existe fase transitória, ou você está no novo, ou no velho, ou falido. As regras que são necessárias para obtenção do lucro devem ser tomadas como um desafio e não um limite. É este desafio que manterá a Motivação em alto.

De Masi exemplifica: ” Meu cliente quer que eu pinte um quadro com duas mulheres, uma vaca, uma bomba nuclear e uma igreja, dispostas de maneira visível e harmoniosa. Como artista é um desafio pra mim criar uma obra de arte com regras tão específicas “.

Para adotar o ócio, precisamos antes quebrar alguns paradigmas. O que você diria para alguém que trabalha apenas 5 horas por dia e 3 dias por semana? Certo! Você diria: ” Que cara vadio “. Para quem é ocioso no trabalho, você diria: ” ladrão “, porque rouba o tempo de esforço no trabalho, seja do empregador ou da sociedade.

Em suma, hoje o ócio é visto como um defeito e não como uma qualidade. Não nos sentimos culpados por pensar, mas nos sentimos culpados por não pensar. De Masi defende este mesmo ócio como um ócio bom.

Como pode ser isso? Ou melhor, o que é ócio afinal? Como a teoria de De Masi é o Ócio, ela torna-se arriscada. É arriscada no sentido da vagabundagem. Como você suportaria a vontade de não fazer nada, sentado numa cadeira de praia ou numa rede, ao invés de se atualizar?

De Masi é bem claro neste ponto. Ele diz que é a teoria do Ócio CRIATIVO, e não de qualquer ócio. Se você for disciplinado o suficiente para manter a sua mente no ócio criativo, você será muito bem recompensado no futuro. Na falta desta disciplina, deverá haver líderes carismáticos que sejam responsáveis por sua motivação. Se não houver nem um, nem outro, há grande chance de você parar na cadeia, sofrendo do mesmo mal que sofrem os pobres e desempregados, a falta do que fazer. De Masi já prevê para estas pessoas que as situações de tédio vão aumentar no futuro. Cabe a elas mudar isso.

Outro paradigma a ser quebrado é o tempo. Cronômetros são para a sociedade industrial. A sociedade pós-industrial não pode medir a sua produção pelo tempo de trabalho, assim como também não pode depender de limites de horário.

Outro paradigma a ser quebrado é a inveja. Devemos parar de pensar em ” Por que esse cara não está trabalhando? Eu trabalho mais que ele “. Pois a nova sociedade não tem horário e, é provável, que você verá o seu amigo com muito mais frequência quando ele estiver em seu horário de descanso. Também não podemos nos esquecer que, ao ver um amigo nosso deitado numa rede, ele pode não estar descansando, ele pode estar trabalhando.

O livro também cria uma nova classe social, chamada de ” Os digitais “. Os digitais são os frutos da tecnologia. Possuem inúmeras formas de comunicação, são cultos, inteligentes e muito rápidos, frequentemente sabem mais de uma língua, nunca experimentaram o racismo, se preocupam com um desenvolvimento sustentável do planeta, lutam pela paz e contra a opressão, não se apegam a religiões, idolatram as obras de arte e são defensores da ética, da honra e da coragem.

Antigamente, estas pessoas seriam poucos e estariam reunidas ao lado de grandes reis, hoje elas são muitas e estão espalhadas pelo mundo. De Masi discute em várias páginas sobre comportamentos comuns a estas pessoas.

De Masi termina o livro fazendo uma avaliação sobre alguns países de terceiro mundo, dizendo que eles são ” Materialmente pobres mas culturalmente ricos “. Estes países podem passar de consumidores para idealizadores e pular o período industrial que a maioria dos países de primeiro mundo teve que passar. É o que ocorre hoje na China e em parte do Brasil. Quando a entrevistadora pergunta em qual país o desenvolvimento deste novo modelo é mais propício, De Masi responde prontamente: ” No Brasil. Eu investiria na Bahia “.

O que eu citei aqui é talvez 5 % do volume de conhecimento que o livro transmite. Como eu disse antes, o livro é para pensar e não para ler. Provavelmente vou ler mais algumas vezes até digerir todo o conteúdo do livro.

Obrigado Marcos, pelo presente. Certamente, foi um dos melhores que já ganhei.

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• Velhice Prematura
Posted in Sep 5, 2009 by Vitor Pamplona – Edit – History

Acompanho a obra de Domenico De Masi há alguns anos e tenho procurado divulgar suas idéias.

Para um exemplo ver a seguinte trilha de mensagens em fórum da Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento:

Metariqueza: um novo jeito de enriquecer
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http://www.portalsbgc.org.br/sbgc/foruns/tm.asp?m=5271&forumid=…

Ver também:
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http://pt.wikipedia.org/wiki/O_%C3%93cio_Criativo

Domenico de Masi adverte: “Escola é inimiga do ócio criativo”

Portal Aprende Brasil [1]

http://www.aprendebrasil.com.br/entrevistas/entrevista0019.asp

Dos 6 bilhões de habitantes do mundo, somente 1,5 trabalham – o resto não conhece ou não tem acesso ao ritmo pós-industrial de trabalho.”

O sociólogo italiano Domenico de Masi, autor de diversos e revolucionários livros — entre eles, os best sellers Desenvolvimento sem trabalho (Editora Esfera, R$ 15,00) e A emoção e a regra (Ed. José Olympio, R$ 39,20) —, é um dos mais polêmicos e inovadores pensadores da era pós-industrial. de Masi esteve no Brasil durante a última semana de abril, para lançar o livro O ócio criativo (Ed. Sextante, 328 págs. R$ 27,00). Entre várias atividades, fez três palestras em São Paulo: uma promovida pela livraria e editora Saraiva, no hotel Intercontinental, outra nas Faculdades Domus e a terceira no último domingo (30/04), na Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

Todas estiveram lotadas, com um público variado composto por empresários, professores, estudantes, profissionais de marketing, letras e, claro, trabalhadores. Nas Faculdades Domus, de Masi recebeu o título de professor emérito, “por suas relevantes contribuições nas Ciências Sociais”. Ele agradeceu, sem muitas delongas, abreviando formalidades, com seu jeito encantadoramente “carcamano” de ser. O italiano está na crista da onda nos círculos de intelectuais brasileiros — quase como a novela Terra Nostra, no auge do drama, esteve para a massa.

De Masi, como definiu a jornalista italiana Maria Serena Palieri, cuja entrevista com o sociólogo se transformou no livro O ócio criativo, é um militante pela “redistribuição do tempo, do trabalho, da riqueza, do saber e do poder”. Proferindo frases de efeito do tipo “o homem que trabalha perde tempo precioso”, de Masi faz todo tipo de gente parar e questionar por que correr tanto para ganhar dinheiro e acumular bens.

Em seu discurso simples e lógico, não há razão nem vida longa aos workaholics — mesmo porque o desemprego ronda a globalização como urubu em torno de carniça e a mão-de-obra humana está sendo substituída por máquinas. E o tempo livre que foi delegado à humanidade ou conquistado por ela pode e deve ser bem aproveitado — e nunca “amargado” em depressão.

“Dos 6 bilhões de habitantes do mundo, somente 1,5 trabalham — o resto não conhece ou não tem acesso ao ritmo pós-industrial de trabalho”, contabiliza de Masi, na introdução de seu raciocínio.

“Se a vida média útil de um ser humano tem hoje cerca de 530 mil horas, o tempo médio gasto com o trabalho é de apenas 80 mil horas (considerando a jornada universal de 40 horas por semana). Restam 220 mil horas, passadas dormindo, e mais 220 mil horas livres, reservadas para a pessoa fazer o que lhe der na telha. Esse tempo pode ser aproveitado de maneira criativa, saudável e produtiva, no sentido mental e físico.” [3]

Ditadura da correria

Como não concordar com ele? O trabalho, de acordo com as leis e com o advento da tecnologia, foi reduzido à metade neste século. No entanto, o modelo de civilização desenvolvida, adotado pelos EUA e Japão, pragmatiza o trabalho como a principal razão de viver. “Todos correm como loucos, nunca têm tempo para nada — nem mesmo para usufruir da riqueza que acumularam. Os norte-americanos vão a supermercados nos feriados comprar coisas inúteis, acumulando dívidas que passarão a vida pagando — e trabalhando para isso. Vocês, brasileiros, têm um ritmo cultural de vida que ainda pode escapar dessa ditadura!”, conclama de Masi, animado. Nessa altura, a platéia está boquiaberta.

Simpático e bonachão, o professor italiano continua sua aula em defesa do ócio criativo, ou seja, do aproveitamento do tempo livre de cada dia — ou noite. Ele defende que, no caso de trabalhadores intelectuais (especialmente os professores) — aqueles que usam mais o cérebro do que o corpo, e que são maioria na sociedade pós-industrial —, as melhores sacadas podem brotar na hora em que não têm absolutamente nada a fazer — a não ser deixar a mente viajar. Não é preciso forçar esse estado de letargia. Ele vem naturalmente, quando a pessoa consegue relaxar — coisa difícil na era do consumismo e da informação.

“Podemos gastar nosso tempo livre com atividades que não nos cansam ou alienam, mas que nos excitam. Os despertadores e burocratas são os maiores inimigos do ócio criativo”, diz. “Só que as pessoas, consumidas pelo trabalho, não percebem como aproveitam mal seu tempo livre. Não lembram sequer que têm direito a ele”, continua. Em tempo: De Masi lembra de outros inimigos do ócio criativo — a religião e a escola. “A Igreja prega o trabalho como um ‘castigo divino’ e a escola prepara indivíduos para seguirem o modelo atrofiante da sociedade consumista.”

Autonomia e sabedoria

É claro que, para usufruir da liberdade com autonomia e sabedoria, é preciso praticar “a educação para o ócio”. de Masi alerta que a sociedade pós-industrial já se encarrega também de programar nosso tempo livre.

“Enquanto estamos aqui, os produtores de Hollywood estão trabalhando em filmes para assistirmos; os McDonald’s estão fabricando novos sanduíches para comermos e a televisão está anunciando programas que não podemos perder.”

De Masi adverte: para sermos, de fato, donos do nosso destino, é preciso refletir sobre ele e isso só é possível com o ócio criativo. Certo de que o stress causado pelo excesso de trabalho e pela supervalorização dele só leva certeiramente a um destino mais rápido — a morte —, de Masi salienta que a beleza e o prazer da vida está, principalmente, em coisas que fazemos “sem gastar um tostão”: fazer amor, encontrar amigos, folhear uma enciclopédia, meditar e deixar o tempo correr, sem nenhuma ansiedade.

Certo também de que o comunismo, embora quisesse distribuir a riqueza mas não soubesse produzi-la, perdeu terreno para o capitalismo, que sabe produzir riqueza mas não distribuí-la, de Masi alimenta a possibilidade de criar um novo sistema político, que possa se adequar às necessidades humanas — e não fazer dos indivíduos reféns dele. Otimista? “Sim, acho que evoluímos muito, apesar de tudo. Temos um futuro brilhante nas mãos — e temos tempo de sobra para aprendermos a conduzi-lo em nosso favor”.

Domenico de Masi é professor titular do curso de Sociologia da Universidade La Sapienza, de Roma, membro do comitê científico de várias revistas italianas e diretor-responsável da revista Next – Strumenti per l’Innovazione (que pode ser editada no Brasil, encartada no jornal Valor Econômico), além de atuar como consultor organizacional, por meio de seu instituto-escola S3 Studium, para empresas como Fiat, IBM e Pirelli.

Como se vê, trabalho é o que não falta a de Masi. Mas, entre uma palestra e outra no Brasil, ele achou tempo para conceder a entrevista a seguir.

Como o senhor chegou às suas conclusões sobre o ócio criativo?

Domenico de Masii – Estudei primeiro o trabalho dos operários; depois o trabalho dos empregadores. Com o aumento do trabalho intelectual no sistema produtivo, notei que havia uma distinção cada vez mais tênue entre o trabalho propriamente dito e a criatividade. E sendo a criatividade a principal ferramenta do trabalho, fica difícil distinguir os momentos em que estamos de fato trabalhando duro ou os momentos em que, mesmo usufruindo de tempo livre, estamos criando coisas. Isso acontece comigo: não sei quando estou trabalhando ou me divertindo — estou sempre tendo idéias, criando. Então, estudando esses grupos de trabalho sustentados pela criatividade, percebi que todos trabalhavam com o auxílio de jogos, brincadeiras, atividades lúdicas. Demonstrei que todos os grupos de criatividade trabalham como se fosse lazer. Sobre esse estudo, escrevi o livro A emoção e a regra.

É possível todos os trabalhadores desenvolverem essa relação entre trabalho e lazer, ou seja, tornar seu trabalho mais prazeroso?

Domenico de Masi – Depende do tipo de trabalho que você faz. Temos aquele trabalho que casa com o estudo. É como um jornalista ou o trabalho de um cientista. Ou estudar medicina com alguém divertido. Ou o trabalho de um ator. O problema é unir as duas coisas e ter uma atividade na qual coexistam estudo, trabalho e tempo livre. O segredo é buscar uma interseção entre tudo isso. Assim qualquer pessoa poderá vivenciar melhor seu ócio criativo.

Transportando essa relação para a escola, então…

(De Masi mostra um gráfico em que desenhou três esferas: uma com nome trabalho, outra com o nome lazer e outra referente ao tempo livre. Ele simplesmente faz um sinal com a caneta, mostrando o que acontece na prática.) [2]

Domenico de Masi – A escola tradicional só faz interseção com o trabalho. Nunca com o lazer e o tempo livre.

Qual seria a maior falha dos atuais sistemas de ensino, já que a escola e os professores são considerados pelo senhor como os principais inimigos do ócio criativo? O que pode ser feito, em termos de transmissão de conhecimento, para que essa realidade comece a mudar?

Domenico de Masi – Para começar, as escolas devem abolir, a todo custo, a imagem ou idéia de que o estudo deve ser algo penoso e chato — exatamente como o trabalho. No entanto, o sistema pede que as escolas preparem as crianças para serem trabalhadores eficazes. É preciso que as escolas incorporem mais atividades lúdicas, que provoquem espaço para a reflexão e o questionamento.

Por outro lado, é necessário que professores se aperfeiçoem para tornar a transmissão de conhecimento algo mais interessante e menos massacrante, mecânico. O professor que não tenha ido à Europa, ou sequer navegado pela internet não pode ensinar nada a ninguém. O professor que não usa a internet é um delinqüente! (risos) É preciso resgatar a dignidade entre escolas, professores e alunos. Acho que essa mudança vai acontecer naturalmente, à medida que morrem os professores antigos e chegam os jovens. Para os jovens, a criatividade simplesmente flui.

No Brasil, há 40% de analfabetos e a maioria dos professores é mal remunerada, têm deficiências de formação e, efetivamente, não tem condições de ir à Europa ou de navegar na internet. O que fazer então?

Domenico de Masi – Não estou falando para o universo dos analfabetos nem do ensino público brasileiro, e sim para o universo dos alfabetizados, em especial os professores. E, se os professores brasileiros são carentes, o país é carente. Esse é o problema primordial do Brasil. Os ricos, a elite, parecem não entender isso. Está principalmente na mão da elite brasileira resolver ou não essa questão. Só ela tem as ferramentas para isso. É sua contribuição social. O Brasil tem dois países num só — o dos ricos e o dos pobres.

Falando de questões da sociedade pós-industrial, como a globalização e o desemprego, como o desempregado pode desenvolver seu ócio criativo?

Domenico de Masi – Se o desempregado é rico, então tudo bem! Há dois tipos de desempregados: o pobre financeiramente e intelectualmente e o rico financeiramente e com boa formação intelectual. Esse pode se ocupar de música, literatura, cinema e tem mais chances de desenvolver seu ócio de maneira criativa. O pobre precisa comer, precisa de dinheiro. O pobre tem de se ocupar com a sobrevivência. O ócio criativo é um problema de ricos, para quem já tem um mínimo de estrutura garantida.

Qual é o projeto que o S3 Studium pretende desenvolver no Brasil? O que é preciso para os interessados participarem dele?

Domenico de Masi – Fechamos um acordo com a faculdade Getúlio Vargas para criar em São Paulo uma sede da escola. Formamos jovens para que se tornem planejadores — de uma empresa, escola, jornal ou bairro. Estamos formando agora os professores. Depois, em 2001, começaremos a formar alunos brasileiros. Ainda não estamos selecionando alunos, mas eles só precisam ter um diploma universitário e vontade de mudar o sistema para se juntarem a nós.
*****
Juliana Resende/BR Press
Especial para o Educacional

[1] Portal Aprende Brasil ( http://www.aprendebrasil.com.br/home.asp )

Em 1972, nascia em Curitiba o Grupo Positivo
Atualmente, atua em três áreas: educacional, informática e gráfico-editorial. Na área educacional, está presente desde a educação infantil até o ensino superior com escolas próprias, além de manter convênio com aproximadamente 2.000 escolas, que compreendem cerca de 500.000 alunos em todo o Brasil. Na área gráfico-editorial, há cinco anos consecutivos, a Posigraf é a maior gráfica brasileira no setor de impressos promocionais e editoriais segundo a Abigraf (Associação Brasileira da Indústria Gráfica). Na área de informática, a Positivo Informática é líder de mercado na representação e desenvolvimento de softwares educacionais e produz computadores e equipamentos. Ciente do papel de vanguarda do Grupo Positivo na educação brasileira, a Positivo Informática uniu educação e tecnologia e assumiu o compromisso de criar o mais completo site de educação do Brasil para escolas, educadores, alunos e pais. Nasceu, assim, o Portal Aprende Brasil.

O portal tem por objetivo fazer a diferença na educação brasileira:
encorajar o uso de tecnologias inovadoras, possibilitar a criação de novos relacionamentos nas escolas, instigar a aprendizagem e levar informações atuais a todos os que participam da vida escolar. Trata-se de um ambiente de conhecimento, ensino e aprendizagem com milhares de informações organizadas e avaliadas sobre educação infantil, ensino fundamental e ensino médio, além de recursos de administração escolar, psicologia, nutrição, debates, fóruns, artigos, atualidades, entre outros. Com o Aprende Brasil, sua escola pode ter sua própria homepage, com todo o conteúdo do portal; seus educadores podem desenvolver novos projetos; seus alunos podem fazer pesquisas infinitamente mais completas e trocar experiências educacionais com estudantes de todo o Brasil; e os pais podem participar da vida escolar de seus filhos.

O Aprende Brasil tem uma equipe dinâmica de funcionários especializados em educação e Internet.
São pessoas que têm como objetivo tornar o site o melhor exemplo da educação brasileira no mundo todo. Nossa equipe conta com webdesigners, programadores, analistas de sistemas, jornalistas, educadores, professores das diversas disciplinas, redatores, editores, bibliotecárias, psicólogas, nutricionistas, pedagogos, advogados, economistas, administradores. São centenas de pessoas produzindo educação dia após dia.

[2] Ver figura: Trabalho_x_Estudo_x_Jogo.jpg

[3] Ver figura: HorasTrabalhoSonoLaser.jpg

Sobre Domenico de Masi

De Masi nasceu em Rotello, no sul da Itália. Aos dezenove anos, já publicava ensaios de Sociologia Urbana e do Trabalho. Com vinte e dois, ensinava na Universidade de Nápoles. Por mais de trinta anos, desenvolveu uma atividade frenética: professor de Sociologia do Trabalho na Universidade La Sapienza de Roma, diretor da S3 Studium, editor de duas coleções… A lista é longa.

Hoje leva uma vida mais calma e mais “ociosa”. Otimizou suas condições de trabalho e reduziu seus compromissos. Continua altamente produtivo, mas não hiperativo. A movimentada biografia desse autor deixa claro, através de sua história pessoal, que ócio criativo não significa indolência.

Domenico de Masi
De Masi nasceu em Rotello, na província de Campobasso, no sul da Itália, no dia 1º de fevereiro de 1938. Viveu em três cidades diferentes: Nápoles, Roma e Milão. Viajou muito.

Para usar uma expressão adequada ao mundo cadenciado da escola, pode-se dizer que ele sempre foi “adiantado em um ano”. Tanto no sentido metafórico, porque nutre um interesse obstinado pelo futuro, como no sentido literal, porque pulou alguns anos do curso primário e continuou a queimar quase todas as etapas clássicas.

Aos dezenove anos, já publicava, na revista Nord e Sud, ensaios de Sociologia Urbana e do Trabalho. Com vinte e dois ensinava na Universidade de Nápoles. E depois, por mais de trinta anos, desenvolveu uma atividade frenética.

Com sua primeira mulher teve duas filhas, que criou durante alguns anos como “pai solteiro”. É apaixonado pela estética, por decoração e até pelos vários tipos de rendas e – acreditem – cuida da casa quase tanto quanto sua atual mulher.

Quando começou a encontrar-se com Serena Palieri para escrever O Ócio Criativo, sua agenda anual acumulava uma multiplicidade de tarefas: professor de Sociologia do Trabalho na Universidade La Sapienza de Roma, diretor da S3. Studium, a escola de especialização em ciências organizacionais que fundou, editor de uma coleção publicada pela Franco Angeli e de uma outra para a Edizioni Olivares, consultor de formação em administração, assessor cultural da Prefeitura de Ravello (a cidadezinha da costa amalfitana onde passa os meses de verão), além de autor de inúmeros artigos para revistas e jornais e, periodicamente, escritor de alguns livros. Durante a semana, dava regularmente suas aulas na universidade e muitas vezes viajava para outras cidades.

Já na escala cotidiana, chegava a ter cinco ou seis compromissos por dia. E como a tudo isso se somavam o estudo e a diversão, o seu dia acabava quase sempre durando vinte horas. Isto porque De Masi pertence àquele tipo de pessoa que dorme três-quatro horas por noite.

Onde fica “o ócio”, então?

Vamos observar a trajetória do professor: ele simplesmente passou do frenético ao humano.

Daqueles dez mil prazos e compromissos a cumprir, quantos sobraram hoje? A carga horária fixa das aulas na universidade e, ao longo da semana, uma reunião com os estudantes que estão para se formar, uma outra na S3, uma para a redação da nova revista Next, que ele dirige, um almoço na Aspen, um convênio sobre mobbling, uma entrevista a ser dada a algum jornal ou estação de rádio, alguns jantares com os amigos e o fim de semana dedicado ao cinema ou para uma fugida até Ravello, onde agora, fortalecido pelo título de cidadão honorário adquirido neste meio tempo, em vez de organizar concertos, como fazia há cinco anos, limita-se escutá-los.

Como sociólogo que estuda a organização social do trabalho, ele “otimizou” as suas condições logísticas. O edifício no qual mora e trabalha no Corso Vittorio Emanuele se tornou seu quartel general. No quinto andar encontra-se sua casa: é alugada, mas tem uma vista sobre os telhados mais lindos de Roma. Num apartamento dois andares abaixo’, a escola S3 estabeleceu a sua sede. E isto, ele explica, acabou com a perda de tempo e dinheiro necessários aos deslocamentos entre a casa e o escritório.

Uma outra novidade: decidiu passar a “exportar” as suas idéias, no lugar do seu corpo físico: em vez de continuar a girar pela Itália como um pião, recorre sempre com maior freqüência a teleconferências, escreve artigos ou livros em seu apartamento ou em Ravello.

De Masi conquistou condições de trabalho privilegiadas? Se deixarmos predominar o mesquinho sentimento da inveja, diremos que sim. Mas, para dizer a verdade, ele prova in corpore vili o que como sociólogo propõe como receita social: uma forma de teletrabalho feito em casa ou de qualquer lugar, descentralizado do escritório.

Continua a ir dormir às três e meia ou quatro da manhã, depois de ter lido, escrito e limpado o correio eletrônico, e continua a acordar às sete e quinze, quando começa Prima pagina, uma transmissão radiofônica que segue assiduamente para evitar a leitura dos jornais. Mas adicionou algum repouso diurno, em doses homeopáticas: meia hora depois do almoço, e quinze minutos antes do jantar.

De Masi admite que adoeceu de hiperatividade: “Não conseguia dizer não a nenhum compromisso”, observa. Admite que, subjetivamente, sua reflexão sobre o “ócio criativo” brotou como uma reação a toda aquela overdose. Assim como –num sentido objetivo – ela nasceu da constatação direta dos infinitos absurdos organizacionais que angustiam o trabalho nas empresas.

O “ócio” que De Masi prega não equivale à indolência (sobre o seu ambivalente prazer escreveu Roland Barthes com tanta sabedoria). E ainda hoje, se lhe perguntamos se nunca vadiou, jogando tempo fora, o seu “não” é acompanhado de um pulo da cadeira.

Domenico de Masi – Memória Roda Viva – 3/12/1998 e 4/1/1999

Domenico de Masi
3/12/1998

Sociológico italiano, Domenico de Masi defende uma nova sociologia do trabalho, baseada na criatividade e no que ele classificou como ócio criativo

Paulo Markun: Boa noite! O Roda Viva, na série das edições especiais, reapresenta hoje uma das entrevistas de maior repercussão da história do programa. É a do sociológico italiano Domenico de Masi, defensor de uma nova sociologia do trabalho, baseada na criatividade e no que ele classificou como ócio criativo, para que as pessoas possam ocupar o tempo livre tendo mais lazer, ampliando seus estudos e tornando-se melhores profissionais. Domenico de Masi foi diretor de empresa e é professor titular de sociologia na Universidade de Roma La Sapienza. Fez um amplo estudo sobre a emoção e a regra [Markun exibe na tela o livro do entrevistado A emoção e a regra], onde conta como a criatividade impulsionou algumas empresas na Europa no último século. Questionador das relações convencionais de trabalho, de Masi abriu uma nova discussão em torno de questões centrais da Educação, da formação profissional, e das relações de trabalho. Ele argumenta que a criatividade é o maior capital dos países ricos, e que esses países vivem, literalmente, de terem boas idéias. A entrevista que fizemos com o professor Domenico de Masi foi gravada em dezembro de 1998, na primeira visita que ele fez ao Brasil. Para entrevistar Domenico de Masi, estão aqui o jornalista Albino Castro, editor executivo da Gazeta Mercantil; o ex-faxineiro e ex-office boy Max Gehringer, presidente da Pullmam Plus Vita, palestrante e autor do livro Relações desumanas no trabalho; o sociólogo Danilo Miranda, diretor do Sesc no Estado de São Paulo; o engenheiro Milton Seligman, presidente do INCRA, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária; o empresário Rodrigo da Rocha Loures, presidente da Nutrimental Comércio e Indústria de Alimentos; a jornalista e empresária Mônica Falconne; e o jornalista Marco Antônio de Rezende, diretor de redação da revista Vip-Exame. Professor Domenico, boa noite!

http://www.rodaviva.fapesp.br/materia_busca/5/domenico%20de%20masi/…

Domenico de Masi 1999
4/1/1999

Domenico de Masi fala de suas pesquisas, da realização trazida pelo trabalho e da necessidade do tempo livre, que traz benefícios para a saúde física e mental

Paulo Markun: Boa noite. Nas comemorações dos 30 anos da TV Cultura o Roda Viva traz hoje um convidado também especial. Ele já esteve aqui no programa em janeiro e resultou numa das maiores repercussões já tidas pelo Roda Viva. Conosco, esta noite, o sociólogo italiano Domenico de Masi, professor de sociologia do trabalho da Università della Sapienza, de Roma, que tem chamado muita atenção com suas idéias sobre as relações entre o homem e o trabalho. Como o professor De Masi, outros pensadores de importância já passaram aqui pelo Roda Viva, também, ao longo de sua existência. Nós trouxemos diversos pensadores e, com isso, o Roda Viva tem sido um centro de discussão de todas as áreas do pensamento humano. Antes de começar, vamos relembrar um pouco da memória do Roda Viva, vendo outros convidados internacionais, que já deixaram aqui suas idéias e suas polêmicas.

http://www.rodaviva.fapesp.br/materia_busca/30/domenico%20de%20masi…

[Anselm Grun] Trabalho que Adoece – Hedonismo – Liderança – Globalização

1-) Seus livros foram traduzidos em mais de 20 países. Aqui no Brasil já temos cerca de 20 títulos traduzidos. A que se deve o sucesso de suas obras?

Grün — Primeiro, creio que existe hoje uma grande procura, um grande desejo por espiritualidade, e também por espiritualidade cristã. Eu procuro falar em uma linguagem muito simples, fácil de se entender. Evito fazer julgamentos, procurando, ao contrário, caminhar com as pessoas a partir do lugar onde elas se encontram. Evito também as receitas prontas. Procuro escutar os problemas com atenção e, a partir daí, tento achar junto com as pessoas um caminho para viver a vida de uma maneira melhor.

7-) Como vê o trabalho em nosso momento cultural atual?

Grün — Para mim, um desafio muito importante de “Ora et labora” é uma cultura de trabalho na qual o trabalho seja um prazer para a pessoa humana, um espaço onde ela goste de trabalhar.

Se a cultura do trabalho estiver doente, se a pessoa humana está sendo explorada, se a pessoa é sobrecarregada, o que acontece? Ela primeiro fica doente e depois enrijece e se torna violenta. Uma cultura de trabalho violenta cria também violência na sociedade.

Por isso, a política e a economia têm uma tarefa muito, muito importante para a saúde de um povo. Primeiro, criar uma cultura de trabalho saudável e não explorar o ser humano e não tratá-lo com injustiça. Em segundo lugar, que ela ofereça suficientes oportunidades de trabalho. Isso certamente grande número de sociedades contemporâneas não consegue realizar, também aqui na América Latina.

Mas, mesmo assim, não podemos deixar de lutar por uma cultura desse tipo, pois palavras piedosas não adiantam nada quando as estruturas são injustas, e quando toda uma cultura do trabalho deixa as pessoas doentes.

😎 Como compreender as exigências cristãs sobre o sacrifício diante de uma cultura de cultivo ao corpo na vida contemporânea?

Grün — Em primeiro lugar, quero dizer que a religião cristã anuncia a encarnação, isto é, que o Verbo se fez carne. Eu conheço cristãos que dizem “Eu creio em Deus”, mas com seus gestos mostram que, de fato, não ligam para Deus e se preocupam só consigo mesmo. O corpo é o lugar da experiência de Deus. “A alma — diz Hildegard von Bingen — gosta de morar no meu corpo”.

Este seria um primeiro aspecto: que nós tratemos bem o nosso corpo, que nós amemos o nosso corpo. Com o corpo e no corpo. E isso é diferente da cultura do corpo atual, que muitas vezes é muito estressante, porque só é possível se sentir bem no seu corpo quando este corresponde às expectativas da sociedade.

Um segundo aspecto consiste no sacrifício do corpo. Certamente vemos muitas vezes o sacrifício do corpo de forma negativa, como resignar, sobrecarregar-se, ser muito duro consigo mesmo. Isso não é muito bom. Eu gostaria de falar de “oblação” em vez de “sacrifício”. Na oblação, eu me dedico ao trabalho e à pessoa humana, e nessa oblação a vida flui. Um sacrifício que mortifica, que é negativo, não corresponde à fé cristã.

Outro aspecto: a psicologia diz que renunciar faz parte do ser humano. Sigmund Freud, como um psicólogo crítico, diz que sem renúncia não é possível alcançar um “ego” forte. O ser humano precisa das duas coisas: precisa gostar da vida e ter prazer, mas ele precisa também do limite e da renúncia para poder viver.

Hildegard von Bingen disse uma vez: “Disciplina é a arte de poder alegrar-se sempre”. Acho que isso mostra que o sacrifício e a renúncia bem compreendidos conduzem sempre à vida. Quando o sacrifício impede a vida, então é masoquista e certamente não corresponde à Verdade.

9-) Na Alemanha, o senhor costuma dar numerosas palestras a executivos. O que o aproxima desse mundo e o que o faz pensar na necessidade de sair do mosteiro para ir ao encontro do mundo?

Grün — Eu vejo duas tendências hoje na economia: uma, onde as coisas se tornam sempre mais rudes, e onde somente o dinheiro e a maximização do lucro contam. Para mim isso é desumano. Do outro lado, sinto uma tendência para valores cristãos: muitos empresários e gerentes sentem que buscar somente o dinheiro leva a um mundo sem sentido e ao estresse, sem dar alegria e prazer.

Eu tento, como monge, reforçar esta tendência e esta procura por valores cristãos. Eu sou monge no mosteiro, mas sou também beneditino de missão, e então localizo minha tarefa missionária diante da economia. Pois a economia é um fator importante que dá forma à sociedade, e quando a economia dá à sociedade uma forma desumana, então o clima na sociedade se torna sempre mais rude e desumano.

Liderar significa, para mim, criar uma cultura humana na firma, para que também o clima na sociedade se torne mais humano. Quando a cultura na firma é rude, a cultura na sociedade será mais rude também, e mais criminosa Diante disso, sinto-se chamado à responsabilidade, pois ser monge não é retirar-se simplesmente do mundo, mas é também continuar responsável por esta sociedade. Cumpro esta minha responsabilidade reforçando esta tendência pelos valores cristãos; e acredito que isso é importante para a sobrevivência da humanidade neste mundo, especialmente neste tempo de globalização.

10-) Na sua opinião, como podem se conduzir pessoas que tenham, vivendo em um mundo secularizado e globalizado?

Grün — A globalização é hoje uma realidade, mas seu desafio decisivo é se deixamos que nela se instaure a lei do mais forte, tornando-a uma desgraça para o mundo todo; ou se nós conseguimos humanizar a globalização, dinamizando nela os valores sociais e a justiça. Assim, ela pode tornar-se um fator de paz.

Eu acredito que a Teologia da Libertação, que justamente aqui no Brasil deu uma contribuição muito importante e valiosa, será indispensável para o futuro, pois sabemos que, se a globalização não trouxer no seu bojo a justiça social, este mundo vai se destruindo cada vez mais.

A Teologia da Libertação é para mim um caminho bem concreto da encarnação da fé cristã e uma forma de se levar o mundo a sério. Hoje há formas de espiritualidade que são mais uma regressão narcisista na qual a única coisa importante é eu me sentir bem, eu me recolher no meu canto ou me extravasar em sentimentos e emoções eufóricos, deixando que o mundo se vire sozinho. Isso não é uma espiritualidade cristã. Jesus entrou no mundo, e a Igreja tem também uma missão profética de denunciar tendências negativas na sociedade, e uma missão de mostrar caminhos sobre como viver neste mundo na justiça e na paz. “Quem semeia a justiça, colherá a paz”, diz a Bíblia.

Sem uma justa distribuição dos bens não haverá paz, e por isso é para mim muito importante que a espiritualidade do futuro ligue muito bem os dois pólos da mística e da política, isto é, o engajamento neste mundo, mas também o lugar da contemplação e do silêncio, no qual as pessoas tenham onde se refugiar.

Entrevista completa em:
http://www.ideiaseletras.com.br/default2.asp?pg=sys/layouts/content…

Sinapse Virtual / Ver também:

[DemocraciaEconômica] Construíndo 2010, 2011, 2012 ..

http://escoladeredes.ning.com/group/redesnapoltica/forum/topics/dem…

Ócio Criativo – 11 anos, muita conversa e poucas realizações ?

Car@s.

Passados mais de Onze Anos de meu primeiro contato com as idéias de Domenico De Masi, tenho a impressão que pouco avançamos em relação a reestruturação de nossas Ações, Corações e Mentes. Como diz uma canção popular: “As lições sabemos de cor, só nos resta aprender”.

Revisando as duas entrevistas em anexo, para corrigir alguns problemas de pontuação, fiquei impressionado com a atualidade e pertinência das colocações feitas Onze Anos Atrás.

Talvez neste momento, onde estamos vivendo mais uma Grande Crise Financeira Internacional, onde ficaram evidentes as Ilusões, Limitações e Potenciais Danos da Globalização Parcial, basicamente financeira, cujas denúncias prévias foram desqualificadas pelos canais dominantes de informações de nossas sociedades, em um mecanismo de propaganda de um Pensamento Único, que negava todo valor da Diversidade Humana, possamos compreender a riqueza das idéias e oportunidades presentes no Projeto de Sociedade do Ócio Criativo.

Com esta esperança, desejo-lhes boa leitura e, principalmente, uma rica reflexão, quem sabe até, um profundo diálogo com outras pessoas em suas Redes Sociais, com base neste resumo de importantes idéias (as entrevistas em anexo) buscando a alteração de nosso Nível de Consciência, mudando nossos Corações e Mentes, para que possamos Pensar, Sentir e Agir no REALinteresse Individual e Global

Anexos

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Sebastião Salgado fala de “Genesis”, projeto que o levou a 30 países em 8 anos


FONTE ZERO HORA

http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/segundo-caderno/noticia/2014/02/sebastiao-salgado-fala-de-genesis-projeto-que-o-levou-a-30-paises-em-oito-anos-4419763.html

Sebastião Salgado fala de “Genesis”, projeto que o levou a 30 países em oito anos

Fotógrafo brasileiro radicado em Paris trará a Porto Alegre exposição em que documentou regiões remotas e povos isolados. Em entrevista, fala sobre o projeto e revê episódios da carreira

Sebastião Salgado fala de "Genesis", projeto que o levou a 30 países em oito anos Sebastião Salgado/Divulgação
Foto de uma das aldeias dos Zo’é, na Amazônia, imagem do projeto “Genesis”Foto: Sebastião Salgado / Divulgação

A fotografia de Sebastião Salgado impacta não apenas pela expressividade do preto e branco com a qual forjou uma estética pessoal, impressiona também pela escala monumental. Seus projetos são resultado de anos de viagens e expedições, como mostra o mais recente ensaio-reportagem, Genesis, cuja exposição reunindo mais de 200 imagens estreou em 2013 e será apresentada a partir de 13 de março, na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, pelo 7º FestFotoPOA.

Se as cenas de miséria e desigualdade ao redor do mundo fizeram a fama de Salgado, agora ele mostra regiões que permanecem praticamente intocadas. Genesis é resultado de um trabalho realizado entre 2004 e 2012 em mais de 30 países nos quais o fotógrafo esteve em lugares remotos para captar paisagens raras e povos isolados. Na entrevista a seguir, concedida desde seu escritório em Paris, ele conta um pouco do que encontrou pelo caminho, revê episódios de sua trajetória e, aos 70 anos, afirma:

– Não fotografo para convencer ninguém.

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Zero Hora – Genesis é resultado de expedições realizadas ao longo de oito anos, por mais de 30 países. O ensaio-reportagem percorre regiões do planeta de difícil acesso. Houve viagens que exigiram longas caminhadas? 

 

 

Sebastião Salgado – Fiz muitas viagens assim. Tive que andar muito, acampando o tempo todo. Fisicamente foi muito duro. No norte da Etiópia, por exemplo, saímos de uma cidade chamada Lalibela com destino ao Parque Nacional de Simien. Em linha reta, são 850 quilômetros. Fizemos esse caminho a pé pelas montanhas, porque não tem estradas. No trajeto, passamos três vezes dos 4 mil metros de altitude. Essa viagem foi excepcional. Primeiro, porque eu já tinha 64 a 65 anos, e conseguir fazer um trajeto desses nesta idade é um desafio. Segundo, porque eu descobri coisas que nenhuma das pessoas que foram comigo sabiam.

ZH – Que tipo de coisas?

Salgado – Organizamos uma expedição. Tinha 15 pessoas comigo e 18 jumentinhos que levavam nossa carga pelas montanhas altíssimas da Etiópia. Digo que fiz uma viagem ao Velho Testamento, pois encontramos comunidades cristãs e judias que ainda vivem nessas montanhas sem conhecer nada da nossa civilização atual. Mas são muito desenvolvidas. Fabricam tecido, têm uma agricultura sofisticada, produzem instrumentos metálicos e trabalham como nós trabalhávamos 2 ou 3 mil anos atrás. Foi uma viagem fabulosa por estarmos naquela região, no meio daqueles povos.

ZH – Genesis também envolveu viagens pelo Brasil, especialmente em comunidades indígenas, algo que já era de seu interesse antes deste trabalho. Desta vez, houve contato com povos e aldeias que você ainda não havia fotografado?

Salgado – Foram as tribos dos Zo’é na Amazônia. Me desloquei para uma região a uns 300 quilômetros em linha reta ao norte de Santarém, no Pará. Eles são isolados e fazem parte do grupo linguístico tupi-guarani, o que nos faz saber que são originários da costa brasileira. Foram andando para o meio da selva em um movimento que, calcula-se, levou uns 3 mil anos até chegarem onde estão hoje. Eles têm uma cultura riquíssima, e os homens e as mulheres são muito lindos. E têm uma ótima saúde. Antes da viagem, ainda em Paris, fiz uma bateria de exames médicos exigidos pela Funai para que eu acessasse os territórios deles. E, quando cheguei a Santarém, ainda tive que passar por consulta com o médico da Funai. Aí, perguntei se eu tinha que levar algum tipo de medicamento para colocar na água para beber. O médico disse que não precisava, porque os Zo’é têm uma saúde fabulosa, tudo o que bebem e comem é de perfeita qualidade.

ZH – Os Zo’é foram, de algum modo, atingidos pela cultura do homem branco?

Salgado – Quando eu estive lá, os Zo’é ainda habitavam o paraíso, não tinham cometido o pecado original, depois cometeram. Um dia, a Funai percebeu que todos na tribo tinham ido embora. Fizeram uns 300 quilômetros entre rios e mata e chegaram a uma cidadezinha do Pará para conhecer os brancos. E depois voltaram.

ZH – E adotaram algum tipo de objeto ou hábito que não pertencia à cultura deles?

Salgado – Eles vivem ainda na idade da pedra, mas hoje mudou, alguns têm sandália de dedo, por exemplo. Quando fui lá, eles só tinham quatro instrumentos da nossa civilização: um facão, uma faquinha, uma lanterna, e as mulheres tinham um espelho. Isso porque eles foram contatados por um grupo religioso (o fato ocorreu nos anos 1980). Quando a Funai descobriu que eles estavam começando a ser catequizados, foi até lá com a Polícia Federal e retirou todos os religiosos com tudo o que tinham. Mas as autoridades não conseguiram tirar justamente o facão, a faca e o espelho. A lanterna foi a própria Funai quem forneceu. Lá, há muita jararacuçu, uma cobra grande, com carga de veneno muito grande. Os Zo’é são caçadores noturnos e, com a luz da lanterna, passaram a ver os olhos das cobras. Com isso, o índice de acidentes diminuiu, e se concluiu que a lanterna ajudava.

ZH – E o espelho?

Salgado – Não conseguiram tirar o espelho porque as mulheres adoram se olhar. Elas raspam o cabelo na frente e usam uma espécie de cocar feito com penas de urubu-rei. Fica muito bonito. Passei um tempão com eles, a Funai me autorizou a ir nas oito aldeias. Fui a primeira pessoa que viajou com os Zo’é e forneci para a Funai todas as referências de GPS de localização das aldeias. Eu viajava em grupo com eles, de aldeia em aldeia, passando uma semana ou 10 dias em cada uma. E aconteciam coisas assim: algo como a 500 metros de chegar na próxima aldeia, parava todo mundo para que as mulheres tirassem o espelho e se arrumassem, verem se estavam com o cocar, se estavam bonitas. Uma coisa sensacional isso.

ZH – E como se dava a comunicação?

Salgado – Viajava com a gente a Ana Suelly Arruda, uma linguista da Universidade de Brasília que conhece a língua deles. Ela foi para ser tradutora e elemento de ligação. A Ana aproveitava a viagem para acessar elementos da cultura, pois está transformando a língua deles em linguagem escrita para protegê-la. Os Zo’é já são muito poucos, cerca de 270. Há o receio de que a língua deles desapareça. Lélia e Juliano (mulher e filho de Salgado) também viajaram junto.

ZH – Ao longo das viagens de Genesis houve momentos em que o senhor encontrou cenas de devastação ou da ação do homem?

Salgado – Encontrei destruição tanto na Amazônia quanto em outros lugares. Porém, esse não era o objetivo do meu trabalho. Eu estava atrás do planeta puro, o que tinha de mais protegido. E, uma vez ali dentro, estava no paraíso. Na Zâmbia, encontrei elefantes que atacavam, mas porque são caçados. É preciso tomar cuidado, eles veem carro e chegam pra arrebentar. Mas fazem isso porque se sentem ameaçados. Fui atacado duas vezes por elefantes, mas era muito mais uma defesa que um ataque.

ZH – O seu emblemático ensaio Êxodos, sobre povos levados a se deslocar em função de fome e guerras, flagra um tanto da miséria humana que acomete o planeta. Uma de suas séries mais impactantes foi realizada em Ruanda, em 1994. Como foi testemunhar a ferocidade do genocídio e o desespero da fuga?

Salgado – Quando fiz o Êxodos, tive uma convivência com coisas bárbaras, principalmente em Ruanda e na ex-Iugoslávia. Em Ruanda, vivi momentos terríveis, vi os efeitos do genocídio, fotografei cenas bárbaras de milhares de pessoas assassinadas. Tenho fotos de campos de refugiados onde, por dia, morriam de 12 mil a 15 mil pessoas. Eram montanhas de mortos. Vinha um trator recolhendo os corpos e jogando tudo em valas. Para trás, ficavam braços, cabeças, pés… Presenciar essas coisas foi muito duro, a ponto de, em certo momento, eu querer parar tudo. Minha cabeça ficou ruim, meu corpo começou a adoecer e tive que parar. E isso tem a ver com a origem do projeto Genesis.

ZH – O senhor fala da mudança temática em sua fotografia? De, em lugar da fome e da pobreza, passar a fotografar paisagens intocadas e regiões remotas?

Salgado – Exato, porque, até então, eu havia me dedicado ao homem. E Genesis surgiu do meu interesse pelos lugares remotos. Quando dei um tempo, depois do Êxodos, eu e Lélia nos voltamos para uma porção de terra que recebemos dos meus pais no interior de Minas, em Aimorés, onde nasci. Mas o lugar estava muito diferente da época da minha infância (ele se refere à fauna e à flora). A Lélia teve a ideia de replantar a floresta que tinha lá antes. E, com isso, criamos uma instituição ambiental no Vale do Rio Doce. Com o retorno da floresta, da vida, da água, dos insetos, dos pássaros, dos mamíferos, veio a vontade de voltar a fotografar.

Trabalhadores do Kuwait em 1991 para o ensaio Trabalhadores
Foto: Sebastião Salgado/Divulgação

ZH – A instituição a que se refere, o Instituto Terra, é hoje reconhecida pelo trabalho ambiental desenvolvido no Vale do Rio Doce. Esse envolvimento fez do senhor um ativista?

Salgado – Ativista eu acho um negócio meio redutor, as pessoas começam a te ver de outra maneira, sei lá. Temos, sim, um projeto ambiental no Vale do Rio Doce, envolvendo os governos dos dois Estados (Minas Gerais e Espírito Santo) e os produtores rurais. Ou seja, não estamos de um lado ou de outro. Precisamos trabalhar assim para recuperarmos as fontes de água da região do Rio Doce, que deve ter em torno de 170 mil propriedades rurais. Estamos num processo de recuperação de todas as fontes do Rio Doce. É um processo que vai levar mais uns 25 anos, mas já começamos, estabelecendo uma relação forte com o BNDES e várias empresas. Juntamos as forças todas nesse projeto, que é caro e vai levar muito tempo. Mas que salvará um rio que é um dos maiores do centro-sul do Brasil. Aliás, é o maior que nasce e morre no centro-sul. A presidente do Instituto Terra é a Lélia, que tem uma capacidade de organização muito grande. Temos um conselho diretor fantástico, formado por pessoas que conhecem a problemática do Brasil e a vivem de dentro, e ainda empregamos quase 200 pessoas e oferecemos centro de formação de técnicas ambientais. É uma das maiores instituições ambientais do Brasil.

ZH – É verdade que foi Lélia, sua mulher, quem lhe deu a primeira câmera?

Salgado – Ela não me deu, ela comprou uma câmera para fazer fotografia de arquitetura. E eu, pela primeira vez na vida, utilizei uma. A partir daí, monopolizei a câmera e virei fotógrafo. A Lélia é muito importante na minha fotografia. É ela que desenha os livros, que coordena nosso grupo em Paris. Minha vida e a dela não têm separação, já estamos há 50 anos juntos. Acho que já conta, é um tempinho, né? A exposição aí no Gasômetro tem curadoria dela.

ZH – Ao lado do cineasta alemão Wim Wenders, seu filho Juliano está fazendo um filme sobre o senhor. Já assistiu?

Salgado – Os dois estão juntos no filme, que já está pronto. Eles estão na fase de finalização, deve sair no primeiro semestre, só não sei quando. Eles estão na Alemanha, onde o Juliano trabalha com o Wim. Os dois estiveram em algumas viagens comigo, o Wim esteve muito no Brasil, no Instituto Terra, e muito em Paris. Sobre o filme, ainda não sei, não vi. Só sei o nome: O Sal da Terra.

ZH – Êxodos Genesis, nomes de dois de seus principais ensaios, são palavras que expressam significados bíblicos. O senhor acredita em Deus?

Salgado – Acredito porra nenhuma, eu não acredito em nada. Não acredito em Deus, não tenho religião. Usei esses nomes assim como a Bíblia os usou. A Bíblia não criou estes termos, pegou emprestado. Eu também. São palavras que expressam exatamente o que fui fazer. Não é o fato de a Bíblia ter usado Êxodo Genesis para catequizar momentos fortes da história religiosa que dá a ela o monopólio das palavras.

ZH – Genesis marca sua adesão à tecnologia digital. Como se deu a transição do filme analógico?

Salgado – Trabalhei minha vida toda com filme. Mas, depois dos atentados de 11 de setembro, a segurança mudou muito nos aeroportos, foram aumentando os raios X até um ponto que, em 2008, eu não podia mais usar filme. Em uma viagem, eu passei por sete aeroportos, alguns com dois controles de raios X. Na maioria dos casos, passando uma vez, não incomoda muito o filme. Mas, passando três a quatro vezes, aí modifica a estrutura do grão do filme, as gamas de cinza. Então, começou a prejudicar muito o trabalho. Eu não aguentava mais, era uma tensão. O filme que usei para o Genesis era de médio formato, um tipo de filme largo e comprido, chamado 220, e que não tem invólucro metálico de proteção como o de 35mm. Então, era um filme muito mais exposto. Aí, chegou a hora de tomar uma decisão: ou eu resolvia esse problema ou abandonava o Genesis pela metade.

ZH – Houve algum impacto nos procedimentos técnicos, na linguagem ou na estética?

Salgado – Quando descobri o digital, por um amigo meu, Philippe Bachelier, fotógrafo francês, comecei a fazer testes e vi que a qualidade era excelente. Levei dois anos para produzir um negativo de altíssima qualidade. Hoje, tenho um negativo melhor do que o negativo que eu produzia diretamente fotografando com a câmera. O meu processo digital ainda é finalizado com filme. Estou satisfeitíssimo com o digital, me simplificou a vida, não tenho problema de raios X e pronto.

ZH – Com a popularização dos meios fotográficos, a imagem adquiriu maior presença na vida contemporânea. Qual é o lugar da fotografia hoje? E o status do objeto artístico?

Salgado – A fotografia mudou muito, mas o objeto artístico, de alta qualidade, continua do mesmo jeito. A grande revolução do digital foi a destruição da fotografia de papel. Antigamente, a gente saía de férias com uma maquineta, na volta o fotógrafo do bairro copiava o filme, você colocava as fotos num álbum, chegava alguém na sua casa e você mostrava. Na festa de aniversário, todo mundo tirava foto. Passados uns anos, você olhava outra vez aquelas fotos e via seus meninos já rapazinhos. Era realmente a sua história, a sua memória. Hoje, com esse negócio de fotografar tudo com o telefone, as pessoas fotografam muito e não copiam para papel, não guardam. Acabam trocando de fone, perdendo as imagens. Hoje você não vive com a imagem, mas com a tomada dela, a emoção da hora, e não se volta muito a ela depois. Daqui a pouco, você tem milhares de fotos, e aquilo não te interessa mais. E fica por isso mesmo. Resultado: aquela memória fabulosa que a gente tinha com a fotografia acabou.

ZH – E o fotojornalismo, vertente à qual o senhor se filiou desde o início?

Salgado – Permanece muito forte, inclusive no Brasil. Temos muitos jornais ainda, com um staff de fotógrafos excelentes, todos fotojornalistas. Esses caras escrevem a história do Brasil em imagens. É pena que a gente não coordene tudo isso para mostrar e apresentar. Mas o fotojornalismo, pegando só o exemplo do Brasil, existe e segue de forma forte.

ZH – O senhor já disse que não busca mudar o mundo com a fotografia, mas expressar ideias e representar pensamentos.

Salgado – Fotografia é minha forma de vida, o que eu penso, meu aparato de ideias, minha ideologia inclusa. Não faço para convencer ninguém, faço pelo que tenho prazer, pelo que me revolta, pelo desejo de ir a algum lugar, pela grande curiosidade. Tudo isso junto deu na minha fotografia. Não fotografo para mudar a ideia de ninguém. Se as pessoas tomaram minha fotografia como exemplo, referência que as influenciou o que posso fazer, entende? Mas não fiz nem faço nesse sentido, de fotografia como militância ou para mudar a cabeça das pessoas.

ZH – Falando em militância, o senhor e sua mulher se engajaram contra a ditadura. É verdade que colaboraram com o guerrilheiro Carlos Marighella (1911 – 1969)?

Salgado – Não o conheci, mas participei de um grupo próximo a ele. Eu era jovem militante e jovem economista. Trabalhava numa empresa de programação econômica que era uma base do pessoal do Marighella. Colaborei e trabalhei para o grupo. E tive uma experiência indireta com Marighella. Como fotógrafo, eu estava trabalhando no norte da Etiópia, em 1983, acompanhando um grupo de guerrilha, o Tigrayan People’s Liberation Front, o TPLF, que hoje está no poder. Eles me levaram para fotografar a fome, era uma época muito dura lá. Um dia, vejo um deles lendo um livro. Era o manual de guerrilha do Marighella (Minimanual do Guerrilheiro Urbano, escrito em 1969 por Marighella). Eu fiquei pensando: Marighella? O livro estava todo escrito em aramaico, que é a língua de Cristo e a oficial da Etiópia. Aí comecei a conversar com os caras, contei que era do Brasil, que conheci pessoas próximas ao Marighella. Bom, a relação com eles mudou, eu virei um amigo e me ajudaram no meu trabalho. Tenho enorme respeito pelo Marighella, mas nunca o conheci.

ZH – Nas viagens que realiza desde os anos 1970, em algum momento foi acometido por alguma doença grave?

Salgado – Peguei malária, fui atacado por um vírus que paralisou metade do rosto, mas sempre pude continuar trabalhando. Meu assistente esteve três vezes bem doente em viagem. Uma no Brasil, no Xingu, quando teve uma infecção muito séria nos olhos. Outra vez foi na Ilha de Sumatra, de onde ele saiu bem doente e passou dois meses no hospital. Mas lá na Papua Oeste passamos a pior situação. Ele foi picado por uma vespa, imensa e muito venenosa. Meia hora depois, já estava delirando. Três dias depois, começou a gangrenar, ficamos com um medo imenso de ele perder a perna. Tivemos que tirá-lo da mata, conseguimos um pequeno avião para levá-lo até um aeroporto maior. Passou daí por Bali, Singapura e Paris. Ficou uns seis meses no hospital e quase perdeu a perna realmente. Já eu sempre tive sorte, porque estive com ele nos mesmos lugares. Acredito que tenho muito mais anticorpos, pois venho de um país tropical, cresci num mundo onde as bactérias são em número muito maior. Então, trago dentro de mim uma defesa que as pessoas nascidas nas áreas temperadas do planeta, como os franceses, europeus de modo geral e alguns asiáticos, não têm.

ZH – O senhor vive no Exterior. Como vê a imagem internacional do Brasil, especialmente pós-manifestações e pré-Copa?

Salgado – A imagem do Brasil fora é muito melhor do que dentro. Os brasileiros ainda não desenvolveram a autoestima pelo país e não acreditam muito no Brasil. Adoram falar mal de tudo, do transporte, da infraestrutura, da educação, do salário, dos políticos, de tudo. E não acreditam. Aqui fora, é (visto como) um dos grandes países do mundo, o que é verdade. O Brasil é uma das maiores economias do mundo, nosso produto interno bruto hoje, o oficial, é superior ao da Inglaterra, tá encostando no da França. Se você somar toda a economia paralela, que não é tomada em conta nas estatísticas, possivelmente a economia do Brasil seja superior à da Alemanha. Além disso, o Brasil tem uma grande população, é um país com uma verdadeira cultura.

ZH – Quando seu trabalho começou a ganhar dimensão, a partir dos anos 1980, surgiram críticas apontando sua fotografia como exploração da miséria e da fome alheias. Esse tipo de comentário ainda permanece?

Salgado – Esse é o discurso do crítico de arte, de pessoas que não estiveram lá, que não tiveram a mesma razão de ir que eu tive. Faço um trabalho estético, como qualquer fotógrafo. Trabalhamos com a luz em determinado espaço. Nossa linguagem é formal, trabalhamos uma forma. Você transforma em forma o que viu. Então, a linguagem formal é estética. Qualquer um faz isso. O fato de eu ter me transformando em um fotógrafo conhecido cria uma contrapartida, um movimento de anulação, de ataque. É uma dialética não só minha, mas de caras como Chico (Buarque), Caetano (Veloso) e qualquer um que começa a ser referenciado. Aconteceu comigo, mas não é um problema meu, e sim de quem entende dessa maneira. Continuo fazendo minhas fotografias do mesmo jeito. É minha vida, minha maneira de viver. E pronto.

Exposição “Genesis”
> Com presença do fotógrafo, a exposição com mais de 200 fotografias será aberta em 13 de março, às 19h, na Usina do Gasômetro, dentro da programação do 7º FestFotoPOA. Visitação gratuita até 12 de maio.
> Sebastião Salgado fará palestra em 14 de março, às 10h, no Salão de Atos da UFRGS, em evento considerado Aula Magna dos 80 anos da UFRGS.

Genesis
De Sebastião Salgado
Taschen/Editora Paisagem. Fotografia, 520 páginas, R$ 150 (em média)
> O livro apresenta o ensaio-reportagem Genesis, resultado de oito anos de viagem por mais de 30 países. Sebastião Salgado percorreu lugares de difícil acesso, procurando regiões e povos isolados. A edição é organizada geograficamente em cinco capítulos: Planeta do Sul, Santuários, África, Espaços do Norte, Amazônia e Pantanal.

Da Minha Terra à Terra
De Sebastião Salgado, com Isabelle Francq
Companhia das Letras. Tradução de Julia da Rosa Simões. Biografia, 160 páginas, R$ 24,90 (livro) e R$ 16,90 (e-book)
> Em depoimento à jornalista francesa Isabelle Francq, o fotógrafo Sebastião Salgado narra episódios da sua infância em Aimorés, Minas Gerais, da breve carreira como economista e do exílio na França. Também reconta o início de sua trajetória como fotógrafo nos anos 1970, o trabalho em grandes agências de fotografia, as principais coberturas e os projetos autorais, dos quais Genesis é o mais recente.

Refugiados de Ruanda em campo da Tanzânia em 1994. Imagem do ensaio Êxodos
Foto: Sebastião Salgado/Divulgação
O fotógrafo Sebastião Salgado, 70 anos, que apresenta em março, em Porto Alegre, a exposição Genesis
Foto: Tomas Arthuzzi/Divulgação
Criança de família de sem-terra na Bahia, em 1996, para a série Retratos
Foto: Sebastião Salgado/Divulgação
Fotografia de 1984 na Etiópia para o ensaio Sahel
Foto: Sebastião Salgado/Divulgação
Oração no México. Fotografia de 1980 do ensaio América Latina
Foto: Sebastião Salgado/Divulgação

França revê Marques de Sade dois séculos após sua morte


França revê Marquês de Sade dois séculos após sua morte

Atualizado em  22 de março, 2014 – 07:46 (Brasília) 10:46 GMT
Marquês de Sade, em gravura do século 19 de artista desconhecido

Autor de obras ‘pornográficas’, Marquês foi preso inúmeras vezes e morreu em asilo de loucos

As comemorações na França do bicentenário da morte do escritor francês Marquês de Sade, neste ano, são marcadas pela reabilitação desse polêmico autor do século 18, que foi censurado no país até 1957 por motivo de “ultraje à moralidade pública e à religião”.

O marquês Donatien Alphonse François de Sade, nascido em 1740, em Paris, foi preso inúmeras vezes acusado de agressões sexuais e imoralidade e faleceu em dezembro de 1814 em um asilo de loucos, onde passou os últimos 13 anos de sua vida.

Seus textos foram rejeitados em razão do forte erotismo associado a atos de violência e crueldade, com torturas, estupros, assassinatos e incestos.

O nome Sade se tornou famoso em todas as línguas, dando origem à palavra sadismo, que faz referência às cenas de crueldade e de torturas descritas em seus livros.

Os Cento e Vinte Dias de Sodoma é a sua obra mais famosa, escrita na prisão da Bastilha em 1785, pouco antes da Revolução Francesa.

Para impedir que a obra fosse apreendida, Sade recopiou o texto com uma letra minúscula e colou as folhas para formar um fino rolo de papel, que tinha 12 metros de comprimento.

O texto só foi encontrada em 1904 e qualificado pelos opositores como “um longo catálogo de perversões”. A obra inspirou o filme “Saló ou os 120 dias de Sodoma”, do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini.

Clandestinidade

No século 19, seus textos circulavam clandestinamente, “por baixo dos casacos”, diz o historiador Gonzague Saint Bris, autor da biografia Marquês de Sade – O Anjo das Sombras (em tradução livre), publicada recentemente para celebrar o bicentenário da morte de Sade.

“Victor Hugo, Gustave Flaubert, Honoré de Balzac, que se inspirou em Sade para escrever A Menina dos Olhos de Ouro, todos liam Sade”, afirma Saint Bris.

Foi somente em meados do século 20, em 1957, que uma editor francês, Jean-Jacques Pauvert, tirou Sade da clandestinidade ao publicar, apesar da censura ainda vigente, suas obras com o nome oficial da editora.

Pauvert foi processado, mas conseguiu obter, em um recurso na Justiça, o direito de publicar as obras do marquês.

A verdadeira consagração de Sade na França só ocorreu quase dois séculos depois de seus escritos, com a publicação, em 1990, de suas obras completas pela prestigiosa Pléiade, a mais renomada coleção de livros da França, da editora Gallimard.

A Pléiade inclui em seu catálogo grandes nomes da literatura mundial, como Marcel Proust, Antoine de Saint-Exupéry, Albert Camus e Leon Tolstoi.

Comemorações

Por ocasião do bicentenário, a Pléiade irá publicar cartas escritas por Sade à sua mulher. Outros livros que falam sobre sua personalidade e sua vida repleta de escândalos também estão sendo lançados, como duas obras do escritor Jacques Ravenne, Cartas de uma vida e As sete vidas do marquês (em tradução literal).

“Eu quis reabilitar Sade. Ele deu liberdade à literatura. Dois séculos após Os 120 dias de Sodoma, ninguém foi tão longe. Estudei biografias, arquivos e coleções privadas. Ele era o sol negro do século das luzes”, afirma Ravenne, que também é pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França.

Em novembro, o Museu d’Orsay, em Paris, fará uma exposição em homenagem a Sade, que mostrará sua influência na literatura e no mundo das artes.

Outros eventos estão previstos no país, como um festival no castelo de Lacoste, no sul da França, que pertenceu ao marquês e foi adquirido pelo costureiro Pierre Cardin.

Hoje só existem as ruínas do castelo, situado em uma antiga pedreira.

Bastilha

“Sade estava à frente do seu tempo”, diz o historiador Saint Bris. Suas obras eram repletas de perversidade e violência, mas Sade, na avaliação do autor, “era um humanista”.

“Sade defendia a abolição da pena de morte”, diz Saint Bris.

Foi justamente por gritar através das grades de sua cela na Bastilha às pessoas que passavam na rua que prisioneiros estavam sendo degolados no local que Sade foi transferido, às pressas, para um asilo de doentes mentais pela primeira vez.

Ele foi solto em 1790, após a Revolução, mas foi novamente internado em um hospício sem julgamento, em 1801, na época de Napoleão I, e nunca mais foi liberado.

O marquês foi preso sob todos os regimes políticos da época em que viveu (monarquia, república, consulado – na época de Napoleão Bonaparte – e império). No total, ele ficou detido 27 de seus 74 anos.

Darwinismo social, racismo e dominação


Darwinismo social, racismo e dominação – Uma visão geral

Por: RODRIGO SANTOS

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Os negros têm pele escura porque sua região de origem, a África, recebe intensas radiações ultravioleta. Como o excesso de sol é nocivo à saúde, a pele escura protege o organismo e mantém o nível de ácido fólico (vitamina do complexo B) no corpo, garantindo, assim, a descendência sadia, pois a deficiência de folato em mulheres grávidas pode causar graves defeitos no feto. Ao migrarem para ambiente onde o sol é mais fraco, como a Europa, os seres humanos passaram a nascer com uma pigmentação mais clara, enquanto recurso de sobrevivência para melhor recepcionar e armazenar a escassez dos raios solares, essenciais para a formação das vitaminas A e D, evitando, entre outros problemas, que as pessoas fiquem raquíticas e anêmicas, pois é a vitamina D que responde pelo sistema imunológico e pelo desenvolvimento dos ossos. O naturalista Charles Darwin resume a adaptação do homem à natureza, convencido de que a evolução é uma série de erros bem-sucedidos.

Robert Charles Darwin (1809-1882), cientista inglês que revolucionou o pensamento da Biologia do século XIX com a Teoria da Seleção Natural, chamada de Evolução das Espécies, em seu livro A origem das espécies por meio da seleção natural (1859), demonstra que os organismos vivos tendem a produzir descendentes ligeiramente diferentes dos pais, com o processo de seleção natural favorecendo aqueles que melhor se adaptam ao ambiente. Alguns seres têm propriedades que os tornam mais aptos para sobreviverem, evoluindo e transmitindo as características aos seus descendentes. Darwin concluiu que as criaturas da fauna e da flora que não se adaptam ao meio em que vivem estão fadadas ao desaparecimento.

Verifique que essa teoria se refere ao universo da vida biológica em nosso planeta e, em nenhum momento, o cientista se arrisca em interpretações sociológicas do ambiente humano, até porque, como médico e naturalista, esse não era seu objeto de trabalho. Quando instigado a fazer qualquer comparação entre sua teoria e o meio social, Darwin exclamava com indisfarçável inquietação: “se a miséria de nossos pobres não é causada pelas leis da natureza, mas por nossas instituições, grande é a nossa culpa!”.

Todavia, difundira-se no século XIX e XX interpretações que utilizavam a Teoria da Seleção Natural como instrumento de análise do meio social. Ideologias racistas e preconceituosas estas que visavam explicar e legitimar, de maneira determinista e reducionista, a desigualdade em um sistema capitalista que alega ter a igualdade como sua palavra-de-ordem.

As ideias difundidas pelo Darwinismo social acreditam que as sociedades evoluem naturalmente de um estágio inferior para os estágios superiores e mais complexos de organização social. Assim, povos ditos civilizados (os europeus) têm o dever de ocupar, dominar e explorar as culturas “mais atrasadas”, a fim de levar-lhes desenvolvimento, progresso, avanços tecnológicos e permitir-lhes que alcancem os estágios superiores de civilização.

Desafortunadamente, no Brasil do século passado, não faltaram aqueles que deturparam o conceito evolucionista consagrado por Darwin, ora a serviço dos interesses dominantes, ou de nações estrangeiras, ora de grupos racista ou em defesa de suas convicções pessoais ou interesses financeiros.

Com o objetivo de descobrir se o brasileiro é racista e que tipo de racismo seria esse, o Instituto Datafolha, depois de rigoroso levantamento em todas as regiões do País, publicou o livro Racismo cordial (1995), concluindo que o brasileiro é racista, sim, só que esse racismo é “cordial”. A cordialidade está representada no abismo existente entre os que consideram haver racismo (89% dos brasileiros) e os que admitem se, eles próprios, racistas (10%).

A prova maior de nossa discriminação está na necessidade de fazer constar na Constituição a classificação de racismo como crime. Diz o artigo 5º, inciso XLII:

A prática de racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei.

São atos racistas as ações discriminatórias (como não permitir que um negro entre em uma loja, proibir que um indígena se hospede em um hotel, impedir que um branco frequente um clube social). Crime inafiançável é aquele para o qual é vedado o pagamento de fiança (em dinheiro), não podendo, consequentemente, o autor do crime responder por ele em liberdade; é imprescritível quando a sentença judicial nunca perde a validade, devendo ser cumprida a qualquer tempo; e a pena de reclusão determina que o criminoso fique preso numa penitenciária, em regime fechado.

[Texto retirado da terceira edição do livro Fundamentos de Sociologia, dos autores Francisco Manoel R. de Queiroz e Marcos Barbosa Gonçalves, publicado no ano de 2009].

Não tenha medo de opiniões excêntricas, …


“Não tenha medo de opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas”

Russell é uma inspiração para o DCM

Em 1969, um ano antes de sua morte, o filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970), um dos guias intelectuais do DCM, criou 10 mandamentos que chamou de Um Decálogo Liberal.

Eis algo que todos deveríamos carregar na mente todos os dias, sempre, como você poderá facilmente comprovar.

1. Não tenha certeza absoluta de nada.

2. Não considere que valha a pena esconder evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.

3. Nunca tente desencorajar o pensamento alheio, pois com certeza você terá sucesso.

4. Quando encontrar oposição, mesmo que seja de seu cônjuge ou de suas crianças, se esforce para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.

5. Não tenha respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades com opiniões contrárias à que você acata.

6. Não use o poder para suprimir opiniões que considere perniciosas, pois se você agir assim as opiniões acabarão por suprimir você.

7. Não tenha medo de opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.

8.  Encontre mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se você valoriza a inteligência como deveria, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.

9. Seja escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se você tentar escondê-la.

10. Não tenha inveja da felicidade daqueles que vivem no paraíso dos tolos, pois apenas um tolo consideraria que aquilo é felicidade.

Se eu não puder te esquecer


 

Muito pessoal. Pois hoje fui fazer uma homenagem a duas pessoas. Eu e meu pai.A homenagem foi esta: indo assistir ao Moacyr Franco e Trio Irakitan no Clube Náutico, aqui em Fortaleza. O primeiro a se apresentar foi o Trio Irakitan, que, por menos que saibamos, tem mais de sessenta anos de estrada, para ser mais exato, sessenta e três. E Moacyr Franco tem, atualmente, setenta e seis anos.

Por que uma homenagem ao meu pai? Porque nós cantávamos Moacyr Franco, porque nós éramos românticos incuráveis e, parece que continuo sendo, embora alguns não concordem com esta auto-avaliação. Mas enfim… de repente estávamos em casa e o velho Israel aparecia em casa com o último LP do Moacyr. Ou nos domingos à noite, quando eu procurava o melhor abrigo do mundo, os braços do meu pai  e ficávamos escutando músicas e músicas e conversando e trocando ideias. E eu era um garoto, que só mais tarde saberia que também amava os Beatles e os Rolling Stones (pule a parte do Vietnã).

Hoje, claro que me emocionei, mas procurei um canto mais reservado, para sentir mais ainda meu pai junto a mim.

Quanto ao show, devo dizer que foi ótimo, especialmente para quem curtia Moacyr Franco. Era uma outra época e o cantor usou duas  imagens preciosas. Começou dizendo que estava ali para cantar músicas que “entram por aqui” e apontou o próprio coração e, continuando, “saem por aqui”, e apontou os olhos, como se lágrimas estivesse vertendo. Na verdade, apontava que estava ali para cantar músicas brasileiras que lidavam com os sentimentos e com suas contradições.

Mais tarde, contou outra história. “Quando disseram que minha carreira havia terminado”‘, disse, “fiquei muito triste”.  “Pois”, continuou, “uma noite estava cantando para quinze pessoas em um circo no ABC paulista, e chovia muito. Quando terminei o show”, falou, ” um homem negro e alto veio até a mim e perguntou se podia gravar uma música de minha autoria. Perguntei quem ele era, e ele respondeu, ‘que ele e um amigo formaram uma dupla caipira, e gostariam de cantar  Se eu não puder te esquecer”‘. Moacyr topou “e o homem saiu saltitando embaixo da chuva como se tivesse feito um gol. O ‘homem era Marciano, da dupla João Mineiro e Marciano, e a música vendeu mais de dois milhões dle discos”, conclui, para  a final, ajuntar que “aprendi que quanto mais escura a noite, mais próxima está a manhã”.

Moacyr Franco, aos setenta e seis, canta como uma banda excelente e sua voz é absolutamente perfeita. Amei conhecer de perto o trabalho de Moacyr, e sei que, além do belo espetáculo, que fez o público rir, dançar, se emocionar e cantar, ainda me trouxe talvez o que de mais precioso possa ter tido: a presença de meu pai.