08
Jul
09

You are the one

Jazz por Ciarly76

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=jazz

Noite, em alguma grande cidade, em uma megalópole, de preferência. Andar por uma rua desconhecida, entre muitas pessoas, vendo-lhes o rosto, as vestes. Andar errante, sem qualquer horário ou obrigação. A noite e os neóns dominam tudo, enquanto o mundo continua nas suas tentativas de compra e venda. Mulheres ali pelas esquinas, esperando o óbvio, homens que buscam não se sabe o que e, se eles mesmos souberem, poriam em primeiro lugar o esquecimento, a volúpia de serem cameleões, seres mimetizados. Caminhar é a grande rota que se vai construindo no espaço e no tempo.

De repente, os bares, os eternos bares para os quais as esquinas são apenas linhas geométricas que existem para que possamos referenciá-los. Entro em um deles, e a fumaça viciosa me atinge. Ao canto um trio de blues simplesmente canta: “night and day, you are the one…”. Sorrio. Finalmente estou em casa.  

07
Jul
09

Mapeamento e complexidades

Museo della scienza e tecnologia di Tokyo por nanotubo

Fonte:http://www.flickr.com/search/?q=tecnologia

MAPEAMENTO E COMPLEXIDADES

Vivemos em um mundo mapeado, definido, onde as tecnologias da informática, da comunicação e das mídias são onipresentes; um cenário posto em exatidão, no qual cada vez mais a não linearidade se impõe em razão da complexidade cada vez maior das sociedades. Por outro lado, contrariamente à precisão da reta se ressalta a importância da curva, aqui entendida como as claras possibilidades criativas que se alimentam de um feedback coletivo, das nossas experiências e conhecimentos, que se difundem em rede e que constituem um contraponto a um mundo que herdou do tecnicismo um padrão não apenas comportamental, mas definidor de um paradigma disjuntivo. A criatividade não prescinde das interações em rede, da tolerância às diferenças, do saber ouvir, do desenvolver a empatia e conviver com o outro, muitas vezes divergindo de opiniões e de visões de mundo.

Não há assepsia no ato criativo, que não se restringe às certezas da reta. Contrariamente, é do pensar oblíquo, das relações não formais, da ubiqüidade, do que escapa à rotina, que podemos estender nossas possibilidades além das relações profissionais e de suas idiossincrasias. Podemos, sem o jugo da obrigação explícita, exercer convívios e criar hipóteses, aprofundando enriquecimentos pessoais, culturais e solidários. Assim, as idéias criativas podem se evidenciar não apenas em cenários contratuais, mas, por igual, no âmbito de um espírito de ócio e de liberdade.

A reta, que é um produto humano e que não existe na natureza, tem seu sentido e trajeto absolutamente definidos, o homem dá-lhe o início e destino; a curva, diversamente, erra, vaga, percorre o que não é conhecido; em suma, se arrisca a. Deste modo, não é demais associarmos a reta à precisão e a curva ligada às probabilidades das relações cognitivas e sociais em rede.

O exemplo icônico do mecanicismo é encontrado no espírito descartiano e dentro da física clássica, que constituíram e construíram uma visão de mundo regida pela disjunção entre corpo e mente, espírito e matéria, objetividade e subjetividade, exatidão e probabilidade. Para sustentar tal visão de mundo, era necessário erigir a ciência a uma substituta em potencial do sentido de transcendência tão cultuado na religiosidade. Esvaiu-se, com a idade moderna, iniciada com a revolução francesa em 1789, o poder que a Igreja Católica exerceu durante todo o medievo. O homem, que antes vivia de acordo com um processo produtivo no qual dominava todos os passos e procedimentos, passou a conviver com a desonra de ter um patrão e, portanto, não poder mais determinar sua própria vida. A partir da venda de sua capacidade laboral, passou a conviver com sua própria dependência. A reação a tal estado de coisas foi o ludismo.

O início do processo industrial, especialmente, aliado ao desenvolvimento de um capitalismo predatório ressaltou ainda mais clara a dissociação pregada pela ideologia mecanicista e as necessidades e sonhos das classes burguesa e proletária, ainda em processo de emergência social. Embora a mensagem política e institucional fosse a da liberdade econômica e social, a realidade não era condizente com a mesma. Os novos operários, submetidos, passaram a conviver em um cenário que os oprimia e os alienava em relação ao trabalho. O processo produtivo lhes era cada vez mais desconhecido e sua influência sobre o mesmo era basicamente nula. Apenas a venda da sua capacidade de trabalho sustentava a si e a sua família.

O desenvolvimento das cidades, muitas vezes de modo descontrolado, as novas vias de acesso e a implantação da coletivização de serviços públicos agenciada pelo Estado, a destruição pura e simples de recursos naturais para alimentar o processo de produção, as novas tecnologias e a concentração de renda findaram por não solucionar qualquer dos graves problemas nos quais mergulhou a sociedade. A naturalização da miséria, as guerras artificialmente fabricadas e mantidas pelos Estados em atenção aos interesses comerciais, o consumismo alienante e alienado e as mudanças dos processos industriais em face do gerenciamento científico não solucionaram de modo significativo qualquer dos problemas emergentes que se relacionavam com uma melhor qualidade de vida, incluindo-se aí não apenas salários nominais, mas questões como seguro desemprego, políticas públicas de saúde, moradia e segurança.

Do ponto de vista estatal era necessário intervir para garantir minimamente melhores condições para as classes mais marginalizadas pelo capitalismo; a idéia de welfare state (estado de bem estar social) passou a preponderar em algumas economias de ponta. Contudo, a escola monetarista de Chicago foi decisiva na implementação do neo-liberalismo a partir do controle das economias emergentes através de organismos financeiros internacionais, como o Fundo Monetário Internacional e o Bando Mundial, fundados a partir da reunião de cúpula de Breton Woods, após o final da Segunda Guerra Mundial, e que passaram a gerenciar a economia mundial, sob o controle dos Estados Unidos.

Enquanto isso, as ciências exploravam de modo cada vez mais aprofundado os fenômenos naturais. Se às matemáticas coube papel importantíssimo em um mundo regido pela disjunção e pelo mecanicismo, igualmente restou às mesmas, junto com a física molecular e a biologia uma distinta visão de mundo, seja a partir das relações biológicas e eco-estruturais, seja a partir do desenvolvimento da física nuclear. Através do projeto genoma cada vez mais o homem buscou se assenhorar dos conhecimentos do código genético, enquanto as multinacionais voltadas para a agricultura e alimentos solidificavam processos de implantação de novas tecnologias. Os novos avanços em medicina empurraram a idade média do homem para além de setenta anos e a explosão do consumo alienante passou a ser a mola mestra da economia.

O desenvolvimento das ciências sociais e naturais, especialmente os trabalhos de Schrödinger, Manuel Castells, Einstein, Planck, Freud e o surgimento dos serviços enquanto novo agente econômico, fizeram com que cada vez mais surgisse a necessidade do trabalho em rede, no que a implantação da web e da informática tiveram um papel fundamental. A comunicação não apenas institucional entre mestres e estudantes se expandiu de modo exponencial e hoje a tecnologia da informação permite com que fatos sejam apreciados no mundo todo de modo quase que simultâneo, graças às tecnologias dos satélites. É claro que devemos ter em mente que as informações são geradas e editadas por grandes redes de televisão e de mídia que não são infensas às pressões do capital, dele dependendo através do dinheiro dos anunciantes. Por isso, não sejamos românticos. No entanto, mesmo que recebamos tais informações como plânctons, há um mar informativo no qual temos mesmo dificuldades de navegar. Cabe a nós mesmos e aos sistemas educacionais formativos, em grande parte, a tarefa de nos tornar cidadãos do mundo, o que é especialmente difícil dentro da complexidade da educação e dos processos de ensino-aprendizagem. Sermos conscientes de nosso papel no mundo não é tarefa fácil, especialmente em uma época na qual os valores morais (não moralistas, por favor…), a ética e a solidariedade foram alienadas pelos verbos ter e possuir ao invés dos verbos ser e conviver.

De todo modo, a consciência de que somos muito mais nossos sentidos e sentimentos do que razão já é um bom início a trilhar, assim como a inegável constatação de que vivemos em um mundo no qual o estabelecimento de redes de solidariedade e de conhecimento são muito mais possíveis do que eram há cerca de cinqüenta anos atrás. Cada vez mais existem organizações no mundo todo preocupadas com a vida neste nosso planeta, e as manifestações a respeito das interações entre os humanos e seu habitat são cada vez mais intensas. Talvez tenhamos matado já muitas possibilidades, mas muitas ainda restam a ser cultivadas. O tratamento que se dá às questões cruciais, como, por exemplo, as de qualidade de educação, da permanência das guerras e do aquecimento global não podem ser deixadas simplesmente no âmbito do poder político e econômico: já sabemos onde nos levaram.

É cada vez mais necessário que expandamos os conhecimentos e nos relacionemos de modo que as sociedades civis organizadas, as ONGS e os mecanismos de agregação social possam tomar a si encargos cada vez mais complexos e que, ao fim e ao cabo, serão melhor solucionados fora do circuito oficial e do stablishment. Aproveitemos sabiamente as oportunidades da tecnologia para efetivarmos um contra-fluxo dentro desse sistema, criando comunidades bottom up de que nos fala brilhantemente Steven Johnson. Necessitamos de feedback, de interação, de inteligência coletiva; somos carentes cada vez mais da curva enquanto metáfora criativa. Afinal, se é preciso uma resposta à naturalização da miséria e da corrupção, e se nós mesmos sofremos as suas conseqüências, porque não buscarmos minorá-las através da nossa participação?

06
Jul
09

O brilho da lua

Hora do conto por Juli Goes

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=CRIAN%C3%87AS+E+HISTORIAS&page=3

O brilho da lua

O melhor momento, para pai e filho, era o da noite quando, deitados e na hora de dormir, o menino pedia ao pai que lhe contasse “uma estória”. Ambos se enroscavam e o pai sentia que os olhos do menino se iluminavam, já antecipando o prazer do conto, e ai daquele se tentasse repetir alguma estória; o garoto de seis anos reclamava na hora: “Ah, pai, essa tu já contou” ou “Ah, não, essa é chata!”, decretava. Então, sem alternativas, lá ia o pai criar uma estória nova, desde duendes até capa e espada, desde heróis até as mais tecnológicas, onde sempre havia um monstro (crianças amam monstros), ou uma máquina de tempo (de preferência indo para o futuro) ou qualquer outra engenhoca (foguete, nave espacial) que estimulasse a imaginação.

O menino acompanhava atento para entender e apreciar a estória, sem perder nenhum detalhe, criando os personagens na medida em que seu pai ia avançando na narrativa. De repente, na hora de dormir, o quarto virava cenário único em que pai e filho se sonhos de encantamento. Então o quarto ia sendo suavemente invadido por piratas, elefantes, baleias, crianças, fadas, gnomos, sereias, reis, castelos, pó de pirlimpimpim…

Ambos, ali, sem se darem conta, estavam criando uma história dentro da estória, um roteiro que não constava em nenhum filme, novela ou romance mas que se construía e se constituía como um rico argumento de suas próprias vidas. Assim, nas noites de inverno, enquanto o vento zunia lá fora (vento mesmo ou lobos à procura da caça?), pai e filho se preparavam, só eles, sem que ninguém mais soubesse, para buscar, nas estrelas, o brilho da lua.

30
Jun
09

F. e a diagonal

 por elisandro.borges

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=desespero&page=2

F. sabia que talvez não fosse possível atravessar a avenida Assis Brasil; sempre, àquela hora o vaivém dos veículos era enlouquecido, além dos dois corredores de ônibus, cujo trânsito nunca cessava. Mesmo assim, movido pelo desespero, F. cruzou a avenida na diagonal. Pura roleta russa. Pura diagonal de homem gol. Pura diagonal que traduzia uma vida também assim, de atitudes incompreendidas, contidas até o extremo, atravessadas. F. realmente não se entendia. Tanto modo pra se matar e foi escolher justo o mais difícil. Poderia simplesmente usar, dos métodos, o melhor: um frio disparo de arma contra o palato. Mas não,foi buscar justamente um dos mais arriscados e que podiam, além de causar muita dor, falhar. Como quase tudo em sua vida, pensou, mas pensou errado e agiu pior ainda. Coisa de amador ou de quem, no fundo não tem coragem de assumir o que quer. “Sou um fraco”, foi o último pensamento que teve antes de sofrer o inevitável golpe.

F. não morreu, mas partiu a coluna, ficando tetraplégico e – se algo ainda podia ser pior – totalmente dependente de quem tanto odiava, justo quem lhe fizera cair em um desespero tão grande que o impeliu a atravessar, como um ensandecido a avenida Assis Brasil. “Entrevado” era a única palavra que vinha à mente de F., prostrado em cima de uma cama para sempre, uma vez que não dispunha de recursos para amenizar suas dores. Seu desgosto e a sensação de inutilidade eram sua companhia constante. Queria, urgentemente, levantar daquela maldita cama que o retinha como uma prisão e que o afastava definitivamente de uma vida que tanto gostaria de retomar.

Em uma madrugada, quinze anos após o acidente, reduzido fisicamente a um nada e totalmente dependente, vei0-lhe a redenção esperada, através de um ataque cardíaco fulminante; nada pode salvá-lo e, gostemos ou não, a história acaba aqui, porque nem sempre a vida real segue os roteiros de novela e menos ainda os heróis estão dispostos, quando desejamos, a salvar o mundo.

26
Jun
09

Bom humor ou ironia?

comedy / tragedy por Mr.  Mark

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=comedy&page=7

 

Maimônides disse: “O complexo está na superfície, mas para entendê-lo teríamos, nós mesmos, de sermos muito complexos.” Muitas vezes não temos a noção dessa complexidade. Partimos de nossas infelicidades quando tentamos entender o simples. De certo modo, somos culturalmente constrangidos a tornar mais difícil o que poderia ser entendido de modo menos doloroso.

Dependendo do nível de informação e das possibilidades reais de mobilidade cultural que possuímos, é esperável – quase impositivo – que sintamos dor, mal estar, depressão e um agudo sentimento de culpa e que, preferencialmente, nos dilaceremos. Há toda uma justificativa social para isso. Somos compelidos a infelicidade, às obrigações, às rotinas e assim por diante. Acreditamos firmemente em nossos terapeutas e em toda uma parafernália que sustenta e que se sustenta a partir do conceito triste de seriedade e de infelicidade.

Freud em O Mal Estar na Civilização (década de 30),argumenta que a construção da civilização é um exercício de repressão de Eros por parte de Tanathos,o que gera agressividade e desamor. O sistema social que nos limita é o mesmo que nos incita a sermos felizes, geralmente através da compra e venda, seja de produtos, de ideologia, ou de um estilo de vida. Assim, aprendemos a negociar ou a impor os nossos sentidos e sentimentos. Queremos inclusive que o outro sofra o que nós sofremos, o que é impossível, pois pessoas são diferentes. Podemos ser solidários, podemos ser piedosos, mas sentimos de modo distinto. Cada um chora o luto a seu modo.

Neste quadro o (bom) humor não é valorizado; antes é visto como um vício e não uma virtude, especialmente por quem se leva muito a sério o que, em realidade, é muito triste. Às pessoas muito sérias falta um pouco de autenticidade. Alguém que tenha a capacidade de trazer alegria a si mesmo e aos outros, não é bem visto por quem pretende demonstrar aos outros que viver infeliz é o normal e que portanto, somente a seriedade e a compra material ou a ascensão profissional são coisas que merecem ser vividas.

O humor, em si, é inclusivo, é uma virtude. Os que estão infelizes não suportam a leveza do humor. O mundo, afinal, é um calvário e, portanto, crêem que o ideal é buscarmos problemas como se isso fosse uma predestinação divina. No fundo, são pessoas que perderam o rumo do simples, da autenticidade, não se permitindo viver em paz. O tormento as comove, a intolerância e a sisudez são suas armas de combate.

Tais pessoas adoram a ironia, que é o inverso do humor. A ironia é uma arma, pronta para ser usada em qualquer circunstância; ela fere, ela marca territórios, ela exclui. Um irônico ri sempre dos outros, nunca de si mesmo. A ironia é sempre séria, sempre procurando algo a que cortar, é um fio de navalha, um estopim pronto a ser aceso. O irônico perde em humanidade, o bom humorado ganha em convivência, em solidariedade; o irônico se perde em solidões.

A não aceitação do humor pelo irônico bem fala a respeito de suas diferenças. Para o irônico, o bom humorado é o palhaço, o carente, o tolo, o bobo da corte, o que diverte aos demais buscando ser incluído por estes. O humor é algo viciante e só deve prevalecer desde que se lhe imponha regras, momentos, porque sendo sérias tais pessoas, elas possuem dificuldade em lidar com o inusitado, que é justamente uma das matérias primas do humor.

O humor é a flor do pensamento, sua ativação mais interessante. A ironia é a flor da tristeza e do afastamento. O humor, no fundo,  talvez tenha apenas comiseração quando encontra a ironia; irmã bastarda da leveza, seus passos irrompem trazendo o monocórdio, apontando armas enquanto o humor já se foi por ali, entre as árvores e os mares, apontando o caminho do que é belo, risonho e amorável.

É claro que ninguém é (ou pelo menos deveria) ser totalmente bem humorado ou irônico. Há uma necessidade de ambas as situações dentro dos diversos cenários que atravessamos diuturnamente. Contudo, quase sem querer ou sem percebermos acabamos tendo padrões de comportamento que demonstram que nossas escolhas fizemos para nós mesmos. Minha opção, consciente, já foi tomada. E a sua?

26
Jun
09

Viver

Itaúnas, Espirito Santo por bpwilby 

 Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=esp%C3%ADrito&page=2

VIVER

Na medida em que crescemos, buscamos nossa independência, que associamos e traduzimos como sucesso em termos materiais, o que é uma ilusão. Não crescemos por acumularmos coisas, mas pela nossa capacidade de entendimento de nós mesmos e/ou dos outros, o que implica em aceitação, transigência e sensibilidade para vermos nos outros o que, não raro, ocultamos de nos mesmos.

O exercício da aceitação, contudo, é penoso; preferimos bem mais cultuar nossas idiossincrasias e opor barreiras aos que não pensam ou agem do mesmo modo que nós. Somos sectários. Nosso possível sucesso profissional diz respeito ao mundo das coisas, mas não ao espírito. Confundimos instâncias e papéis sociais. Muitas vezes acreditamos poder usar os mesmos padrões do mundo material em nossos contatos humanos, o que é um erro crasso.

O homem gera o contrato, mas não é o contrato, do mesmo modo que uma obrigação pactuada não é uma obrigação moral, e por aí continuamos de modo ingênuo, arrogante ou pretencioso confundindo comportamentos e necessidades reais e ilusórias. Nos tornamos, finalmente maduros quando, ao longo dos anos finalmente compreendemos o que é realmente importante e o que obedece à mera aparência e conveniência social.

A partir daí, finalmente podemos refletir sobre o mundo das coisas e do espírito, sabendo que, embora ambos se interpenetrem, possuem essências distintas. Só então estamos razoavelmente prontos para a melhor das artes e a mais grata de todas as experiências: viver.

Café da Oca, POA, 23-06-2009

20
Jun
09

Perguntas e respostas

 por Dani Pizzo

Fonte:

http://www.flickr.com/search/?q=p%C3%A9rguntas+e+respostas&page=8

Há perguntas que nem sempre são feitas para ser respondidas; somente a experiência pode distingui-las das demais. Algumas são utilizadas como armas, tão-só para desqualificar aquele que deveria respondê-las; na verdade são afirmações ou cobranças disfarçadas com um ponto de interrogação. Sua existência é apenas uma forma de colocar o outro em uma situação de incômodo, de inferioridade, de culpa. Tais perguntas, no fundo, querem simplesmente ferir.

Há respostas complexas, que demandam situações, por vezes delicadas e que, em princípio, não deveriam ser envolvidas na questão; quem responde deve então ter uma perícia muito grande para recortar, do complexo, o que realmente importa e caiba aí, além de uma paciência beneditina para não encalacrar-se, deixando de citar fatos que julgue relevantes, mas que poderiam levar a discussões bem mais largas do que o que a pergunta, maliciosamente, quer saber. Nesses casos, o que mais importa na resposta são os “cortes” que a prudência recomenda.

Mais complicado ainda é você se quem pergunta é um (a) estrategista, pessoa que tem imenso talento para manipular cenários com o objetivo de obter o que deseja. Dá-se, pois, que as complicações muitas vezes são urdidas anteriormente e terminam por constituir um caminho nem sempre bem orientado, ou particularmente desorientado. A pergunta vem como um complemento para trazer maiores desentendimentos.

Recortar um conteúdo não é tarefa fácil e normalmente requer uma experiência bastante grande. Há pessoas que não se satisfazem com o que perguntaram e ficam cada vez mais buscando pontos de atrito, com o fito de poderem então dizer o que realmente pensam. Caberia às mesmas o exercício de pensar antes de perguntar ou simplesmente pensar sobre o que a sua pergunta encerra. Discussões são próprias, mas não quando simplesmente se quer partir de critérios arrogantes para impor sua própria opinião.

O exercício da mediação é quase que impossibilitado quando cremos que temos de defender como um castelo nossos próprios pontos de vista, quando queremos impor aos outros as nossas opiniões, geralmente desqualificando o terceiro para que nos sintamos vitoriosos ou para tentar inculcar um sentimento de culpa em outro, mesmo que saibamos que isso não é real. A deslealdade de uma discussão levantada a partir de prerrogativas infamantes só pode levar ao desrespeito e ao estresse sem sentido.

O que menos importa é a pergunta ou mesmo sua resposta, se partimos do ponto de vista de que possuímos a razão. Qualquer movimento contrário será visto ou como uma defesa indevida, ou como uma queixa inapropriada. O passo seguinte é querer forçar o outro a pensar e a agir de acordo com o que desejamos. Não temos aí uma relação adulta, mas a mera submissão. Submetem-se, em princípio, os que dependem de terceiros e essa dependência pode ser de várias ordens, mas sempre caracterizará a dependência. Há pessoas que se habituam a subserviência de outras, e que, por estarem assim acostumadas, não conseguem ver no outro alguém que se posiciona de modo distinto ao seu.

Trata-se, muitas vezes, de uma postura arrogante, possivelmente de alguém que encarou no mimo a si mesmo uma virtude. Para a mesma não há limites possíveis, mas a simples e comum gritaria que não leva a nada, a não ser ao desrespeito, à quebra de limites e à falta de convivência. Preços altos demais a pagar? Depende da relação que você tem com quem você quebrou os limites.

A pedagogia do silêncio, talvez, seja uma resposta apropriada, não no sentido de afastamento, mas como uma viva recordação de que estamos todos sujeitos a aprender. Nem que tenhamos de nos portar como Sísifos ou que a vida, com sua imensa sabedoria, tome a nós mesmos como aprendizes.

20
Jun
09

Paradoxo

♥  MUNDO UNO  ♥ por Tommok

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=mundo&page=7

Talvez em nenhuma outra época tenhamos acumulado tantos recursos científicos, técnicos e de conhecimentos. No entanto admitimos um caos social organizado e consciente orquestrado por parte daqueles que não tem qualquer compromisso senão com sua própria vaidade e egoísmo. Aceitamos pacificamente que pessoas e organizações acumulem riquezas materiais publicáveis apenas em cifras de milhões, de bilhões, assim como o fazemos em relação aos milhões que vivem abaixo da linha da miséria e que não tem acesso à medicina, à educação, à habitação e condições mínimas de cidadania. Continuamos tratando de fontes de reservas animais, vegetais, minerais e do subsolo como se fossem inesgotáveis, quando sabidamente não são. Nunca, por efeito das tecnologias de comunicação, da informática, da medicina, da biotecnologia e da agricultura estivemos tão próximos de conseguirmos solucionar os problemas mais aflitivos que afligem a todos, o desemprego, a violência, o cansaço, a dor e, por outro lado, nunca depredamos tanto, além de demonstrarmos conscientemente nossa indiferença social, cultural, afetiva e financeira em relação ao outro. Somos radicais na preservação dos nossos sítios, mesmo que as raízes plantadas estejam minguando dia-a-dia.

Descartamos valores como solidariedade, maturidade, amizade e compaixão, substituindo-os pela arrogância, pelo dinheiro e pelo consumo. Como desaprendemos a conviver, para quase tudo deve haver uma lei, uma norma, uma regra, uma normatização para regular nossos comportamentos, o que aumenta a sensação de perda de liberdade individual. Para sabermos que não podemos dirigir alcoolizados milhões são mobilizados em campanhas publicitárias para dizer-nos o que já foi ditado pelo bom senso. Admitimos ainda regimes fechados de governo, bem como o jogo sórdido promovido por meios de comunicação. Sabemos definir problemas, mas não temos ética nem respostas institucionais equilibradas para encaminhar as soluções.

O mundo, mesmo assim, progride. Nunca houve tantos hospitais, tanta informação, tantas possibilidades de uma vida com maior qualidade. As organizações sociais, comunitárias e assistenciais se multiplicam. Indústrias criam necessidades artificiais para que nós, consumidores, possamos nos perder em sonhos e cartões de crédito, enquanto campeia a violência e a desumanidade programadas, o que aumenta o cinturão de miséria que a cada dia se torna mais denso, apertando os limites das grandes cidades.

Confiamos em religiões, mas não em nossos vizinhos que, na maior das vezes, desconhecemos. Dizemo-nos civilizados, mas banalizamos a tortura, a guerra comercial e os extermínios étnicos, que, em nome das religiões, são tolerados, incentivados e mesmo banalizados pela imprensa, a mãe de todos nós. Nossa solidariedade termina onde começa nosso interesse. Somos um poço de paradoxos e examinamos nossos umbigos como se o mundo todo estivesse ali, para prestar suas homenagens às nossas frágeis e inconsistentes arrogâncias.

No entanto, continuamos, e as nossas vidas vão construindo pontes entre tais paradoxos e inconsistências. Então nos dizem que o caminho para que consigamos sair destas incongruências é a educação, mas mesmo ela não tem a capacidade de iluminar tanto esta longa estrada. É necessário, além dela, que tenhamos informação, além de uma tábua de valores e de virtudes que não se esgotem e não se esvaiam quando surgem interesses menores.

Hay hombres que luchan un dia y son buenos. Hay otros que luchan un año y son mejores. Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos. Pero hay los que luchan toda la vida: esos son los imprescindibles. Bertold Brecht.

É necessário cultivar a inteligência no sentido civil, não nos alienarmos do que ocorre, não pensarmos que o que acontece além de nós não nos alcançará, mas nos colocarmos na pele daquele que já foi alcançado pelo infortúnio; que não tenhamos medo de contrariar pessoas ou instituições e que busquemos a probidade; que tenhamos coragem para dizer o que é justo mesmo que tenhamos prejuízos com isso. É hora de nos tornarmos mais que homens e mulheres, mas humanos. Somos todos humanos e não podemos compactuar com o vírus paralisante e letal da estupidez.

16
Jun
09

Conveniências e realidades

Estranha Criatura - Construção por José Ferreira 2009

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=ACEITA%C3%87%C3%83O&w=all

Pois, em algum livro de interesse, li que a sala dos professores é um dos locais mais estressantes que existe. Infelizmente a minha experiência me faz concordar com tal assertiva. Há muitos anos lecionando, já perdi a conta de quantas impropriedades, tolices, desmandos e idiossincrasias me brindaram em tal ambiente. Talvez por isso a minha tendência seja a de não permanecer ali nas horas de intervalo. É claro que, ao longo do tempo, algumas raríssimas amizades vão se solidificando. O que ocorre é a proximidade de pessoas que, por se respeitarem, paços de interesses comuns, o que pode ser potencializado e vir a se transformar em algo mais do que o cumprimento de uma agenda profissional. Contudo, isso depende de tempo, de confiança e de um envolvimento todo especial, que não pode ser confundido com conveniências que nada mais são do que os ajustes de interesses, que podem ser mais ou menos nobres, egóicos ou narcisistas, mais solidários ou individualistas até as raízes dos cabelos. De qualquer modo, as conveniências existem e continuarão existindo. Satisfazê-las ou não depende de uma tábua de valores que vamos incorporando ao longo das nossas histórias e, que são elementos constitutivos de nossa personalidade. A questão de fundo é quando você, de modo ostensivo, sacrifica deliberadamente a sua tábua de valores em nome da conveniência, sua ou de outros. Você deixa de ser o que o identifica consigo próprio ou a de outros. Você deixa de ser o que o identifica para ser simplesmente agradável, querido, etc., pelo outro. Você fratura a si mesmo e expõe a sim mesmo, pois, por várias circunstâncias, pretende ser conveniente, azeitado, aceito, por esse outro; você não se sustenta porque renunciou a sua identidade, não coloca seus pontos de vista e sua visão de mundo porque “não vale a pena”. Sua submissão o afoga e você simplesmente esqueceu como nadar ou apenas abandonou a si próprio. O que alavanca esse processo de perda de auto-imagem, em princípio é a conveniência, mas também pode ser o sentimento de culpa, de depressão, de sentir-se vazio, pelo que você busca, para compensar tal situação, naturalizar o que não é de forma alguma natural, mas tão-só ideologicamente construído. Dentro de uma sociedade complexa, vários papéis devem ser exercidos e, para cada um deles, espera-se o desenvolvimento de habilidades específicas: a atenção no caso do aluno, o comprometimento profissional, a perícia em atividades de risco, a prontidão quando necessárias respostas rápidas, e assim por diante. Há papéis sociais, contudo, que exigem mais do que habilidades, mas uma simbiose entre aquelas e o sentimento, o feeling, uma prontidão afetiva, amorosa, que pode mesmo levar a doses mais ou menos razoáveis de renúncias e sacrifícios pessoais. O mais evidente de todos esses papéis é o da filiação. Se você abre mão das suas convicções simplesmente para atender aos desejos dos seus filhos, você deixa de ser pai, passa a ser simplesmente uma pessoa com a qual eles entretêm relações de conveniência. Cabe a você decidir o que fazer. A paternidade – de modo genérico – consciente leva a lidar com múltiplos cenários e com uma carta de valores distintos: amor, ética, compromissos, responsabilidade e educação, cada um significando e sendo significado dentro de uma relação que muitas vezes é confundida com mera conveniência. Sendo tais fatores muito mais que especulações, temos ainda de considerar que vivemos em uma sociedade de consumidores, de alta rapidez e volatilidade, em que conversas necessárias com adolescentes são muitas vezes trocadas por bens materiais, como tênis, viagens, celulares, festas, etc. Mercancia-se com os adolescentes da mesma maneira como mercancia-se com um comerciante o preço de uma camisa. Isso implica em que o adolescente sofrerá uma perda no que respeita aos valores sociais e éticos que teria de desenvolver e seguramente desempenhar quando adulto. O mundo se resolve através da negociação e não através da mediação, o que é um erro. Há valores que não são passíveis de ser negociados; para bom entendedor, há situações e cenários que não se prestam para tanto. De qualquer modo, a conveniência se presta sempre a quem não sustenta a sua posição ou tem interesses em se demonstrar desta ou daquela forma. A conveniência busca a submissão e se alimenta de vagos sentimentos de culpa, reais ou manipulados por terceiros. Ser conveniente é igualmente uma escolha pessoal, que pode ser evitada. Talvez a consideração desses fatos seja uma opção para refletirmos sobre nós mesmos e, especialmente, matutarmos sobre exercermos ou não o direito inalienável de nos respeitarmos, deixando de ser marionetes teleguiados pelo desejo de terceiros.

15
Jun
09

Bem vindo à tribo

Ser Diferente..... por Vely***

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=diferente&page=2

Uns dias atrás, mais ou menos um mês, tive uma nova abordagem de um mundo desconhecido. A sensação não foi a de acolhida, senão de estranhamento.  Observei que determinados padrões que não só eu conhecia como tinha ajudado a criar se esboroaram, se perderam nesse novo mundo. Algo assim como você se empenhar em plantar e cuidar de uma ameixeira e, após tanto zelo, colher uvas. Nessa situação você perde a referência do que ajudou a criar, especialmente quando a videira parece gritar: “mas foi você que me criou!”

“ Não, eu não criei uma videira, eu criei você ameixeira, e ameixeiras não produzem uvas”, é o que digo, mas novamente parece que a videira não ouve. Ela insiste, mas nada pode modificar o meu passado, assim como não posso admitir o que não fiz. Mas, por outro lado me parece que isso não importa muito ao mundo que desconheço. Durante muito tempo investi afetividades, amores, carinhos e cuidei da ameixeira e agora ela vem me dizer que é uma videira! Estranho mundo esse, local em que você, sabendo que deve alcançar a nado a outra margem do rio, se joga com vitalidade e força mais do que suficiente para enfrentrar a correnteza, mas a cada braçada que dá, a margem se afasta na exata medida do esforço dispendido.

Os referenciais que você tentou imprimir perderam-se em um processo do qual você não participou. Apenas existem alguns deles, talvez aqueles que alertem a videira que na realidade ela é uma ameixeira, o que ela reluta em aceitar. Ela deixa de existir enquanto algo que foi criado, para se transformar em algo artificialmente manipulado. A questão crucial é que a agora videira, quer convencê-lo de que você deve embarcar no mesmo barco, ou seja, você deve admitir não apenas que a ameixeira é uma videira como ainda comer as ameixas sentindo o sabor de uvas…

Você deve se habituar com um mundo que não é mais o seu, mas que não repõe referências que sejam entendíveis por você. Não há uma interface possível porque estamos lidando com linguagens diferentes e, especialmente com comportamentos que partem de visões diferentes de mundo. Você não tenta ser impositivo e se arrepende na medida em que elegeu tão-só questões argumentativas e éticas para estabelecer as suas relações de autoridade, e percebe que elas não funcionam mais, porque os argumentos, cada vez mais se perdem em uma complexidade diáfana. Tudo, em todos os aspectos se dilui, e você acaba, por fim, entendendo que pertence a uma tribo exógena. Não há mais argumentos porque não há mais idéias a serem pensadas ou defendidas.

A voracidade do consumo, da aparência, da manipulação, do dinheiro, da posição social e do diuturno refazer de papéis sociais simplesmente o cansa. Não se trata, inclusive, de falta de vitalidade para encarar de frente esse novo mundo, mas apenas se trata de falta de vontade de participar dessa mutação adolescente, especialmente se adultos estiverem se posicionando desta maneira. Todos os valores importam, mas alguns muito mais do que os outros, e você os sustenta e mantém. Preso em uma experiência de vida sólida, você não pretende participar desse happening de factóides do dia-a-dia, não precisa mais andar em meio à corda bamba para se fazer respeitado, em trocar de idéia como quem troca de roupa, o que não o faz inflexível, mas experiente. Você já atingiu esse ponto, e o fez independentemente do que você possua em termos materiais. Não precisa mais ser sempre agradável para não desapontar sua mãe, seu pai, seus filhos, sua mulher e assim por diante. Não precisa mais da mutável aparência para ser aceito por a ou por b. Simplesmente você é.

Bem vindo à tribo.




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